Sem máscaras


“Esta Noite a Liberdade” tem lugar garantido na lista dos meus melhores livros. É uma obra-prima da dupla Dominique Lapierre e Larry Collins, autores de outro sucesso – “Paris está em chamas?” – sobre os últimos dias da Segunda Guerra.
 
O livro “Esta noite…” descreve a grande cisão acontecida na Índia por ocasião de sua independência. Os ingleses concluíram que não tinha mais jeito de permanecerem lá como colonizadores, papel turbulento exercido desde 1858. Os indianos estavam fartos da submissão; seus líderes, cada vez mais, exortavam a nação rumo à independência.
 
Porém, os ingleses conheciam bem onde estavam pisando. A aspiração de liberdade do povo não era afinada. As massas que saíam às ruas para protestar contra os britânicos também brigavam ferozmente entre si. Isso porque na Índia existiam duas grandes correntes religiosas majoritárias e violentamente antagônicas – a hinduísta e a muçulmana. Conscientes do problema, os colonizadores tiveram, pelo menos, uma postura digna e elegante – resolveram “administrar” o delicado momento histórico, evitando a guerra civil.
 
O responsável pela proeza foi lorde Louis Mountbatten, vice-rei. Encarregado da difícil tarefa de conduzir a emancipação, Mountbatten percebeu que a Índia, com seu grave antagonismo religioso, jamais seria uma nação unida. Habilidoso, dialogou com as lideranças – Nehru e Gandhi pelos hindus; Muhammad Ali Jinnah do lado muçulmano. Nenhum deles cedia um milímetro. Ao final, surgiu a única solução viável: nasceram dois novos países – Índia e Paquistão – que continuariam inimigos até os dias de hoje.
 
Nas vésperas da proclamação da independência, procissões de milhares de pessoas, fiéis às suas crenças, dirigiam-se ao norte, Paquistão, ou ao sul, Índia, onde passariam a viver. Famílias inteiras, com tralhas, vacas e panelas cruzavam-se raivosas nas estradas, ofendendo-se mutuamente. Brigas e mortes ocorreram nessa etapa.
 
Tenho me lembrado com frequência do livro durante esses dias agitados do Brasil. Temos ou não temos um país partido ao meio como nunca visto? A divisão não é apenas político-ideológica; as pesquisas indicam que a divergência chega ao requinte de ser também geográfica. Pelo tom inflamado das massas, podemos afirmar que temos um conflito quase religioso.
 
As redes sociais se transformaram no canal de exibição do que as pessoas têm de pior. Radicais (e imbecis em geral) pensam serem dotados de inteligência e perspicácia acima dos demais – principalmente daqueles que creem em outros valores. Arrogantes, acham-se no direito de mudar à força a opinião dos amigos, parentes, colegas de trabalho, vizinhos, a faxineira, o porteiro. São raciocínios aparentemente elaborados, às vezes repletos de justificativas intelectuais, citações acadêmicas, premonições, previsões catastróficas. Porém, o final do discurso sempre revela as entranhas da erudição: o cara não é isento; é tudo máscara.
 
Ora: uma religião (ou uma posição política…) forma-se em cada indivíduo baseada em suas crenças, histórias de vida, decepções e esperanças. Cada qual tem a sua. Impor fé ou ideologia é uma violência. Já imaginou se Lorde Mountbatten tentasse convencer muçulmanos ou hinduístas a mudarem aquilo que tinham de mais arraigado em suas almas?
Roger Schawk, um dos papas da inteligência artificial, disse: a aprendizagem acontece quando alguém quer aprender; e não quando alguém quer ensinar. Se a frase vale para uma simples aula de física ou matemática, imagine para o resto?
 
Guerras, catástrofes e privações generalizadas muitas vezes surgem na base de grandes mudanças nas nações por elas afetadas. Metaforicamente, parece ser necessário espremer um povo ao limite para que ele reaja no sentido oposto; algo semelhante a uma mola espiral comprimida ao máximo.
 
A pandemia poderá funcionar nesse sentido. Além de fazer com que as pessoas voltem-se para dentro de si, que esta fase também sirva para abrandar certos exageros e irresponsabilidades, levando os brasileiros a pensarem mais no Brasil e menos em picuinhas.

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