Quando as crises se encontram


Vivemos um momento único. A saúde pública, a economia e a política periclitam. Conjunção perversa de crises. Não tenho dúvidas de que a maneira como superarmos essa quadra histórica moldará, em grande medida, o futuro próximo da nação brasileira.

É evidente que não é tempo para alarmismos e histerias. É tempo de serenidade. Mas serenidade na sua mais profunda acepção, de clareza, limpidez de raciocínio, e, sobretudo, firmeza. Serenidade não é fraqueza. É força.

Precisamos de liderança. Não há líderes? Temos de ser otimistas. Os líderes se forjam nos momentos duros e difíceis. O que menos precisamos nesta hora dramática são de ações fragmentadas e desconexas, que só dificultam a busca das melhores soluções.

Um primeiro ponto entendo que é crucial. As crises têm de ser tratadas simultaneamente. Há uma interconexão profunda entre elas. Nada de cartesianismos.

No que concerne à crise da saúde pública, um debate perigosamente politizado instalou-se no país: isolamento horizontal x isolamento vertical. O chamado isolamento vertical faz sentido do ponto de vista lógico, mas é preciso situá-lo no contexto do Brasil. Temos cerca de 30 milhões de idosos, a grande maioria vivendo em situação precaríssima. Não há como isolá-los efetivamente num contexto de aceleração da difusão do vírus. Quais as consequências? Não sabemos. Temos de ser responsavelmente humildes. A pandemia não está sob controle.

A boa gestão de riscos nos ensina que um evento de consequências catastróficas, mesmo que tenha pequena probabilidade de ocorrer, não pode ser admitido. Falamos de vidas. Um bom caminho aqui pode ser a criação de um grupo de especialistas médicos e sanitaristas para acompanhar pari passu a evolução dos fatos e deliberar tecnicamente. Longe de ideologias.

Quanto à economia, é evidente que, quanto maior o prazo do isolamento, maiores os danos. Aqui é preciso articular-se um conjunto muito ousado de políticas anticíclicas que injetem poder de pagamento nos trabalhadores informais, nas micro, pequenas e médias empresas e, importante enfatizar, nos Estados e municípios. Estados e municípios têm cerca de 12 milhões de funcionários, sem contar os aposentados, que precisam receber os seus salários.

É a União que num Estado federativo dispõe da capacidade de criar meios de pagamento. É hora de heterodoxia e muita criatividade, palavras que ficaram malditas pelos economistas pelo mau uso das políticas não ortodoxas. É preciso resgatá-las. Aqui também seria de bom alvitre escutar um grupo de grandes economistas para balizar a definição das políticas.

E a política? É ela quem inevitavelmente deve comandar todo o processo. A grande e virtuosa política. Nossos representantes devem unir-se e articular-se pelo bem comum, em favor da superação dessa quadra tão dramática. Muito juízo nesta hora, diria minha mãe. Falar-se em eleições é uma afronta à nação. Prender-se a dogmas e ideologias é uma grande irresponsabilidade. Temos à frente uma grande chance de quebrar alguns paradigmas e relançar o país, preservando a vida, a liberdade e a democracia. Depende de nós.

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