Silviano Santiago lança ensaio ‘Fisiologia da Composição’

Ao ser convidado pela Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro para integrar o corpo de participantes do XV Seminário Internacional de Estudos de Literatura: Literaturas e Artes de Corpo Presente”, em 2019, o escritor Silviano Santigo assentiu, instigado pelo pensamendo de que a literatura, a arte da palavra, não é de corpo presente, “a não ser que se desconstrua a metáfora que sustenta o texto literário: a linguagem”. Em sua apresentação, partiu do pressuposto que a literatura seria a arte “de corpo humano presente” por relação homológica entre o corpo do autor e a composição literária.  Palestra dada, o escritor prometeu à PUC, para futura publicação, um artigo de 20 laudas.

Veio a pandemia e, confinado em seu apartamento, em Copacabana, veio o desejo de abandonar a concisão da fala – necessária para um seminário – para enfrentar, agora em um longo ensaio, a questão mais ampla da sua fala: a de que a criação literária exige o exercício de total liberdade pelo artista. Mais complexo, pois, é o “exercício da liberdade” na literatura. Surgia, ali, o embrião de “Fisiologia da Composição – Gênese da Obra Literária e Criação em Graciliano Ramos e Machado de Assis”, livro recém-lançado pela editora Cepe.

Orientado inicialmente pelo conceito de composição tal qual expresso no ensaio “Filosofia da Composição”, de Edgar Allan Poe, Santiago se debruça sobre a análise do romance brasileiro moderno, através do significado que o termo homologia ganhou na teoria dos conjuntos e na biologia. Em matéria de liberdade artística, Santiago diz ter se interessado em  ir além da busca de liberdade em forma-prisão. “Interessou-me a presença do corpo do autor — sua fisiologia — na composição (isto é, no lento processo de criação duma obra de arte). Por isso, escolhi como exemplo Graciliano Ramos à véspera do Estado Novo, com o corpo prisioneiro no cárcere, e Machado de Assis, tolhido socialmente pela cor da pele, a condição racial e a epilepsia”.

Sendo a análise longa, ele sugere à repórter uma simplificação. “No caso de Graciliano, percebi que nosso maior escritor realista não consegue trabalhar a experiência ao vivo, isto é, no calor da hora. Não consegue escrever o que está diante de seus olhos. Não enxerga o suficiente para chegar a escrever quando está tendo a experiência da cadeia. Tem papel à mão e tempo de sobra”.  Silviano Santiago acrescenta que o próprio Graciliano autoexplica a razão de não conseguir escrever no cárcere. “Faltam-lhe os excitantes (a palavra é dele) que induzem à boa escrita artística. Faltam-lhe a cachaça e o tabaco. E o café vem ‘batizado’ da cozinha. Não é, pois, por acaso que a experiência da prisão em 1936 virará, nos anos 1950, ‘memórias’ do cárcere”, diz o ensaísta, lembrando que o distanciamento do evento não é só o da busca da objetividade, “ou o do que seja”.

“O que inibe a escrita literária – no tempo presente da dor – é não poder gozar as delícias da vida. Um corpo exigente de prazer. Um dos detalhes mais salientes das ‘Memórias do Cárcere’ é a anafrodisia que sente em virtude da droga (possivelmente o ‘brometo’ dos internatos masculinos) no café que lhe é servido. Perde também a força erótica. Tudo isso é textual. Não é invenção minha”.

Já a questão machadiana é, de acordo com o mineiro, bem mais atual e complexa, já que envolve três temas que, lembra Santiago, estão na ordem do dia: a cor da pele, a discriminação social de um grupo e a crise epiléptica, se em ambiente público. “O extraordinário em Machado é que ele não apela para o facilitário dos lugares-comuns. Ele enfrenta os fatores socioeconômicos que inibem seu comportamento e possivelmente uma grande carreira artística em nação escravocrata e aristocrática (estamos no Segundo reinado) ao optar por trabalhar aquilo a que seu ‘corpo’ não tem fácil acesso. A tradição literária ocidental, que requer, em quem tem uma ‘pequena saúde’, um esforço de vida”.

