Rito e Superstição – Por Leonardo Vieira Rodrigues – #temporadadetextos

A possibilidade de inovar

Fonte: Pixabay

         No período de transição, principalmente de ano para outro no caso

Leonardo Vieira Rodrigues

de 2020 para 2021, vivemos a crença na possibilidade de inovação, geralmente as pessoas se organizam para os rituais que indicam capacidade de mudança, como por exemplo: está vestido de branco no momento da passagem do ano. Outros rituais fazem parte como dar alguns pulos nas águas do mar, ou banho de sal grosso, ou mesmo colocar sementes de romã entre os dentre na virada do ano, são essas algumas dos ritos que giram em torno das chances de mudanças na rota da vida. Esses rituais se repetem num espaço de 365 dias, entre o dia 31 de dezembro para o dia 1 de cada janeiro, época do ano tomada por noção de esperança e inovação, por mais que no resto do ano o egoísmo, a indiferença e toda e qualquer tipo de maldade seja a prática comum. Isso só evidencia as várias facetas do humano em sua complexidade. Após, a passagem do ano, com as festas e os rituais, volta-se ao dito “normal” como as repetições que se alongam por toda uma vida, mas por quais motivos sempre repetimos tais rituais de inovação de vida?

       Para tal pergunta teremos algumas possíveis respostas. No entanto, nenhuma delas dará uma resposta eficaz para tal pergunta complexa. Podemos apontar que o hábito é motivo para essa ação, visto que na parte do final de ano, os humanos são tomados por esse “espírito” de esperança, e discurso de inovação que toma grande parte das pessoas. Após ficarem mais trezentos e sessenta dias aproximadamente passando por várias situações, geralmente desagradáveis, como trabalhar em algo que não gosta, ficar horas em filas ou dentro de transporte urbanos lotados, pagar contas e mais contas, ser assediado ou ameaçado de perder o emprego, são algumas das condições que os brasileiros vivenciam nos seus dias normais. Para nos últimos dias do ano depositar a possibilidade de mudança, no rito de passagem de ano para o outro. Percebe-se que o ideal de que as coisas podem ser melhores movem as pessoas, diria mais especificamente a palavra esperança é o guia, e motivador para a manutenção na luta diária. Porém, a ideia de esperança é apropriada por grupos de charlatões, ou aproveitadores, como coachs, pastores de igrejas neopentecostais, padres midiáticos, youtubers do mundo financeiro, que vivem de explorar a possibilidade da esperança. O comércio da esperança de que tudo pode ser melhor amanhã, rende e move milhões dólares ou reais, e atualmente tem direcionado os caminhos da política no Brasil.  

     O filósofo Baruch Espinosa em seu escrito intitulado Tratado político, foi assertivo ao apontar o perigo que reside na mistura dos ideais teológicos com os democráticos. Espinosa entendia que existe um grande perigo quando teólogos postulam o uso a Bíblia como se fosse ciência, tal prática quase sempre incorre em coisas graves a população, pois fazem uso da palavra sagrada fundamentada na superstição, para manter a povo sobre o rigor da moral e da superstição. A filosofia de Espinosa é um combate à superstição e o irracionalismo. Hoje no século XXI, tem-se na política de extrema-direita que abusam da superstição, e da Fake News, para manter seus seguidores na rédea curta.  Observa-se que Fake News é o termo inglês que designa o tipo de informações falsas divulgadas que não tem fonte pesquisada. Esse tipo de divulgação de informação que nada informar tem sido explorado, por um seguimento da extrema direita, que via Fake News espalham coisas ligadas a anti-ciência, e outras ideias que exaltam o irracionalismo.   

     Em pleno século XXI, momento da história que acolhemos as conquistas do Iluminismo no campo político, e dos avanços tecnológicos, é justamente nessa situação em que os humanos estão imersos no uso das tecnologias, visto que avançamos em termos das melhorias da qualidade de vida via ciência. Porém, as redes sociais têm feito dos humanos suas cobaias, nos joguetes das grandes indústrias de tecnologias, e as redes sociais para as ultimas eleições políticas tem sido determinante, pois nas redes sociais tem espalhado Fake News, e   com isso temos a exploração de teorias de conspirações e certas superstições comuns ao povo. É nesse sentido que deve-se inspirar na provocativa filosofia de Espinosa tanto na crítica às superstições que são alimentadas pelo irracionalismo, quanto à política nos casos em que se tem uma mistura forte de pessoas ligados às instituições religiosas e políticas, cujos discursos são permeados por uma interpretação bíblica assentada na superstição que recriam uma percepção sem qualquer fundamentação teórica.   

     As superstições que utilizei no começo do texto, aquelas relacionadas aos rituais de passagens de virada de ano, ou qualquer outra que replique, ou reforce uma mudança de momento, são as superstições inofensivas. Já as superstições que alimentam os grupos políticos e se baseiam no irracionalismo comuns ao povo, e essas devem ser combatidas, como alertava Espinosa, para não ficarmos nas mãos de pessoas que fazem uso e abuso das superstições para se manterem no poder.  A luta para sairmos do obscurantismo do fanatismo e do culto a imagem do líder (aqui podemos citar um pequeno grupo que chama o presidente de mito, e outros lideres como Mussolini), o uso da razão deve ser uma ferramenta para não cairmos no laço de qualquer tipo de mentira.

     Sobre os ritos de passagem de ano se não mudarmos nossa percepção e consciência sobre a realidade, de nada vale rito de passagem de ano.  Mas, que o ano de 2021 seja mais leve que 2020.


Leonardo Vieira Rodrigues é Professor de Filosofia e História. Atualmente leciona em Guarulhos-SP para estudantes do Ensino Médio e  Ensino Fundamental. É também pesquisador da Filosofia em temas como estética e política. É mestre em Estudos de Linguagem pelo CEFET-MG. No Facebook: leonardo.vieirarodrigues1


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