Serra do Curral e livro expõem urgência do debate sobre preservação

De um lado da rodovia, a placa sinaliza a Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, título de reconhecimento internacional que inclui a Serra do Curral, símbolo de Belo Horizonte. Mais adiante, dominando a paisagem, alongam-se as atividades das mineradoras e o resultado está na perda do contorno das montanhas e da cobertura verde. Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, os cenários na BR-040, na saída para o Rio de Janeiro (RJ), mostram os contrastes no entorno da capital mineira e pedem urgência nas providências para evitar degradação maior e salvar o patrimônio natural, dilapidado a cada segundo.
 
Minas tem sua vocação no nome desde a época dos bandeirantes, mas vem acompanhado de Gerais, para equilibrar todos os setores, principalmente economia e meio ambiente – numa visão contemporânea, atender aos anseios gerais, de toda a população do seu território, a fim promover o tão celebrado desenvolvimento sustentável. No momento, o clamor é pelo tombamento estadual da Serra do Curral, maciço que está no alvo da Taquaril Mineração S.A (Tamisa), no município vizinho de Nova Lima, após licenciamento concedido pelo Conselho de Política Ambiental (Copam).
 
Com a proteção pelo estado, a área seria ampliada além dos limites já contemplados pelo Município de Belo Horizonte e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A situação está em compasso de espera, pois não há data para a reunião do Conselho Estadual de Patrimônio Cultural (Conep).
 
“Vivemos um momento fecundo para discussões sobre o meio ambiente, e, claro, para se evitarem problemas futuros. Defendo a compatibilização da atividade minerária, que é necessária, e a preservação ambiental. E há soluções técnicas para garantir o desenvolvimento sustentável”, afirma o engenheiro de minas Hernani Mota de Lima, professor do Departamento de Engenharia de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).
 
Segundo o professor, é preciso haver responsabilidade por parte das instituições envolvidas, com destaque para instituições que concedem o licenciamento às empresas mineradoras, e fiscalização. “O jogo deve ser aberto”, resume o professor, lembrando que as empresas devem buscar a sustentabilidade.
OBRA O episódio da Serra do Curral evidencia a potência mineral do estado e traz à tona, neste domingo com cara muito mais de reflexão do que de homenagens ao meio ambiente, o livro “Pluto brasiliensis” – Memórias sobre as riquezas do Brasil em ouro, diamantes e outros minerais”, escrito pelo alemão Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777-1855), o Barão Eschwege, geólogo, arquiteto e estudioso de mineralogia, mineração e metalurgia. Chamado de Pai da Geologia do Brasil, ele foi responsável pela implantação, em 1812, da primeira siderúrgica a produzir ferro fundido em escala industrial. Em 12 de dezembro, a Fábrica Patriótica, em ruínas bem preservadas em área da Vale, no quilômetro 590 da rodovia BR-040, em Ouro Preto, no limite com o município de Congonhas, na Região Central, vai completar 210 anos.
 
Algumas das observações de Eschwege, contidas em “Pluto brasiliensis”, estão nos próximos dois parágrafos da obra de 622 páginas publicadas em Berlim, em 1833 (e em 1944, no Brasil):
“Minas Gerais é, sem dúvida, a província brasileira mais interessante e instrutiva sob o ponto de vista geológico e mineralógico, especialmente nas regiões de Vila Rica e Sabará e em toda a zona cortada pela estrada que se dirige para o distrito diamantífero do Serro do Frio.”
“O viajante que percorre essas regiões e dispõe de algum tempo para pesquisá-las, não só fica conhecendo todas as rochas que ocorrem na província e a sequência de suas camadas, mas ainda tem oportunidade de observar os métodos de exploração do ouro usualmente adotados no Brasil.”
 
O professor Hernani explica que Eschwege foi pioneiro no assunto, tornando-se uma referência histórica na atualidade. Já o professor de história Alex Fernandes Bohrer, do Instituto Federal de Minas Gerais, também em Ouro Preto, acredita que o geólogo alemão certamente se assustaria com a situação existente agora no Quadrilátero Ferrífero.
“Eschwege pesquisou e escreveu sobre o ouro e o diamante. A exploração do minério de ferro ocorreu, de fato, no século 20, mas seus estudos e análises são muito importantes. Outros viajantes europeus, a exemplo do naturalista Auguste Saint-Hilaire (1779-1853), registraram preocupação com a degradação ambiental, especialmente a questão das águas”, diz Bohrer.
LEGADO Mais de dois séculos depois da vinda de Eschwege ao Brasil – ele chegou aqui em 1810, a convite do príncipe regente Dom João VI (1767–1826) –, a potência mineral do estado, que deixou de ser província com a Proclamação da República (1899), sofre duros reveses e fica no centro das atenções.
 
Na verdade, um pedaço importante da história de Minas se confunde com a vida do Barão Eschwege, responsável por um marco na economia do país: a implantação da primeira siderúrgica a produzir ferro fundido em escala industrial.
 
As ruínas da primeira indústria de ferro ficam no sítio arqueológico que ocupa 22,9 hectares – a siderúrgica funcionou até 1922. Protegidas por árvores frondosas, as ruínas da Patriótica reúnem pilares de canga de minério, alguns trabalhados em cantaria, bases de quatro fornos, depósitos, vestígios de canais de água, casa da administração, senzala, forjaria e outros setores.
 
