Psicanálise – A interpretação dos sonhos de Freud – Por Marlon Nunes – #temporadadetextos

Fonte: Pixabay
Marlon Nunes

Os sonhos, quando submetidos a uma análise a partir da teoria do inconsciente, revelam uma lógica própria capaz de desvelar toda a sua coerência e de nos indicar suas
múltiplas possibilidades de sentido. O que Freud defende como tese central em sua teoria dos sonhos é que as aleatoriedades que acontecem nos sonhos não são ilógicas e que elas são delimitadas pelo próprio psiquismo. Sendo assim, a interpretação dos sonhos permite a reelaboração do conteúdo manifesto em conteúdo latente.

As imagens manifestas são o sonho contado pelo paciente, na maioria das vezes, aparecem como ideias desconexas e, em poucas oportunidades apresentam uma sequência lógica. Num primeiro momento essas imagens podem não significar algo que aproxime o paciente da realidade vivida no dia anterior ou em outros momentos da vida. A função do sonho ou a elaboração onírica, então, é fazer a passagem das sensações inconscientemente sentidas para serem manifestas durante o sono como espécies de delírios. Rapidamente podemos dizer que o conteúdo latente é inconsciente e o conteúdo manifesto é consciente.

Esse processo possibilita não somente a interpretação das especificidades dos próprios sonhos, como também as interpretações da psicanálise em geral. Freud afirma os sonhos como realizações dos desejos inconscientes, resultantes do que ele denomina um processo primário. Acrescento que os sonhos também decretam e constituem não somente desejos reprimidos, como é pensado comumente, mas realização também o papel de completar as satisfações e prazeres ocorridos em momentos passados. Logo, o que acontece é o movimentação dos conteúdos vividos quando estamos acordados, psicanaliticamente conhecido como estado de vigília, para a deformação da lógica linguística num processo secundário.

Esse movimento acontece devido às censuras. Grosseira e hipoteticamente, exemplifico: numa primeira sessão o paciente descreve um sonho em que presenciou ou participou de um tiroteio. Muito provavelmente ele está inseguro com alguma situação que lhe oferece perigo ou está com o desejo de morte acentuado, tanto para matar quanto para morrer. Somente com as decorrentes sessões poderemos chegar juntos: analista e analisando, pelo processo de transferência, numa condição de entendimento do que está acontecendo.

Digamos que o processo secundário que ocorre durante o sono modifica os conteúdos do processo primário do estado de vigília. Essas deformações camuflam os desejos realizados nos sonhos, fazendo com que, num primeiro momento: o conteúdo manifesto, as imagens, sons, palavras sejam quase que indecifráveis e indistinguíveis. Contrariamente ao descrito por pseudociências ou charlatões espíritas de que o sonho de predetermina um futuro próximo ou distante, a psicanálise demonstra que o sonho realiza ou substitui a vontade de realização de um desejo recalcado. Assim como as outras linguagens: atos falhos, chistes, frustrações, repressões, satisfações e prazeres por exemplo. Os sonhos representam a conjunção do consciente com o inconsciente. Prefiro até não fazer essa divisão. Os sonhos são a linguagem da alma assim como no estado de vigília.

Os sonhos são mensagens que levam a pensar o não pensado e assim ao entendimento do vivido. Para além da manifestação de conteúdos recalcados, da realização de desejos e dos caminhos para o inconsciente, o sonho pode representar inúmeros benefícios para o corpo (prefiro não fazer a tradicional divisão platônica corpo-mente). O sonho é responsável por exemplo pela manutenção do sono e do repouso.

As rupturas propostas e realizadas por Freud refletem ainda na contemporaneidade. Elas operam de acordo com o desejo inconsciente e a organização da linguagem. A abordagem dos sonhos deve verificar que há neles textos que e características da linguagem, logo, os sonhos são também sistemas de linguagens que significam acontecimentos da vida. É na realização dos sonhos que podemos encontrar o enlace entre as pulsões e as representações.

Freud afirma que a fantasia não é algo a ser desconsiderado como simples devaneio a ser desfeito. Nossa realidade psíquica e a formação do inconsciente tem efeitos na vida que compõem modificações na estrutura dos organismos e interferem na clarividência que temos dos ambientes e os aspectos que os circundam. Dessa maneira, o sonho e o inconsciente são dois conceitos da teoria freudiana que caminham juntos, sendo o sonho uma das estratégias para dar ao indivíduo uma melhor emancipação diante de si mesmo.

Marlon Nunes é professor mestre em Estudos de Linguagens, escritor e psicanalista em Contagem-MG. Possui dois livros publicados: “A solidariedade vai até onde vai o interesse” e “O corpo hiper-real em Crash e a festa tecnológica: sedução, simulação e fragmentação”.

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