Um sujeito supostamente urbano numa cidade grande.

Barulhista

©Barulhista

Quase todo mundo pensa em São Paulo como uma cidade grande, cheia de pessoas
correndo para o trabalho, e acompanha na tv o noticiário violento de uma megalópole (esta é a primeira vez que escrevo esta palavra) que parece não parar de crescer. Olhando de perto são várias cidadelas e nichos de nichos acumulados no tempo e espaço. Falando nisso, eu que cresci no subúrbio de Contagem e decidi após tantos anos morando em Belo Horizonte viver aqui em São Paulo. Pois é, estou aqui a menos de um ano e a convite do Portal Nova Contagem ofereço a vocês minhas primeiras impressões.

A título de ilustração, o que mais me impressionou (e quase todo mundo deve se
impressionar com isso) foi o metrô. Há quem diga que nós mineiros chamamos metrô de trem e trem de metrô. São ocasiões em que, pelo menos pra mim, nenhuma piada dá conta. O metrô de São Paulo, em funcionamento há 44 anos, é algo que funciona, apesar de já ter ouvido muita gente reclamando que ele demora a passar. Cá entre nós o intervalo médio entre os trens é de 128 segundos, sim eu disse segundos, a cada 2 minutos passa um metrô. A velocidade é só uma parte da coisa, existe uma etiqueta a ser aprendida para o uso e eu demorei um bocado para aprender. Seja enroscado na roleta sem saber onde colocar o cartão para liberar a passagem ou parado no lado esquerdo da escada rolante, já me vi muitas vezes atrasando o PIB da cidade com a minha tranquilidade mineira. Seja como for, este é um exemplo de uma profanação do dogma metroviário: não ficarás parado à esquerda na escada rolante.Taí uma coisa boa de Minas Gerais importar. É uma atitude simples, mas pra turma que tem pressa a diferença é grande. São 5 milhões de pessoas por dia e os momentos mais intensos no metrô rendem boas histórias sempre. A última foi quando voltando pra casa encontrei um amigo que desceria na estação Sé. No momento certo se despediu, eu fiquei sentado vendo ele caminhar até a porta que quando abriu fez jorrar gente – comporta de represa, já viu? – vi os braços dele procurando onde se segurar e enviei a mensagem: não foi dessa vez.

O bairro onde moro se chama Ipiranga, um dos mais antigos de São Paulo e que tem
pontos históricos importantes. O Museu do Ipiranga, também conhecido como Museu Paulista foi inaugurado em 1895 e fechado em 2013 por conta de problemas em sua estrutura. A reforma começou agora em 2019 e a reabertura está prevista para 2022, ano da comemoração do bicentenário da independência do Brasil. Há também o Parque da independência, bem em frente ao museu, onde um monumento simboliza o famoso ¨grito do ipiranga¨. Dentro do parque se vê a Casa do Grito, que aparece no lado direito do quadro do pintor Pedro Américo que retrata a cena. Ainda como parte do Parque há uma ladeira, uma descida de 450 metros e 30 graus de inclinação, é onde ando de skate. Desde a infância é um esporte que nunca abandonei, mesmo sem andar durante uns 8 anos, sempre segui de perto as competições e novidades. Aqui na ladeira do parque muitas vezes eu sou, aos 38 anos, o mais novo. A maior parte da turma que anda aqui tem mais de 45 anos. O Ipiranga é um bairro sossegado, lembra o clima de bairros da zona leste de Belo Horizonte, foi fundado em 7 de setembro de 1822, mesma data da proclamação da independência por Dom Pedro I às margens do ribeirão Ipiranga.

Um dos lugares curiosos que conheci aqui é o Bar do Cofre, o antigo cofre do Banco
do Estado de São Paulo, no centro da cidade, foi transformado num bar. Os espaços são
divididos por meio de duas portas circulares de 16 toneladas feitas de concreto e aço. Assim que atravessei as grades vi as prateleiras e o bar iluminados no centro do salão. A primeira porta, levava a uma sala pequena com iluminação em painéis de LED e um bar móvel com uma seleção de drinks. A segunda porta, levava a uma sala inteiramente tombada e que após o processo de restauração abriga duas mil caixas de depósito que viraram decoração, foi nesta sala que fiquei. Como o bar fica dentro de um cofre de verdade, não existe sinal de celular -nem mesmo para internet – daí me senti num outro tempo. Apesar das minhas andanças aqui estarem mais em feiras de livros independentes, casas de shows para música experimental, saraus de poesia e museus, o Bar do Cofre foi onde mais me vi numa realidade nova. (ou velha?)

Agora que contei de um lugar curioso, deixa eu contar de um lugar caloroso. Acompanhado de minha mulher fui ao desfile das escolas de samba no sambódromo do Anhembi. Já flutuava pela tv assistindo de madrugada os detalhes e a musicalidade histórica, mas por dentro a coisa é bem mais impressionante. Desses dias de guardar num caixinha, ótimo. O enorme, pungente e muitíssimo bem divulgado Carnaval ocorre na zona norte de São Paulo e vira a madrugada com tudo aquilo que a gente imagina, entende e precisa estar lá
pra sentir o pulso de uma bateria. Pra destacar o momento que mais nos emocionou, e vocês já devem imaginar, o samba enredo Quilombo do futuro da escola Vai-vai, cantei alto: É que eu sou da pele preta, quilombo do povo, eu sou Vai-Vai. Um privilégio que não é pra qualquer um, protegido e abençoado por Ogum. E placas imensas formando o rosto da vereadora assassinada Marielle Franco, vale a pena rever esta imagem no youtube. A Mancha Verde ganhou, também exaltando a força da mulher preta, outra imagem de se repetir.

Os amigos, de Contagem e de Belo Horizonte, me perguntam: e aí, já se adaptou?
Penso que isso é o que mais ouvi desde que me mudei e respondo quase sempre: Sim, já.
Afinal, a resposta inteira seria muito longa. São 12 milhões de habitantes aqui e 2 milhões em Belo Horizonte e 660 mil em Contagem. Passa mais gente no metrô todos os dias do que tem de gente em Contagem e Belo Horizonte juntas, uma adaptação dessas bicho. Percebo que esta cidade cantada por Tom Zé, por Caetano Veloso e por tantos outros compositores interessantes, tem recebido bem a minha música, as minhas criações em texto e dramaturgia sonora. Não sinto o peso de morar numa megalópole (segunda vez na vida que escrevo essa palavra) e sim a calma de estar caminhando e observando a paisagem. Seja em Contagem, Belo Horizonte, São Paulo ou em Dakar nada é mais interessante que se saber parte da paisagem.

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Barulhista é um artista premiado por seu trabalho em diversas trilhas sonoras para cinema, teatro e dança. Nasceu em Belo Horizonte, vive e trabalha em São Paulo. Atualmente escreve seu primeiro romance e grava seu próximo álbum, ambos com lançamento previsto para 2020. Para acessar o canal de Barulhista no Youtube, clique aqui

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