Uma família de palhaços para agitar a tarde do sábado


Adentrava o ano de 2017 quando a Cia Circunstância começou a elaborar o seu próximo espetáculo. Mas nem tudo eram flores no horizonte, como lembra Dagmar Bedê, a palhaça  Tica-tica do Fubá, “mais por conta da conjuntura política, econômica e cultural do país”. Mas sim, havia também uma mudança na constituição familiar do núcleo formado por Dagmar e Diogo Dias, fundador da Companhia o ator por trás do palhaço Alegria Também. É que, à época, Ravi, o filho do casal, tinha pouco mais de um ano. E os dois não tinham com quem deixá-lo. “A  maternidade e a paternidade inevitavelmente diminuem drasticamente o ritmo de produção, principalmente quando se é autônomo”, reconhece Dagmar. Não por outro motivo, o início do ano pegou os dois de calças curtas. “Nosso grupo sempre teve muita agenda, fluxo, demanda, e, de repente, a gente não tinha trabalho, o bicho tava pegando.  Pensamos: ‘E agora, o que vamos fazer?'”. 
 
Foi quando a resposta veio como um clarão. Ir para a praça. “Já era desejo nosso criar um espetáculo juntos, eu e o Diogo, e ir para a praça passar o chapéu, pois, assim, ao mesmo tempo que salvaríamos a semana, a gente começava a criar alguma coisa. E como não tinha ninguém para ficar com a criança, íamos para praça com ele e a gente falava com o público: ‘Olha, aqui é um circo de família, a gente está entretendo vocês e, se por acaso o menino sair andando por aí, isso não está ensaiado – é para correr atrás dele, por favor'”, ri. 
 
A este embrião juntaram-se, na sequência, a palhaça Adriana Morales que assina a direção ao lado do parceiro do Grupo Trampulim, Tiago Mafra. E o que era bom ficou ainda melhor. Tudo ia nesse compasso quando veio… sim, o novo coronavírus. Depois de um hiato para  se acostumar à nova realidade de uma pandemia, a trupe  encerra essa que é a temporada de estreia de “Circo de Família” totalmente em consonânia com as normas que o momento exige. Ou seja: tem circo? Tem, sim senhor. E é neste sábado. Mas com transmissão ao vivo, a partir das 15h, diretamente da casa dos circenses, no Bairro Concórdia. Via canal do Youtube e Facebook da Cia Circunstância: https://www.youtube.com/user/AlegriaTambem. Classificação indicativa: livre. Duração: 60 minutos.
 
“Ficamos praticamente um ano ocupando a praça da Assembleia. Pegamos alguns números clássicos do circo e fizemos uma releitura, e, em 2018, a gente conseguiu entrar em dois festivais na França (o Festival Arts de Rue de Uzerche e o Festival International de Theatre de Rue de Aurillac). Como não conseguimos passar no edital do Circula MInas, que existia na época, abrimos uma vaquinha e, até quando voltamos de lá, ainda estávamos em campanha para conseguir pagar os custos mínimos da viagem”. Apesar do entrave da língua, a viagem foi super bem sucedida. E agora, é o respeitável público que está em quarentena que vai ter a oportunidade de ver. Ou rever. “Acredito que a gente tenha condições tecnológicas mínimas para uma boa apresentação. E´é a realidade que nos foi imposta, o que temos para hoje. E que bom que podemos. Nossa praia sempre foi a rua, assim, nunca tivemos muita preocupação com vídeos e internet, a não ser o básico da produção de um espetáculo. Por um lado, tem vantagem que nos força a entender outras linguagens, o que é interessante e nos faz crescer. A verdade é que não podemos parar.  Se é assim que dá para fazer arte hoje em dia, é assim que a gente vai fazer”, entende Dagmar.
 
Sobre os papéis, a atriz diz que a trupe os chama mais de personas que de personagens. “A palhaçaria vem da pesquisa interior de cada um, cada palhaço tem um olhar do mundo que é fruto de suas vivências. É um universo dentro de si. Não dá para falar: ‘Ah, eu sou o palhaço bobo’, ‘eu sou o ranzinza’, ‘eu sou alegre’. São várias camadas. O adulto que faz palhaco busca a ingenuidade da criança, a gente fala que a criança é um palhaco espontâneo, pela inocência, experimentação da curiosidade. Com o tempo, a gente vai criando cascas, e depois tem o trabaho de tirar (essa camada) de novo para resgatar (a criança que fomos)”. No mais, ela explica o título do espetáculo. “Somos pai, mãe e filho espetáculo, então, o espetáculo traz essa  configuração familiar circense porque somos uma (família circense)”. 
 
Sobre a narrativa, Dagmar conta que sempre fala, ao final, que o espetáculo é uma grande desculpa para falar: “Amem e sejam amados”. “Reforçar que toda forma de amar vale a pena. E esses personagens trazem isso, essa luta diária de amar e aceitar o erros do outro, e de vivermos juntos, e perdoar, seja a si mesmo ou ao outro, e, desse modo, termos a certeza de caminharmos juntos”.  Ravi, hoje com quatro anos, provalmente estará com os pais na live, assumindo as vestes do Pirueta Ravioli. “A galera pira com o Ravi. E para ele, é uma grande brincadeira. Mesmo porque, entendemos que criança não trabalha. Por isso, ele é absolutamente livre para dizer ‘hoje eu não quero’, e tá tudo certo. Se não quiser, tá tudo ótimo. Tem o Luciano Antinarelli, músico, que nos acompanha, e que virou  o Tio Lu. Então, quando não está a fim de participar, o Ravi fica com Tio Lu. É tudo muito livre, mas, quando participa, ele se diverte  bastante”, afiança.

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