Quem sou e porque me tornei jornalista prático – Por Vinícius Fernandes Cardoso

Sobre a minha atuação como colaborador no Jornal Regional Contagem [1]

 

Só agora me dei conta que eu nunca publiquei no blog este depoimento de 2010, que José Antônio Borba leu em vida e gostou, chegando a comprar o meu livro NÔMADE, onde o mesmo se encontra. Borba, meu amigo e meu editor no Jornal Regional Contagem, nos deixou no dia 20 de agosto de 2019, a quem pretendo homenagear em texto posterior.

No “Viva Poesia, Poesia Viva” (Parque Ecológico do Eldorado, 2008)

QUEM SOU…

Nasci no Hospital São Sebastião, em Belo Horizonte, às 2 horas e 45 minutos do dia 29 de abril de 1983. Taurino. O meu tio Darci, irmão do meu pai, levou minha mãe para o hospital na Brasília dele. O tabelião registrou-me Vinícius Fernandes Cardoso, sendo o Cardoso com ‘s’ e não com ‘z’, como é o dos meus pais. Preferiria o ‘z’. Tenho apenas um irmão, Murilo, um pouco mais velho. Ele é casado com a Alexandra e pai de Lucas.

No ano em que nasci meu pai ingressou na CEMIG, fato que elevou o nível social da família. Ele havia colado grau em Administração de Empresas pela Newton Paiva, faculdade particular, com muita dificuldade. Estudava a noite, após o trabalho. Havia trabalhado como trocador de ônibus, balconista e operário de fábrica. Até hoje ele sonha perdendo o ônibus que o levava para casa, após a faculdade. Ele identifica-se com a música “O pequeno burguês”, do Martinho da Vila: “Felicidade! / Passei no vestibular / Mas a faculdade / É particular! / Particular! / Ela é particular / Particular / Ela é particular… (…)”. Em 1983, concurso público não era uma exigência legal no país como meio de ingresso no serviço público, o que veio a ser somente com a Constituição de 1988. Não querendo ficar de fora, meu pai recorreu aos meios da época. Passou por perrengues, mas conseguiu.

Até os meus cinco anos, morei no Novo Riacho, em Contagem. Em 1988, meu pai foi designado para um posto da CEMIG na cidade de Igarapé, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ficamos ali um ano, dos meus cinco aos seis anos. Apesar da curta estadia, aquele ano enriqueceu minha infância.

Voltamos para o Novo Riacho, mas já armando mudança. Depois de procurar, escolhemos uma casa no Monte Castelo, bairro de origem militar, cujo nome homenageia a vitória brasileira na Batalha de Monte Castelo, na Itália, ao fim da Segunda Guerra Mundial. Moramos ali até 2000, quando mudamos para o Eldorado, na mesma cidade.

Sempre frequentei os bancos escolares. Minha vida passou-se dentro da escola, instituição com a qual tenho uma relação de gratidão e ao mesmo tempo de crítica. Hoje, após o contato com o pensamento de Pierre Bourdieu, concordo com o sociólogo francês que a Escola exerce um papel de reprodução social, ela reproduz as estruturas sociais, apesar das estatísticas mostrarem que a escola é fator de mobilização social no Brasil, levando gente de um patamar social a outro. Bourdieu pensava na França e não no Brasil quando desenvolveu sua tese da reprodução, mas não se trata de descartar as implicações de sua tese para o Brasil. Vejo mobilização e vejo reprodução.

Até a 5.ª série, estudei em escola pública. Da 6.ª série ao ensino médio, estudei no SESI, cujo ensino tornou-se pago, embora com desconto para os filhos de trabalhadores da indústria mineira, que era o meu caso.

Cursei ferramentaria no SENAI, e com 17 anos procurei emprego na área, sem obter êxito. Relembrando, penso que a falta de experiência e a idade pesaram contra, pois sabemos que se o jovem empregado de 18 anos for convocado, o empregador é obrigado a manter o salário e os benefícios do empregado enquanto ele servir as Forças Armadas.