Santiago entende que nnguém, na literatura brasileira, conheceu tão bem a retórica universal da ficção quanto Machado. “Ninguém, em nossa literatura, soube trabalhar com tanta rebeldia, lucidez e sarcasmo a arte e as artimanhas da retórica que vem de Aristóteles e Platão”, pontua, recomendando a leitura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. “Ele cria seu próprio e único lugar no romance do século XIX, o que lhe vale o sucesso internacional até os dias de hoje. Entre nossos escritores, é o mais cosmopolita, o mais desconcertante e o que mais rebela contra os processos de inibição do corpo preto. Não o assume como um pobre coitado, como é visto pela elite branca dominante. Quer ser o melhor escritor no Brasil”.

Para o ensaísta, pode acontecer de o leitor que não está acostumado à carpintaria do romance não obter êxito em apreender as sutilezas de “Memórias Póstumas”. “Na obra, o respeito à tradição europeia da ficção é minado por todos os lados, com o maior desdém. Cito: ‘Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados’. Comece-se a ler o romance por um capítulo do meio, ‘O senão do livro’. O autor reflete sobre o já escrito e parece que não dá para continuar a escrever aquele manuscrito. Apresenta um senão. Pensa que é dele ou do narrador, não é. O senão do livro é o leitor. Para que se preocupar com o leitor que pertence à elite branca escravocrata? É pelo desdém por ele que escrevo esse romance. É contra ele, ou para ele, se aceitar a perder a partida que estamos jogando pela escrita e leitura”, reflete Silviano, acrescentando que é  preciso imaginar e criar seu romance sem pensar no leitor que só gosta dos romances escritos como se fossem ‘biografia’ de um ser humano atrevido, como Robinson Crusoé. Madame Bovary ou o sargento de milícias. “Como vai gostar de um narrador que está morto e, em vida, esteve sempre ébrio (passava por crises epiléticas, na minha leitura). O romance é escrito como o corpo do ébrio a caminhar: guina à direita e à esquerda, anda e para, resmunga, urra, gargalha, ameaça o céu, escorrega e cai… É sempre mal visto, seja desmaiado na rua ou autor defunto na campa”.

Confira, a seguir, outros trechos da entrevista com Silviano Santiago.

O senhor diz: “A criação literária exige o exercício de total liberdade pelo artista. Mais complexo, no entanto, é o ‘exercício da liberdade’ na literatura”. Poderia especificar um pouco mais a sua linha de pensamento?  O material a ser trabalhado por quem escreve é a língua nacional, que que lhe chega codificada em excesso pelo dicionário e a gramática. Ao escrever um vocábulo, a margem de liberdade do escritor é mínima. O dicionário está a controlá-lo. Ao escrever uma frase, alarga-se a margem, mas a gramática intervém e grita: erro de sintaxe. O escritor só se solta ao combinar duas ou mais frases num parágrafo. Cria a liberdade de estilo em literatura — ou não cria, depende do talento e da vontade de não apelar pela simples oralidade. Estilo tem, portanto, dono. É intransferível. Se for apropriado por oportunismo ou má-fé pode virar plágio. E se de repente você decide apropriar-se — e é o caso do romance “Em liberdade” —de estilo alheio (no caso, o de Graciliano Ramos). O estilo, que é a manifestação de liberdade do escritor na composição do romance ou de poema, se transforma em exercício dentro duma forma-prisão. De propósito, para testar os limites da liberdade na criação literária, você se encarcera no estilo alheio (seja ele nacional ou estrangeiro). Você escreve como se estivesse a viver sob um regime autoritário, que trancafia na cadeia o cidadão que ousa buscar em público a liberdade de expressão. Na criação literária, a forma-prisão é, ao mesmo tempo, o limite paradoxal da liberdade na arte da palavra e a condição da escrita criativa numa sociedade colonial, ou numa nação em vias de emancipação ou, ainda, num país governado pelo autoritarismo que censura e tortura. Nessa linha de abordagem, recomendo um notável livro de poemas, Código de Minas, de Affonso Ávila, não por casualidade publicado em 1969. Experimentem ler um poema e entenderão melhor o que é poetar dentro duma forma-prisão.

