Uso de tecnologia para evitar enchentes ainda é um desafio


A qualquer sinal de chuva forte em Belo Horizonte, um enorme aparato tecnológico entra em ação: 42 estações – sendo 11 pluviométricas, 27 fluviométricas e quatro climatológicas – passam a ser monitoradas de perto para identificar o risco de inundação. Se o volume dos cursos d’água atinge o nível crítico, mensagens de alerta começam a ser disparadas para cerca de 190 mil celulares cadastrados por cidadãos junto à Defesa Civil. Um aplicativo de mobilidade também avisa motoristas sobre vias bloqueadas por causa da possibilidade de alagamentos. No entanto, a cidade ainda enfrenta o desafio de encontrar tecnologia que, mais que alertar quando enchentes já estão prestes a acontecer, trabalhe para ajudar a evitar que elas aconteçam. 

O problema não é exclusividade da capital mineira. O cientista da computação Jó Ueyama, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP), afirma que a falta de dinheiro público e, em alguns casos, o desinteresse das administrações municipais em apostar em novas ideias acabam dificultando a criação de projetos capazes de auxiliar na prevenção de inundações, em vez de apenas mitigar os efeitos das tragédias.

Criador do e-Noé, um sistema de monitoramento do nível de rios e córregos que usa inteligência artificial para transmitir dados em tempo real por meio de uma rede de sensores sem fio, Ueyama sugere que “o poder público poderia se aproximar mais da universidade, porque os pesquisadores criam soluções”.

Alternativas

O empresário Carlos Chiaradia, fundador da Net Sensors, startup que desenvolve projetos para cidades inteligentes, também avalia que a tecnologia pode fazer mais para evitar as enchentes. Um exemplo simples, segundo ele, é um equipamento desenvolvido pela empresa e que mira as bocas de lobo.

“É um cesto com sensor que avisa quando o bueiro atinge 70% da capacidade. Assim, a prefeitura sabe exatamente onde está o problema e retira o lixo preventivamente, evitando pontos de alagamento”, explica. A Prefeitura de São Paulo afirmou, em nota, que já testa os cestos inteligentes e aguarda os resultados para comentar sobre a eficácia dos sensores. 

Já a Prefeitura de BH defendeu que, embora não tenha tecnologia voltada exclusivamente para evitar a ocorrência de enchentes, o município usa os dados coletados pelas 47 estações do sistema de monitoramento hidrológico para “orientar a política de mitigação do risco de inundação, que inclui planos e projetos de controle de cheias”.

Inovação precisa respeitar a natureza

“Todo conhecimento (científico) que temos, aprendemos com a natureza. Então, para ser boa, a tecnologia tem que se basear em ideias sustentáveis”, pondera Apolo Heringer, idealizador e fundador do Projeto Manuelzão, ao ser questionado sobre o uso de inteligência artificial para evitar enchentes. O ambientalista não condena o uso de aparato tecnológico como forma de enfrentar o problema, mas acredita que “respeitar o ciclo hidrológico” e devolver a permeabilidade ao solo das grandes cidades são caminhos mais eficazes. 

“Não podemos ficar inventando moda. A água da chuva deve ficar onde ela cai”, defende Heringer, que aponta o método construtivo usado desde a fundação da capital mineira, que priorizou o concreto no lugar da terra exposta, como um dos principais causadores de enchentes.

Para o ambientalista, faz mais sentido devolver ao solo a capacidade de absorver a água da chuva e promover ações educativas para conscientizar a população sobre a importância de não cimentar quintais. “O ideal seria que 80% dos quintais fossem permeáveis, mas, depois que o projeto (de construção) é aprovado, as pessoas vão lá e concretam tudo”, observa. 

Plano Diretor
Em vigor desde 5 de fevereiro, o novo Plano Diretor de BH prevê, entre outras coisas, a criação de 930 km de corredores verdes para aumentar as áreas permeáveis no município. 

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