Meu nível médio foi diferente. Fiz ensino médio e curso técnico num bloco de três anos. Um ano e meio de ensino médio no SESI e um ano e meio de curso técnico de automação industrial, no SENAI Euvaldo Lodi, na Cidade Industrial. Meu diploma de ensino médio é reconhecido pelo MEC e não tive problemas para ingressar na faculdade. Ao fazer o curso técnico, estava seguindo os passos do meu irmão, para quem o curso técnico podia garantir um emprego e custear o curso superior, o que aconteceu conforme o planejado para ele. Para mim, não. Ele fez ensino médio e curso técnico de mecânica no CEFET e conseguiu trabalho numa empreiteira da MANNESMAN, onde ficou por muitos anos, até ingressar como engenheiro mecânico na USIMINAS, em Ipatinga/MG, em novembro de 2007, e para lá mudar com Alexandra e Lucas. Graduou-se na PUC, depois de aplicados quatro anos de estudo.

Durante o curso técnico, consegui uma vaga de estágio numa empresa de Juatuba, cidade criada para arrecadação de impostos de fábrica da AMBEV. Fiquei quase um mês no estágio. Não deu certo. E olha que me empenhei. Lembro que acordava bem cedo – e minha natureza é de não acordar tão cedo –, pegava um ônibus até a Cidade Industrial e lá pegava o coletivo da empresa. No fundo, meu chefe queria alguém com experiência para o cargo e eu não tinha nenhuma. Por que contratou um estagiário, então?  Apesar disso, eu tinha bom senso e empenho. No meu primeiro dia de estágio, o computador deu uma pane. Perderam-se todos os arquivos necessários ao serviço. Acho que meu chefe me culpou, como se eu tivesse trazido azar. Reconstruí os principais arquivos para atender as demandas imediatas. Não achei justa a demissão, mas até fiquei aliviado. Eu ia para o estágio com pesar, que só passava ao fim de expediente. Naquela época, eu lia Álvares de Azevedo no ônibus da empresa. No meu último dia, li com mais gosto e ainda com dinheiro no bolso. Gastei o dinheiro comprando, entre outras coisas, O Estadista do Império, de Joaquim Nabuco, cuja resenha li na Veja. Eu tinha 16 anos.

Em seguida, tentei novamente oportunidades na área. Fui a todas as empresas de automação da RMBH (é vero) e em inúmeras agências de emprego. Não era só eu que, no fundo, não queria a área técnica, era ela também que me negava, e negava a minha idade, péssima para arranjar emprego, quando não existiam programas como “Meu Primeiro Emprego”. Anos FHC.

Houve outros fatos até eu passar no vestibular de 2001 da UFMG, mas acredito que os leitores já devem estar impacientes. Fiquei em dúvida entre tentar Letras ou outro curso. Escolhi Letras porque eu estava gostando de ler e escrever, principalmente poesia. Após os 15 anos, comecei a escrever uns versos. Reuni meus primeiros versos num compêndio que intitulei Poemas Dramáticos, que nunca foi publicado. Lia meus poemas para os amigos de bairro, assim como ouvia as suas composições. Antes disso, mais novo, morando no Monte Castelo, minha amizade com o Davidson (GA), hoje músico experimentalista, foi bastante criativa e inteligente. Tínhamos um laboratório, um clube de alpinismo amador, escrevíamos jornaizinhos um para o outro, criávamos rádios com fitas K7, dueto musical.

Entrei para o curso noturno de Letras muito novo, com 17 anos. Escolhi o turno da noite porque eu ainda tinha a intenção de arranjar emprego na indústria ou em outro setor. Queria trabalhar. Acabou que o curso me afastou de vez da indústria e voltou-me para os prazeres das aulas de literatura, as minhas favoritas. Por que mudei de curso?

O curso de Letras é constituído de três setores: Linguística, Línguas e Literatura. Eu era muito novo para meu cérebro absorver os esquemas da Linguística. Não que me faltava inteligência ou achasse interessante as descobertas de Saussure: era interessante, mas chato. Não me dava prazer. No setor Línguas, tentei o Latim e o Espanhol. Achei bacana traduzir frases em latim, interpretar, mas ficou só nisso. Não me matriculei em Latim II, com o I saciei um bocado minha sede de conhecimento. Tal sede era real. No meu primeiro semestre na UFMG, me matriculei em nove disciplinas e fui aprovado em todas com notas A. Jamais repeti a façanha.

