Primeiro terreiro de BH será protegido por pano verde para garantir privacidade


Um lava a jato próximo à avenida Waldomiro Lobo esconde uma íngreme ruela que resguarda a entrada do Ilê Wopo Olojukan, o terreiro de candomblé mais antigo de Belo Horizonte, tombado como patrimônio há mais de duas décadas. Disfarçado entre árvores, o local, que ocupa meio quarteirão – cerca de 2 .200 m² – da rua Dr. Benedito Xavier, no bairro Aarão Reis, na região Norte, se impõe diante da urbanização e resiste às investidas do setor imobiliário. 

A mais recente ameaça é a possibilidade de construção de prédios com até dez andares na vizinhança limítrofe. O lote que divide o quarteirão com o terreiro foi colocado à venda, o que atraiu o interesse de uma construtora. Como ação preventiva para garantir que as edificações não causem nenhum tipo de dano às práticas culturais do terreiro, o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte (CDPCM-BH) publicou neste mês, no “Diário Oficial do Município” (“DOM”), uma série de regras de proteção, entre elas que sejam plantadas árvores nos limites dos terrenos, de forma a criar um ‘pano’ verde para que a privacidade dos rituais ali celebrados seja mantida.

“O candomblé é uma religião de rituais, nós tomamos banho ‘no tempo’, com os pés no chão, e ficamos literalmente nus. Com vizinhos, como é que poderíamos dar continuidade?”, questiona o babalorixá Sidney Ferreira da Silva, que toca o candomblé ali há 23 anos. Além do ‘pano’ verde, qualquer edificação no local só poderá ser construída a uma distância de 5 m do muro do Ilê e não poderá ter janelas viradas para o terreiro.

Patrimônio

A história do Ilê Wopo Olojukan começou em 1960, quando o baiano Carlos Ribeiro da Silva – Carlos de Olojukan –, recém-chegado em Belo Horizonte, apaixonou-se pela cidade e decidiu abrir ali o primeiro terreiro de candomblé do município. Os rituais iniciaram-se quatro anos após a chegada do pai-de-santo, e o terreiro ganhou forma em inúmeros endereços da região Nordeste de BH, como nos bairros Ipiranga e Gorduras, até que se instalou finalmente no Aarão Reis, em meados de 1980.

O bairro pouco explorado à época foi crescendo e, por muito pouco, o espaço de tradição não foi desapropriado para dar passagem à Via 240, que leva a Santa Luzia, na região metropolitana. “Seu Carlos de Olojukan já dava como perdido o terreiro. Faltava só a assinatura do governador para sermos desapropriados. Até que saiu o tombamento. Seu Carlos, quando soube, pulou de alegria. O maior medo dele era que o terreiro acabasse”, conta Ferreira da Silva, que, após a morte de Carlos de Olojukan em 1997, foi escolhido para herdar o terreiro durante uma incorporação de Oxóssi, que é uma entidade orixá no candomblé.

A partir do tombamento, em novembro de 1995, a urbanização teve, literalmente, que se curvar às tradições do candomblé. “Como o terreiro foi tombado, decidiram traçar uma curva em torno do terreiro para continuar a Via 240 sem que ele precisasse sair de lá”, detalha a doutora em história Wanessa Pires Lott, estudiosa do Ilê Wopo Olojukan como patrimônio da história negra de BH.

Mais um desafio

Festas suspensas e atabaques parados durante a pandemia
O caminho estreito para entrar no Ilê Wopo Olojukan está interditado e com portões trancados há cerca de quatro meses em função da pandemia do novo coronavírus. Esses seriam, tradicionalmente, meses de rituais indispensáveis para o candomblé. O terreiro inicia o calendário em abril com o festejo para o patrono da roça, Oxóssi, e encerra apenas em dezembro, com uma cerimônia para Oxum.

Não há estimativa de quando o terreiro voltará a funcionar. A cozinha está vazia, as panelas onde são preparados os alimentos para os ritos estão guardadas no armário, e não há som de atabaques. “Que saudade do candomblé, que saudade de ver meus filhos, que saudade de sentir Oxóssi se aproximar de mim e me arrepiar. O candomblé é uma religião de muito contato, existe uma afetividade e um amor. Agora, nós precisamos nos preservar diante desta pandemia. Está sendo muito difícil, tem dia que me dá uma saudade e tenho que vir aqui, entrar nesta casa, sentir esse cheiro de terra, ver o assentamento, olhar e pedir”, lamenta o babalorixá Sidney Ferreira da Silva. 

“Toda noite peço a Olodumare, que é nosso Deus, para que tenha piedade dos filhos dele, da humanidade”, encerra.

Tradição tem se afastado das cidades

O avanço acelerado da urbanização em Belo Horizonte obrigou terreiros de candomblé e de umbanda a se mudarem ou adaptarem suas práticas à realidade da metrópole. Muitos acabaram se distanciando da cidade para manter os rituais o mais próximo possível da tradição brasileira original. 

“O candomblé está se distanciando da cidade porque, na área urbana, já não tem como manter. Um terreiro precisa de cisterna, mas tem alguns que não têm; um terreiro precisa de terra, mas muitos não têm”, declara o babalorixá Sidney Ferreira da Silva.

Além disso, os terreiros precisam de privacidade, como explica a antropóloga e pesquisadora das religiões afro-brasileiras, Mariana Ramos de Morais. “O candomblé é uma religião de segredo, e muitos rituais destinam-se apenas a iniciados. Existem horários certos para serem feitos, então algumas edificações vizinhas podem, sim, prejudicar”, esclarece Mariana.

Memória

No tricentenário de Zumbi dos Palmares, em 1995, a Prefeitura de Belo Horizonte promoveu ações para contemplar a memória da comunidade negra, como o tombamento do terreiro Ilê Wopo Olojukan e da guarda de congado da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá. 

Referência 

O Ilê é uma das grandes referências para outros terreiros e fornece a eles plantas sagradas que só existem ali, como o Pé de Obi, que é indispensável na tradição do candomblé, e a erva Bete Cheiroso.

Berço

O primeiro terreiro de candomblé foi tombado no Brasil em 1986. Trata-se da Casa Branca do Engenho Velho (ou Sociedade São Jorge do Engenho Velho), que fica em Salvador, na Bahia.

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