Ta-Nehisi Coates lança romance sobre homem que foge da escravidão


“Eu me perguntava quem poderia preencher o vazio intelectual que me atormentava depois da morte de James Baldwin”, escreveu Toni Morrison, primeira negra Nobel de literatura, em 2015. “Claramente é Ta-Nehisi Coates”. Ela comentava “Entre o Mundo e Eu”, livro brutal que o autor escreveu em forma de carta ao filho, para explicar como era crescer como homem negro nos Estados Unidos. “Sua linguagem, como a jornada de Coates, é visceral, eloquente e redentora”, dizia Morrison.
 
Nas últimas semanas, a obra voltou à lista dos mais vendidos, numa onda que também envolveu outros trabalhos de autores negros depois da nova ebulição do Black Lives Matter. 
Coates afirma que o movimento gerou “um interesse tremendo no que as pessoas consideram, entre aspas, obras antirracistas”. “Preciso ser honesto, fico só feliz de as pessoas estarem lendo mais negros. Que estejam comprando de mais livrarias de negros”. O repórter pergunta se ele acha que a tendência, de caráter mais cultural, pode provocar avanços sociais mais profundos – ou se isso é esperar demais. A resposta é entusiasmada. “Acho que sim. Faz diferença quais histórias você conta, faz diferença como você vê a sua história. Queremos contar uma história radicalmente diferente dos Estados Unidos”.
 
Mesmo que não seja abertamente política, a ficção feita por afro-americanos, ele diz, tem poder de corrigir deformações históricas, “a mais perigosa delas sendo a de que pessoas negras não são humanas”.
 
Ele próprio está lançando seu primeiro romance, “A Dança da Água”, que sai no Brasil pela Intrínseca –o livro foi distribuído aos assinantes do clube de leitura Intrínsecos e vai ganhar as lojas em setembro.
 
Coerente com a obra de não ficção que consagrou o autor de 44 anos, o livro avança seu estudo sobre a formação da negritude americana ao entrar nos pensamentos de Hiram Walker, homem que se liberta da escravidão no decadente estado sulista da Virgínia.
 
Isso ocorre não pela força de salvadores da pátria ou de revelações, mas por um longo processo de desconstrução da lógica perversa da escravidão.
“Não é só que você foi capturado pela escravidão, mas por uma espécie de fraude que pinta seus executores como guardiões do portal que barra a selvageria africana, quando eles mesmos é que são selvagens”, diz o protagonista de “A Dança da Água”, também narrador.
 
Quando se entende quem é o real bárbaro, conta o jovem Hiram, “fugir não é uma ideia, nem mesmo um sonho, mas uma necessidade, como a de fugir de uma casa em chamas”.
 
Hiram é um adolescente cativo que se destaca pela inteligência e pela memória avassaladora. Um ponto que o livro enfatiza, aliás, é como os escravos sempre conheceram mais a vida do que aqueles que os dominavam, que sempre tiveram a preguiça como ambição.
 
“É a natureza da opressão e de ser oprimido”, diz Coates. “Quem é oprimido precisa saber mais, suas vidas dependem disso. É o paradoxo do poder. As mulheres conhecem o mundo dos homens de um jeito que homens nunca precisam aprender sobre as mulheres. O escravizador não precisa viver no mundo do escravizado. E o escravizado, por estar perto do perigo e da morte, precisa saber certas verdades.”
 
Não demora até que Hiram se envolva com a Clandestinidade, organização que resgata homens e mulheres pela “underground railroad” –esquema que de fato existiu, já romanceado por Colson Whitehead num livro que venceu o Pulitzer, de rotas seguras usadas para a fuga de escravos.
 
Os caminhos de Hiram são facilitados por um poder sobrenatural chamado Condução –e a referência não é por acaso, já que “railroad” significa ferrovia. Ao recorrer a lembranças da família, ele consegue se transportar num instante por distâncias que levaria eras para percorrer.
 
Coates diz que esse lado fantástico do livro foi algo natural ao escrever sobre o período histórico. “Sinto que já estava lá. O místico está muito presente nas histórias dos escravizados. Para as pessoas daquele tempo, Harriet Tubman era uma figura mística, eles a chamavam de Moisés.”
Tubman, abolicionista ex-escravizada a quem se atribui o resgate de centenas de pessoas, está presente em “A Dança da Água”. Também ali é conhecida pelo apelido bíblico de quem abriu o mar Vermelho.
 
A Condução é uma técnica fundada na capacidade de lembrar, e uma das cenas mais poderosas do livro traz Tubman revelando aos gritos passagens tenebrosas de sua vida, para liberar a passagem de um grupo de escravizados.
 
Essa ligação entre memória e emancipação, segundo o autor, comenta “como é difícil lembrar certas coisas dolorosas e como fazer isso pode ser libertador”. “Isso é verdade para indivíduos, mas também para países e sociedades.”
 
E seu conceito de liberdade é mais nuançado do que se pode imaginar à primeira vista. Numa passagem inspirada, um personagem que escapa da escravidão diz que teve de “aprender que, no fim, estamos todos presos de algum jeito, só que aqui dá para escolher por quem e por quê”.
 
“Há uma ideia americana muito tradicional de liberdade, que diz ‘eu posso fazer a porcaria que quiser'”, comenta Coates. “E tem uma ideia diferente, segundo a qual eu estou comprometido com uma comunidade e uma causa maior, e liberdade não é a minha habilidade individual de fazer o que eu quero, mas de escolher com quem estou conectado.”
 
“Você vê isso agora, aliás”, ele lembra. “Há essa ideia de que liberdade é o meu direito de não usar máscara. E tem aqueles de nós, muitos dos quais negros ou latinos, que sentem que a melhor expressão da liberdade é cuidar do meu vizinho, da minha mãe, do meu pai. É aí que está a minha liberdade. Em assegurar que você é livre também”. (Walter Porto)
 
“A Dança da Água”.  Ta-Nehisi Coates. Trad.: José Rubens Siqueira. Ed.: Intrínseca. 

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