No setor Línguas ainda, me matriculei em Espanhol I com o jovem professor Eduardo – língua no curso de Letras é para formar professores de língua e não falantes. Fui até o final da disciplina mesmo sentindo que não estava gostando. O que eu amava e amo eram a Literatura e a Crítica Literária. Amar, daí gostar da palavra Amador, tão desvalorizada atualmente, em detrimento de Profissional, numa falsa oposição. Uma das informações que me chamaram atenção para o curso de Letras no Manual do Candidato do vestibular de 2001 era a possibilidade do bacharel em português atuar como crítico literário. Desconfiava que o ofício de crítico não fosse recrutado e remunerado, mas eu gostava da área – e gosto –, e em 2004 agrupei meus escritos no livro Leituras e Andanças, cinquenta exemplares vendidos em um mês. Desde então, fui tragado para as letras e para o jornalismo. Na faculdade, eu lia os cartazes com oportunidades de estágio e trabalho. As oportunidades voltadas para a docência não me empolgavam, mas, quando, certo dia, eu vi um cartaz anunciando uma oportunidade num jornal, me interessei.

Procurei o jornal e fui contratado. Era o Jornal da Associação dos Amigos do Bairro Belvedere III, representante comunitário e jurídico dos moradores do bairro nobre. Meu chefe era o Ubirajara, engenheiro e próspero empresário, dono de empresa de engenharia. Ele era o presidente da associação, função que exercia com desvelo. Turrão, gostava de diminuir os funcionários da associação, onde a rotatividade era alta. Dizia que a sua mulher sabia cinco línguas e que a gente não sabia nem o português. No fundo, ele só exigia que jornalzinho saísse bem feito, o que era justo. Mesmo sem curso de designer, sempre tive senso estético e sabia que o jornal estava sem padrão gráfico. Padronizei-o e fui reconhecido por isso, pelo diagramador e pelo meu chefe. O português saiu correto graças a uma colega professora, que trabalhava comigo, mas que saiu do emprego no mês seguinte. Na hora do pagamento, eu nem sabia que valor cobrar. Ubirajara tirou algumas cédulas da gaveta, colocou-as sobre a mesa e me perguntou se estava bom. Eu realmente não sabia medir o valor do meu trabalho. Aceitei e fui embora contente.

O jornal do mês seguinte ficou em minhas mãos. Fui fazendo-o. Anunciante não era problema. Os anunciantes é que ligavam para o jornal. Pagavam o anúncio que preço fosse. Lembro-me que o Sr. Ubirajara me pediu para ir a casa dele num domingo para a mulher dele revisar o jornal comigo – a poliglota. Fiquei sem jeito de ir, um pouco assustado, eu era muito novo. Não fui. Não voltei para o jornal depois disso. Contudo, gostava de admirar o primeiro exemplar que ajudei a fazer, todo bonitinho. Fiquei orgulhoso e gostei de fazer jornal, de vê-lo impresso na minha mão. Pegar, folhear um jornal impresso, foi uma satisfação para mim. Não era fetichismo ou deslumbramento, era a mais pura satisfação.

Voltando ao curso de Letras, como escrevi, eu gostava mesmo era de literatura e crítica literária. Em determinado momento, pensei que o curso me voltaria para a docência, a qual não eu não estava certo. Pensei ainda que literatura e crítica eu pudesse aprender das obras literárias e ensaios literários (adoro ensaísmo), o que de fato sempre fiz, mesmo depois de sair do curso. A biblioteca da Faculdade de Letras foi uma das que eu mais frequentei na universidade.

Terceiro: despertou-me o engajamento político e, como havia vagas de reopção para ciências sociais, pedi a mudança em meados de 2004. Digo que não me arrependi, mas lamentei a mudança, por alguns motivos, como: a) o curso de ciências sociais era ofertado majoritariamente durante o dia, o que me atrapalhou em chances de trabalho, b) fiz a reopção no escuro, sem analisar para onde estava indo e mais pensando de onde eu estava saindo e c) não me identifiquei com o curso e sim me adaptei a ele, depois de muito me deprimir e quase o abandonar. Não era o que eu imaginava. As ciências sociais pareciam passar por uma fase de ocultar e exorcizar o marxismo dos anos 1970, e nesta época eu lia e estudava o marxismo. Ficava vendo meus colegas e senti-me diferente deles, pois, além da grade curricular, eu me dava a minha formação intelectual e nunca abdiquei da biblioteca e do autodidatismo, e paguei por isso, sendo um lobo solitário e assim me graduando em agosto de 2010.