O senhor citou “Em Liberdade”, que, aliás, está completando 40 anos. O que essa obra significou na sua trajetória como escritor e como ela reverbera ainda hoje, passadas quatro décadas… Já vê que literatura, para mim, é um meio de apreender, de tentar apreender os limites paradoxais da liberdade na criação disso a que chamamos de “ficção”. Percebi que Graciliano Ramos me fascinava porque se sentia completamente inibido caso faltasse ao corpo os excitantes que o conduziam à boa escrita literária. Eram, então, excitantes digamos inocentes, mas indispensáveis para levantar o ânimo de pegar a pena e escrever o que está se passando ao redor. Resolvi pegar pela goela a inibição do escritor alagoano, torcer-lhe o pescoço e escrever um texto como se viesse dele, valendo-me de um gênero que ele abomina — o diário íntimo. O romance “Em liberdade” foi imaginado como se Graciliano estivesse a pôr em palavras, ou melhor, a escrever o que seus olhos estavam realmente vendo à saída da prisão, na cidade do Rio de Janeiro. Como está de saúde física e mental seu corpo em frangalhos. Quis abandonar os gêneros (romance, memórias da infância e da cadeia, contos, etc.) que ele trabalhou tão bem e ter como projeto pessoal um gênero inédito em sua obra. Seria um diário íntimo (evidentemente falso) do período em que ele deixa a cadeia e tenta se reorganizar e reorganizar a vida profissional e familiar na capital federal. Sem-teto, o escritor Lins do Rego o hospeda em casa. Para que a verossimilhança fosse convincente, eu tinha de assumir não só o estilo literário dele como também sua biografia. É “romance meu” escrito no estilo da primeira pessoa de Graciliano Ramos. É pastiche, o estilo em que Marcel Proust escreveu “Mélanges et pastiches”. Entre nós, estamos mais acostumados à paródia. Se me permite a falta de modéstia, invento o pastiche por estas bandas. Ou seja, uso uma forma-prisão que demonstra meu respeito ao estilo e à vida alheia. Não me valho da forma-prisão para o deboche de Gonçalves Dias e sua “Canção do exílio”. No mais, o mineiro passou seis meses imitando o estilo do alagoano e pesquisando meses e meses, na Biblioteca Nacional, sobre o período pouco anterior ao Estado Novo. Dados aparentemente tolos, dados extraídos de um guia da cidade ou fotos de uma revista tipo “Manchete”, me ajudavam a descrever corretamente a capital federal no ano seguinte a meu nascimento em Formiga. Naquela época, os jornais e revistas ainda não estavam digitalizados e a biblioteca na Cinelândia não tinha ar condicionado. A poeira do asfalto da avenida Rio Branco recobria as páginas que lia e enegrecia meus dedos suados. O tratamento psicológico dos personagens foi enriquecido com a leitura da literatura nordestina da época e da correspondência (a que tive acesso) entre o escritor e a esposa Heloísa.

Silviano, como está sendo esse tempo, este hiato, em função da pandemia, na sua vida, na sua rotina, nos seus hábitos? A que tem se dedicado, em particular, tendo que ficar mais recluso em casa (embora o ofício de escritor já seja solitário)? Acertou, o ofício de escritor nos ajuda a melhor entender a solidão. Com uma diferença. A solidão na pandemia é forçada, obrigatória, enquanto a do escritor é por escolha própria e destino. Já vê que a raiz do ensaio que escrevi, a liberdade, lá está entre a imposição e a escolha. A pandemia não deixa de ser uma forma-prisão da vida cotidiana. No fundo, uma e outra solidão não são atitudes tão diferentes, já que a finalidade opção por escolha se concretiza na dedicação ao “trabalho de arte”. Não é ao mero entretenimento. Refiro-me, claro, ao árduo trabalho diário de compor uma obra solitariamente. Já vê que entro num círculo vicioso. No ato de escrever está tanto a obediência a códigos (linguísticos e retóricos) quanto a rebeldia a eles. A solidão por decisão do sujeito acarreta a entrada de seu corpo no universo fechado da escrita literária, em que a espontaneidade é travada a todo momento pelo desejo de o escritor atingir a alta qualidade desejada. Quem não é ambicioso em causa própria? Uma das discussões mais interessantes que o tópico da composição de um texto literário nos fornece é exatamente a “luta” do artista com o material bruto — a língua nacional — que ele trabalha. Não há dúvida que há escritores que escamoteiam essa luta. Se dizem “inspirados”, como se a escrita fosse fruto que caísse dos céus e suficiente para alimentar páginas e mais páginas de papel.
Fui direto ao belíssimo trabalho de Edgar Allan Poe sobre a composição do famoso poema “O corvo”. Lá, ele minimiza o papel da inspiração e toma o partido de a composição de poema ser um “trabalho de arte”. “A filosofia da composição”, título de seu ensaio clássico, foi o ponto de partida, mas logo encontrei o francês Paul Valéry, que defende a ideia de que a inspiração resulta apenas no “primeiro verso”, que chega por acaso à mente do poeta. Já o poema é produto do incansável trabalho humano de compor um “todo” que esteja à altura do primeiro verso, que foi “dom” dos deuses. Na mesma linha, está o nosso João Cabral de Melo Neto com a poética que expõe em “A psicologia da composição”. Foi assim — duplamente solitário, duplamente lutador — que fui vivendo calma e rebeldemente o tempo da pandemia no escritório de Copacabana.

