Sites ajudam na busca por emprego acima dos 50 anos


Em um cenário no qual se vive mais – a expectativa de vida no Brasil cresceu quase sete anos desde 2020 – e as regras para se aposentar se enrijecem, quem se aposenta ou sai de um emprego procurando trabalho após os 50 esbarra em preconceitos e em um mercado muito diferente daquele de quando começou a trabalhar. 

Pensando nisso, surgem plataformas gratuitas para ajudar esse público a conseguir emprego ou, pelo menos, trabalhos temporários. Uma delas é a Maturi, que surgiu em 2015 e que, hoje, conta com cerca de 130 mil cadastrados em todo o Brasil (3.000 deles em Minas, que só perde em volume para São Paulo e Rio de Janeiro).

O site funciona como uma espécie de LinkedIn para maiores de 50 e reúne, principalmente, vagas nas áreas de vendas e de atendimento ao cliente. Após quase cinco anos de atuação do Maturi, só 1.500 pessoas conseguiram emprego a partir do site, cerca de 1,1% da base de usuários. 

É um problema que vem das empresas, avalia o fundador, Mórris Litvak. “O preconceito etário parte de mitos. Um é o de que as pessoas vão ser caras, pela experiência; outro é o de que não estarão atualizadas, não serão tão ágeis ou que não saberão usar a tecnologia. A gente não pode generalizar, porque não é só a idade que define esses pontos”.

O engenheiro mecânico Dario Júnior, 62, é um dos que frequentam o site em busca de oportunidades. Cadastrado há dois anos, ele não ainda não conseguiu uma vaga dessa forma e acredita ser preterido no mercado devido à idade. “Tentei uma vaga de supervisor de vendas em uma concessionária, e disseram que precisavam de alguém que faça muitas visitas a clientes. Eu gosto disso, mas ficou claro que querem vigor físico de um cara de 30 anos”. O perfil qualificado de Dario é o mais comum no site. 

Empregos temporários

A plataforma Maturi também desenvolve uma versão exclusivamente para trabalhos temporários, que Morris diz ser a aposta do futuro. Um site que já aposta no perfil é o Labora. Em vez de apenas disponibilizar vagas aos usuários, ele cria posições especificamente para esse público nas empresas – hoje, são menos de dez organizações, todas de grande porte ou com o suporte de gigantes, como o banco Itaú e a Dengo Chocolates, dos donos da Natura. 

“O mercado não tem vagas específicas para pessoas mais velhas, que pensem nos potenciais e nos limites delas. Os sêniores sabem ter bons relacionamentos, empatia e escuta. Uma posição que criamos para eles foi a de consultor de experiência do cliente, alguém que fica na linha de frente da loja e atende as pessoas antes mesmo do vendedor”, explica Sérgio Serapião, criador da startup. No banco Itaú, por exemplo, onde o cargo foi criado, os contratados ajudam clientes a aprenderem a usar o app bancário.

Por enquanto, as cerca de 150 vagas nas empresas se concentraram em São Paulo, e 3.000 pessoas se inscreveram no site. A ideia é que recebam, pelo menos, R$ 100 pelo turno de 4h e que não trabalhem todos os dias da semana.

“Com mais idade, a pessoa pode ‘preferir’ um trabalho esporádico, pela situação da saúde e da estrutura familiar. Mas isso se é uma pessoa que tem aposentadoria”, elabora a professora de demografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Simone Wajnman.

A realidade de escolher trabalhos do tipo em plataformas digitais, na perspectiva dela, ainda é privilégio de poucos brasileiros: “Há um contingente enorme de pessoas de baixíssima escolaridade que precisam trabalhar e só vão encontrar atividades manuais, que demandam força física”. 

Desemprego na faixa etária pode ser maior do que taxas mostram

 

A taxa de desemprego de brasileiros acima de 60 anos é de 4,2%, contra 11% da taxa da população em geral. A porcentagem pode disfarçar a realidade, afirma a professora de demografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Simone Wajnman. “Ela revela pouco sobre a oferta de trabalho para os idosos. Quando eles não encontram trabalho, reportam rapidamente às pesquisas que estão inativos (sem trabalhar ou buscar trabalho). É muito diferente do jovem, que procura trabalho furiosamente, até achar”.

A taxa de pessoas maiores de 60 fora do mercado de trabalho sobe para 39,6% – ante 23% da população geral. Entre as pessoas de 40 a 59, a taxa de desemprego também é menor do que a população (6,6%). É um fenômeno que Wajnman atribui ao acúmulo de responsabilidades nessa fase da vida. “São pessoas que não podem se dar ao luxo de ficar desempregadas. Elas podem não ter emprego, mas vão procurar muito trabalho devido às responsabilidades familiares”. 

O futuro, avalia Cecília Xavier, terapeuta ocupacional e fundadora da consultoria de aposentadorias Trampolim 60+, é desafiador. “A carreira em uma só profissão a vida toda fica mais vulnerável. As pessoas têm que entender que o mundo está caminhando em outro sentido e que vai ser preciso mudar”.

(Crédito da foto: Labora / Divulgação)

Elenice Ferrari, 63, trabalhou no arquivo de uma grande editora de jornais por 40 anos. Aposentada, tentou passar um tempo apenas cuidando de casa, mas decidiu trabalhar e é uma das consultoras de atendimento ao cliente da Labora. “Hoje, aos 60 você é mais nova que o Caetano e que o Mick Jagger”, brinca. 

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