Gosto dos antigos, quando as humanidades não ficavam demarcando território. Gosto de Otto Maria Carpeaux, de quando o jornalismo cultural não tinha esse nome, quando os jornais eram impressos e publicavam textos longos. Simpatizo-me com tempos em que não vivi, dos antigos rodapés de crítica literária, ou de tempos mais remotos quando, segundo Afonso Arinos de Mello Franco: “Quando surgiu o crítico literário a crítica deixou de existir”.

Gosto dos velhos jornalistas mineiros, Vivaldi Moreira, José Bento de Teixeira Salles que, em 2011, lançou “O Passageiro do Tempo”. Gosto das crônicas de Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade. Confesso, lia crônicas de Danuza Leão no Diário da Tarde.

Mais a frente, fui ler embevecido “A sangue frio”, de Truman Capote e “Os 10 dias que mudaram o mundo”, de John Reed, narrativas pujantes. Adiante, “O anjo pornográfico”, de Ruy Castro, “O Segrego de Joe Gould”, de Joseph Mitchell, Joel Silveira, Nelson Rodrigues e achei tempo até para “Minha Razão de Viver”, de Samuel Wainer (sobre o jornal Ultima Hora) e “A Regra do Jogo”, autobiográfico de Cláudio Abramo.

JORNALISMO…

E nisso chegamos às razões d’eu ter o jornalismo como ocupação. Eu não tinha nada que mexer com o jornalismo. Tal contato ocorreu em abril de 2004, um pouco antes do meu aniversário, portanto, eu ainda estava com 21 anos. Eu já estava cursando ciências sociais vindo das letras. Minha atração pelo jornal não foi influenciada pelo meio acadêmico. Só em 2010, já a beira da colação de grau, pedi uma disciplina eletiva no curso de comunicação social.

Minha incursão no jornalismo foi à americana – trocando pernas na rua e deixando currículos em jornais – e minha experiência na área é à americana, isto é, aprendendo o ofício na própria redação, com o editor e os colegas. Por que eu procurei os jornais? Porque eu gosto de ler, escrever, porque eu queria dar vazão aos meus textos, porque queria fazer o que a imprensa local não fazia, pela utilidade pública e até pela aura de glamour que o jornalismo encerra.

Em abril de 2004, depois de enviar currículos para os jornais locais de Contagem, o editor José Antônio Borba, do Jornal Regional Contagem, me chamou para uma conversa. Levei comigo publicações que havia confeccionado até aquele momento. Borba já havia lido textos meus e gostado. Queria-me no jornal. Perguntou-me valor de remuneração e mais uma vez eu não sabia mensurar. Ficou tudo no ar. Até hoje está…

                             José Antônio Borba, eu e o poeta Kennedy Cãndido 

Trabalhei meses sem ganhar nada. Depois, ganhei espaço para colocar anúncios. Ao invés do jornal me pagar, o anunciante é quem o faria, em dinheiro ou mercadoria, mas, como não sou vendedor, isso pouco me rendeu. À frente, conquistei uns magros honorários. Houve um ano em que acumulei vários honorários para ter a sensação de salário. Peguei o montante no final de ano.

Sou o inventor na história humana da ‘greve individual’ e declarei várias no jornal, a fim de aumentar meus honorários, mas sempre fui derrotado, e regressava. Das últimas, regressei diferente: descobri que sentia falta do jornal, que gosto de compor “minha” página, do fechamento, da expectativa, de pegar, folhear, distribuir, ver circular. Quando a gente gosta do que faz, trabalha até de graça.

O meu editor tem suas qualidades, uma é de ser um excelente colega e outra é de dar oportunidade (de trabalho, não emprego) para leigos, mas que não deixa de ser uma esperteza patronal. Apesar disso, é interessante ter testemunhado, por exemplo, a passagem do Gilmar pelo jornal. Ele catava latinhas antes de entrar para o jornal e, no primeiro mês como vendedor de publicidade, bateu o recorde de faturamento nos então 10 anos do jornal. Sumiu misteriosamente. Suspeitei que por desmotivação, já que Gilmar vivia sugerindo melhorias não absorvidas. O editor diz que ele simplesmente sumiu.

