Psicanálise e sexualidade – Por Marlon Nunes – #temporadadetextos

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O comportamento sexual difere em muitos casos de julgamentos morais

Marlon Nunes

e/ou tradicionais, cabe a cada indivíduo comportar-se de maneira que se sinta à vontade para lidar com seus desejos e percepções. Partindo do pressuposto de que estamos expostos aos julgamentos da sociedade, muitas vezes intolerantes, determinar o que é certo ou errado pode ser equívoco. Entretanto, faço a ressalva de que comportamentos sexuais também são influenciados pela indústria cultural. Lembro-me que nos anos 2000 várias novelas exibiram casais homossexuais e, logo depois, era possível ver mais casais homoafetivos nas ruas. Assim como em todos os aspectos que discuto relativamente à cultura de massa, creio que a sexualidade também está carregada de norteamentos influenciados pelo que nos é exibido. 

Por conta disso e de outros inúmeros fatores, claro que não é de um dia para o outro que conseguimos desenvolver conscientemente a nossa sexualidade, se é que é realmente é possível desenvolvê-la totalmente. Para uma maior emancipação sobre o pensar sexual tanto homo quanto heterossexual, as experiências, a vivência de cada pessoa com o seu parceiro ou parceiros é que a levará a um maior conhecimento do seu corpo diante a sua individualidade e a sociabilidade. Ou seja, a construção da responsabilidade sobre a sua liberdade e a do outro requer sensibilidade; pois, muitas dos nossos comportamentos são inconscientes. Concretizar uma relação duradoura devido as várias incompatibilidades e o no que conhecemos como amor líquido ou modernidade líquida faz-se ainda mais complicado se nos deixarmos levar pelas influências midiáticas.

É preciso que tenhamos cautela ao afirmar expressões ou conceitos para não gerarmos algo que reprima o próximo, por quê, é justamente o como lidar com a repressão que pode consecutivamente proporcionar uma construção satisfatória ou não dentro dos prospectos neuróticos, perversos e até psicóticos. Instituir apenas uma verdade para delimitar os procedimentos corporais é um engodo. Cada um deve ter o direito e a paciência de descobrir-se, de sentir uma maneira ou outra que lhe satisfaz os desejos e anseios. Seja na cama ou na mesa é preciso aprender a compartilhar com o parceiro ou a parceira. Entender o corpo como lugar do gozo e do bem-estar sendo que ele reflete todas as dimensões simbólicas que o envolvem em todo o conjunto de significações no espectro da vida.

No tempo em que vivemos imaginasse que há uma maior liberdade relativa à sexualidade, o que também pode não passar de um engano, pois os aspectos repressivos e opressivos estão diretamente ligados ao suposto aumento da liberdade. Basta repararmos que nos últimos anos há o aumento potencial dos casos de violência contra as mulheres e os homossexuais. Ou até, casos em que as neuroses obsessivas se desenvolvem por essa suposta liberdade não suprir verdadeiramente quem a pessoa é e, assim, ela condicioná-la a comportamentos os quais não refletem as suas reais aspirações.  

A questão principal é refletirmos o quanto a pressão social nos incomoda, digo tanto no caráter individual ou coletivo. É preciso conhecer-se para não cair nas armadilhas cotidianas. Fato que a maioria não consegue tão rapidamente devido a fatores familiares, sociais, egocêntricos e midiáticos que as condicionam em lugares que não são os seus. No gozo, no desejo e na satisfação não há fatos, mas interpretações e identificações que independem somente da visão social. Por isso, ao visualizarmos as condições sexuais com maior naturalidade, relativamente ao desejo de cada um, podemos chegar a uma menor repressão do conteúdo recalcado e consequentemente reduzir os sintomas da pressão social que gera as psicopatologias.


Marlon Nunes é professor mestre em Estudos de Linguagens, escritor e psicanalista em Contagem-MG. Possui dois livros publicados: “A solidariedade vai até onde vai o interesse” e “O corpo hiper-real em Crash e a festa tecnológica: sedução, simulação e fragmentação”.


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