Diante de uma situação tão inusitada como uma pandemia, o que mais te decepcionou, em termos do comportamento da humanidade diante da ameaça de um novo vírus e de suas variantes, e o que te trouxe alento, de alguma forma? Não há porque se decepcionar com a humanidade tomada pelo desconhecido e insidioso vírus. Ele a ataca pelos ares e por todos os lados. A decepção vem mais de casos e de grupos particulares, em particular dos que são — por terem sido eleitos para a função pública a que se candidataram — negligentes, preconceituosos, preguiçosos, despreparados (todos nós estamos despreparados, mas alguns têm necessidade de se informar corretamente para o bom governo duma comunidade). São incompetentes no controle de uma situação dramática que vai ganhando as cores de tragédia grega, ou do romance “A peste”, de Albert Camus, se elevado a escala universal. Acho um absurdo o estado que nosso país se encontra não só no tratamento da Covid-19 como ainda no processo de vacinação. Isso é imperdoável e, por isso mesmo, será matéria fértil para os historiadores do período. Da parte da população em geral, percebe-se que a curiosidade dita intelectual há muito não atingia um grau tão elevado. A pandemia e a ciência é questão que, de repente, nos toca a todos e de perto. É tópico que só se torna obscurantista em coletividades autossuficientes, que se deixam sintonizar com exclusividade pela fé religiosa.

Como imagina um mundo pós-pandemia, ou seja, quando a vacina já estiver sendo aplicada a largo, e quando já tivermos atingido, por meio dela, a tal “imunidade de rebanho”? Não posso imaginar um mundo pós-pandêmico que não seja melhor do que o atual. Ou seja, neste em que estamos vivendo. Só posso imaginar uma nação como a nossa que está se tornando (graças à pandemia, infelizmente) mais consciente de o modo como antigos e graves problemas se tornaram sistemáticos. Se um problema, como o das enormes diferenças sociais e econômicas, se torna sistemático é porque as elites governamentais decidiram relegá-lo a quinto plano ou a encorajar na população o preconceito hipócrita ou a insensibilidade ao Outro. Façamos de conta que tudo vai bem. Façamos de conta que vivemos na Índia, onde o sistema de castas ainda governa. Os vários movimentos subterrâneos que surgiram e cresceram à sombra do desastre da pandemia aí estão bem vivos e ativos, redirecionando — ainda que sem as grandes conquistas almejadas — o futuro das cidadãs e cidadãos brasileiros.

Em termos de escrita, vem se dedicando a algum projeto em particular? Ficcional, talvez? Poderia nos adiantar algo? Pouco antes de me dedicar ao ensaio “Fisiologia da composição” tinha terminado o primeiro volume de minhas memórias, “Menino sem passado”. Será publicado pela Companhia das Letras e deverá estar no mercado em fins deste mês. Pretendo dar continuidade ao projeto, escrevendo o segundo volume.

Fonte do link

Compartilhe:

Comentários