Conforme os estudos, são contemporâneas da Patriótica as siderúrgicas de Morro do Pilar, na Região Central de Minas, e de São João de Ipanema (interior de São Paulo), mas ela foi a primeira a produzir em escala industrial e com sucesso. A pedra fundamental foi lançada em 1811 e a produção começou em 12 de dezembro de 1812.
 
Eschwege trouxe inovações tecnológicas, entre elas a injeção de ar dentro dos fornos para acelerar a fusão do minério, por meio das trompas hidráulicas – antes, eram usados foles. As estruturas de pedras da unidade industrial tinham cobertura de madeira e telhas, mas só restaram as pedras. Nos 110 anos de funcionamento, a unidade produziu 142 toneladas de ferro, média de 18t/ano, havendo também fabricação de pregos, ferraduras, cravos e ferramentas, tudo vendido para os fazendeiros e donos de minas da região. O local é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1938.
SERVIÇO
– Livro: “Pluto brasiliensis – Memórias sobre as riquezas do Brasil em ouro, diamantes e outros minerais. História da descoberta e descrição das ocorrências desses minerais. Exploração das jazidas e sua técnica. Produção e legislação de minas”
Autor: Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777-1855), conhecido como Barão Eschwege
Data da primeira publicação: 1833, em Berlim, Alemanha. No Brasil, em 1944.
O livro está disponível, gratuitamente, na livraria do Senado, no endereço eletrônico livraria.senado.leg.br.
– A Vale oferece visitas virtuais em 360 graus a três sítios arqueológicos localizados em áreas da empresa. Acessando o endereço www.vale.com/sitios-arqueologicos, o interessado poderá conhecer as ruínas de Fábrica Patriótica, Forte de Brumadinho e Casas Velhas, todas preservadas

Pai da geologia do Brasil

Da Alemanha ao Brasil, via Portugal. Filho de família aristocrática alemã, Wilhelm Ludwig von Eschwege estudou na Universidade de Göttingen, e no início do século 19 fez os primeiros contatos com a engenharia de minas. Apesar de destinado à vida militar, a curiosidade intelectual o levou a adquirir formação acadêmica eclética, estudando cartografia, ciências naturais, arquitetura, mineralogia e metalurgia.
 
Em 1802, Eschwege partiu para Portugal, onde ficou até 1810 e ocupou o cargo de diretor de minas. Da sua experiência no país e de viagens de prospecção também nas colônias, recolheu dados geológicos, informações sobre técnicas de mineração e de administração das minas. O material lhe permitiu iniciar a publicação de diversas obras de caráter científico.
Durante a estada em Portugal, Eschwege catalogou inúmeros aspectos da mineralogia portuguesa e publicou um estudo sobre as conchas fossilizadas da região de Lisboa. De 1803 a 1809, esteve à frente da fábrica de artilharia em Arega, Figueiró dos Vinhos, onde se fabricavam, entre muitas outras peças de ferro, os canhões para as Forças Armadas portuguesas. Em 1810, a convite do príncipe regente Dom João VI, Eschwege veio para o Brasil com o objetivo de reanimar a decadente mineração de ouro e trabalhar na nascente indústria siderúrgica. Foi também encarregado do ensino das ciências da engenharia aos futuros oficiais do Exército e de continuar os trabalhos de exploração mineira e de metalurgia. No mesmo ano, foi criado por D. João VI o Real Gabinete de Mineralogia do Rio de Janeiro, sendo o alemão chamado para dirigi-lo e ensinar técnicas avançadas de extração mineral. Ele ficou no Brasil até 1822, com a patente de tenente-coronel engenheiro, nomeado intendente das minas de ouro e curador do Gabinete de Mineralogia.
 
Eschwege iniciou em Ouro Preto os trabalhos de construção da Patriótica, empreendimento privado, sob a forma de sociedade por ações. Em 1812, foi extraído, pela primeira vez, ferro por malho hidráulico de forma industrial. Cinco anos depois, foram aprovados pelo governo os estatutos das sociedades de mineração, que estabeleciam as bases para a fundação da primeira companhia mineradora do Brasil, sugeridas por Eschwege. Da obra escrita por ele e publicada na Europa, destaca-se “Pluto brasiliensis” (1833), a primeira obra científica sobre a geologia brasileira.

UM HOMEM E SEU TEMPO

1777 – Wilhelm Ludwig von Eschwege, o Barão de Eschwege, nasce na Alemanha, numa família aristocrática
1802 – Eschwege parte para Portugal, onde fica até 1810 e ocupa o cargo de diretor de minas
1810 – A convite do príncipe regente D. João VI, Eschwege chega ao Brasil para reanimar a decadente mineração de ouro e trabalhar na nascente indústria siderúrgica
1811 – Lançada a pedra fundamental da Fábrica Patriótica
1812 – Em 12 de dezembro, a Fábrica Patriótica, em Ouro Preto, se torna a primeira siderúrgica do Brasil a produzir ferro fundido em escala industrial. Funcionou até 1922
1817 – Aprovados pelo governo os estatutos das sociedades de mineração, que estabeleciam as bases, sugeridas por Eschwege, para a fundação da primeira companhia mineradora do Brasil
1833 – Publicada em Berlim, Alemanha, a obra “Pluto brasiliensis – Memórias sobre as riquezas do Brasil em ouro, diamantes e outros minerais”, com grande enfoque em Minas Gerais
1938 – Em 30 de junho, a Fábrica Patriótica é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
1944 – Sai a edição brasileira de “Pluto brasiliensis”, em dois volumes, com tradução de Domício de Figueiredo Murta e prefácio do cientista mineiro Djalma Guimarães

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