Rostos mutilados de Kader Attia espelham a vida de agora e de antes



Kader Attia quer encher os nossos olhos de horror. Não de uma vez, como um tiro no céu da boca, mas no passo devagar, ardido da tortura -um dente arrancado, um osso quebrado, a pele queimada.

Os sussurros das primeiras salas da mostra desse artista francês agora no Sesc Pompeia se transformam em gritos no fim do labirinto, os decibéis aumentando em resposta às atrocidades desveladas.

É nítida a estratégia da alemã Carolin Köchling por trás da montagem, um tanto anódina, que forra um dos galpões do lugar com uma sequência de espaços brancos artificiais. Primeiro a elegância de uma série de colagens, depois flagras espontâneos da vida das prostitutas imigrantes nas ruas de Paris, filmes de pegada documental. Então vem a apoteose dos corpos, estátuas calcinadas e, depois, mutiladas.

Mas o horror, Attia parece dizer, nos persegue e está em tudo, mesmo nas linhas arrojadas da arquitetura de Le Corbusier e Niemeyer. Sua primeira sequência de trabalhos ali tira de contexto esses prédios monumentais de concreto e estampa seus contornos robustos sobre um fundo bege ao lado de cenas da precariedade da vida em lugares que sonharam -e fracassaram- diante da utopia moderna.

Essas colagens operam um desenraizamento dessas formas, denunciam o imperialismo de uma vanguarda que viu nas ex-colônias na primeira metade do século passado um playground virgem e fértil para a implantação da nova ordem. Fantasmas brutalistas, o Memorial JK, em Brasília, ou o skyline vítreo de Nova York formam horizontes opressores sobre rapazes de pele escura e o lixo nas ruas.

Entre uma e outra paisagem urbana dissecada, painéis de formas geométricas coloridas inundam de falsa luz lounges de aeroporto, esses não lugares de transição que na crise dos refugiados passaram a lembrar mais barreiras e prisões do que portas de acesso.
Leia mais (01/23/2021 – 20h00)

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