Seringas vazias


O ano de 2021 será lembrado pela imunização em massa contra a Covid-19 no mundo. Grande parte da Europa e das Américas já iniciou essa jornada, e já passou da hora de as autoridades políticas iniciarem com seriedade essa jornada no Brasil. Instituições desconhecidas até bem pouco tempo por grande parte da população estão em evidência neste momento por proporcionarem a produção da vacina no país. São elas o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz. O que parece não fazer nenhum sentido é Minas Gerais sediar a Fundação Ezequiel Dias (Funed), tão potente como as duas citadas anteriormente, e não proporcionar a produção da vacina.

Diante de tantos desafios para que vidas sejam preservadas, eu gostaria de dizer que estou surpresa com tal situação. Estou inconformada, indignada, mas não surpresa, porque me lembro bem da declaração do governador Romeu Zema (Novo) durante o período de campanha que, quando questionado sobre o futuro da Funed, afirmou desconhecer a existência e o trabalho da instituição. Dois anos após essa fatídica afirmação do governador, a instituição poderia ser decisiva para Minas Gerais superar a pandemia do novo coronavírus. Poderia, se não fosse a inércia e a falta de ação do maior gestor do executivo.

O Brasil fez história e virou referência mundial ainda na década de 70 com a criação do Programa Nacional de Imunização (PNI), vacinando as populações ribeirinhas, indígenas e quilombolas, alcançando os lugares mais remotos do país. E é justamente por esse histórico que não faz nenhum sentido a Funed, uma instituição de 113 anos, que pode ser um polo de produção da vacina, não produzir sequer uma única dose.

Na estrutura governamental, a Funed é vinculada à Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais. Fundada em 1907, trabalha buscando soluções em saúde para o fortalecimento do SUS. Com três áreas de atuação, é referência na pesquisa científica a partir de venenos de serpentes, aranhas, escorpiões e abelhas, sendo reconhecida como um importante Instituto de Ciência e Tecnologia do Estado de Minas Gerais.

Com unidades de produção de medicamentos e um dos maiores e mais bem equipados parques tecnológicos do Brasil, produz, com exclusividade na América Latina, a talidomida, medicamento usado no tratamento da hanseníase e com alto potencial para tratamento de outras doenças, como o câncer. Mantém também a exclusividade no estado da produção de soros antipeçonhentos, antitóxicos e antivirais, além de ser o único laboratório público fornecedor da vacina contra meningite C para o Ministério da Saúde.

A Fundação Ezequiel Dias abriga ainda o Laboratório Central de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (Lacen-MG), composto por 42 laboratórios que realizam análises e exames de última geração para as vigilâncias sanitária, epidemiológica, ambiental e de saúde do trabalhador.

A Funed mantém o compromisso de oferecer produtos e serviços de alta qualidade para a população, o que pode ser comprovado por sua certificação ISO 9001, que abrange todas as atividades desenvolvidas na instituição.

O SUS é sem dúvida nenhuma a nossa maior arma contra a Covid-19 e necessita de investimentos em todas as suas áreas, inclusive nas pesquisas. Enquanto essa estrutura não for devidamente potencializada, as mortes que poderiam ser evitadas continuarão aumentando em Minas Gerais e no Brasil. A Funed já deveria estar operando como um polo de produção se o governador Romeu Zema não fosse tão omisso diante dessa situação, já que agora não pode dizer que desconhece a Fundação, porém ele não investe de forma adequada na saúde pública do Estado.

Estamos acompanhando de forma atenta as vacinações e, dentre outras ações, aprovamos uma emenda na lei de vacinação para garantir uma política de saúde adequada neste momento tão doloroso. Outro dia vi o governador ostentando em diversos veículos midiáticos que tinha comprado seringas. Seringas essas que até o momento seguem vazias em um depósito, aguardando uma vacina que poderia perfeitamente ser produzida pela Funed.

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