Assim como Gilmar, eu sugeria melhorias. Quando eu cheguei lá, lembro que o Regional era um dos jornais de diagramação mais poluída da cidade e era repleto de erros gramaticais. Tinha anúncio até no cabeçalho. Consegui tirá-los de lá. Tentei outras investidas, sem sucesso.

Werton Santos (fotógrafo), eu e José Antônio Borba no restaurante Ponte Nova

Desde o início, meu nome vai no expediente como colaborador, e só à frente descobri que assim a legislação se referia aqueles que publicam em jornal sem ser jornalistas profissionais graduados. Houve uma vez que o Borba queria me colocar no expediente como editor-adjunto, mas eu protestei, pois, se fosse apenas uma mudança de nomenclatura, preferia continuar como colaborador. Tentei até registro no Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais como colaborador. O presidente do sindicato achou que eu queria para profissional: “Não, é para colaborador”, eu disse. E ele: — Para colaborador não existe, não precisa. “Mais eu quero assim mesmo”, respondi igual menino. Gosto de termo, cai bem para traduzir o que eu faço, ou o que eu acho que faço. De certa forma, o que eu faço é colaborar com o jornal, com a cidade.

Quero acreditar que meus textos são colaborações para a cidade, que eu tenho uma missão com a polis, só não sei qual. É difícil definir. É algo como pensar sobre esta cidade, ora interpretá-la, ora poetizá-la, ora intervir, ter utilidade pública. Escrevi crônicas sobre ela, como “Vida noturna em Contagem, machões, discotecas ambulantes e karaoquês”, “A Nossa Times Square, Av. João César de Oliveira”, “Os Becos do Paraíso, Cidade Jardim Eldorado”, “Mercado Central de Contagem”, “Imprensa em Contagem, jornais detém a história recente da cidade”.

Meus três livros, Leituras e Andanças (2004), A Alma dos Bairros (2007) e Nômade (2008), de edição caseira e tiragem irrisória, são reuniões do material publicado em jornal, todos com Contagem como pano de fundo.

Digo que cancelei um concurso fajuto. Acontece que investiguei, escrevi e assinei matéria de capa que cancelou um concurso público municipal irregular. No dia da publicação, o Jornal Regional Contagem foi citado na tribuna da Câmara Municipal. A prefeitura, em retaliação, enviou multa para o jornal. O editor nem leu, jogou no lixo. Ficou orgulhoso de mim. Em outra ocasião, denunciei descumprimento de edital pela prefeitura. Ela devia publicar um catálogo e não publicava, enrolava os participantes. Após a matéria, teve que publicar. Quando Fernando Perdigão, designer encarregado de diagramar o catálogo, me viu, bradou: “Lá vem o Vinícius, boca de trombone”.

Por hora, basta de causos de jornal, evito passar por exibicionista. Prefiro frisar, sem afetação, que matérias assinadas por mim geraram tanto rebuliço quanto aplauso, agrado e desagrado, o que indica que usei a mesma balança. E isso não é banal.

Quando li o Guia do Estudante da editora Abril, notei que tenho algumas das características pessoais para a profissão de jornalista, algumas destas habilidades, inclusive, transferíveis para outros campos profissionais.

Não tenho certezas. Certezas são privilégios divinos. Não sei se nasci para o jornalismo profissional. Quanto ao jornalismo prático, bem, esse eu pratiquei.

 


[1] O presente texto, escrito originalmente em 2010, portanto, dois anos após a publicação de Nômade, saiu publicado na página 10 da edição nº 203 do Jornal Regional Contagem, de maio/junho de 2012, com o título “Quem sou e porque me tornei jornalista amador”, aqui mudado para “prático”, sem prejuízo da acepção anterior, que também procede. Trata-se da primeira versão de texto bem menor submetido aos examinadores do Curso Abril de Jornalismo de 2010, do qual não fui selecionado, levando-me a conformar-me com o meu destino de amador, ou seja, “aquele que se dedica a uma arte ou ofício por mero prazer” ou, como agora coloco, prático, como sugerido pela amiga poeta Elza Soalheiro, vocábulo que, entre outras interessantíssimas acepções, apresenta a de “aquele que exerce profissão liberal sem ser diplomado”.