Primeira casa do novo povoado de Bento Rodrigues começa a ser erguida


Primeira comunidade a ser devastada por uma avalanche de 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos que vazaram da barragem de Fundão em 5 de novembro de 2015, o subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana, região Central do Estado, começou a renascer nesta segunda-feira (29) em um novo local. Exatos 1.362 dias depois ter a casa engolida pela lama em questão de segundos, o operador de motoserra Hedine José da Silva, pôde, finalmente, assentar o primeiro tijolo de sua nova residência com as próprias mãos, em um ato simbólico que marcou o início da construção das novas residências na tarde de hoje. 

O anúncio das obras, no entanto, não apaga a dor de quem viveu a experiência de ter parte de sua história transformada em escombros. “Ficar longe do antigo Bento é difícil, a pior coisa da vida. Já sofri muito e ainda choro”, desabafou, emocionado, o aposentado José das Graças Caetano, 66. Apesar da tristeza que persiste, ele tenta cultivar a esperança de voltar a ser feliz no novo distrito e conta orgulhoso que foi ele quem sugeriu a nova localização do povoado. “Vai ficar muito lindo, se Deus quiser”, espera.

O contrato assinado nesta segunda-feira pela Fundação Renova e o grupo HTB, que executará o serviço, prevê a construção de cerca de 255 casas. Os imóveis devem ser entregues até 27 de agosto de 2020. Em caso de descumprimento do prazo, o promotor de Justiça Guilherme Meneguim explicou que o Ministério Público de Minas Gerais quer que a Fundação Renova seja multada em R$ 1 milhão por dia de atraso. 

Além das residências, que foram projetadas de maneira personalizada, conforme o desejo de cada morador, o novo Bento também terá uma escola, posto de saúde, associação comunitária, campo de futebol, quadra poliesportiva e três igrejas. Até agora, entretanto, o local do reassentamento se resume a um imenso canteiro de obras com 398 hectares de área.

Embora o projeto do novo subdistrito reproduza, em parte, a disposição das casas do antigo povoado e mantenha o nome das ruas, o aposentado Osvaldo Apolinário de Almeida, 76, não acredita que a vida voltará a ser a mesma. “Não adianta a gente querer que seja a mesma coisa, porque pra lá a gente não pode voltar”, comenta. Quase quatro anos após o desastre, ele diz que o que resta é “olhar para frente”.

Compromisso

O diretor presidente da Fundação Renova, Roberto Waack, afirmou que a entidade está trabalhando para que tanto as obras de reassentamento de Bento Rodrigues quanto de Paracatu de Baixo, outro povoado destruído pela lama da barragem de Fundão, sejam entregues dentro do prazo definido pela Justiça. Nesta segunda-feira também foi assinado contrato com a empresa Andrade Gutierrez para a reconstrução de Paracatu de Baixo. 

Minientrevista

Guilherme Meneghin – Promotor de Justiça

Após o anúncio do início das obras da primeira casa, qual o balanço que o senhor faz das ações da Renova até o momento?

A gente fica feliz, por um lado, mas é bom recordar que isso não é fruto de boa vontade das empresas. Pelo contrário, por traz desse evento houve muita luta. Muitas coisas que estão acontecendo aqui eles contestaram judicialmente, como, por exemplo, a possibilidades de as pessoas definirem como serão suas próprias casas. As coisas estão andando, mas poderia ser muito melhor se houvesse mais honestidade e boa vontade por parte daqueles que cometeram um dos maiores crimes da nossa história.

A Fundação Renova recorreu sobre o pedido de multa em caso de atraso. Como está esse processo?

Nós tivemos de entrar com um pedido judicial para que a juíza determinasse a data final do reassentamento. Eles (empresas) não quiseram aceitar nenhum tipo de prazo ou multa. Ou seja, eles não queriam assumir as consequências de seus atos. Foi determinado o dia 27 de agosto de 2020. As empresas Vale, Samarco e BHP estão buscando uma alteração desse prazo e o processo está suspenso, visando que eles não venham a recorrer e que a gente faça, de fato, um acordo.

O prazo imposto para entrega das obras já leva em consideração possíveis atrasos por alterações de condições climáticas?

Na nossa visão, isso não se aplica porque quem atrasou o início das obras foi a Renova. Os atingidos não podem pagar por um erro que as empresas e a Renova cometeram. Era para terem colocado esse primeiro tijolo no ano passado. Os atingidos não podem assumir esse ônus.

 
 
 
 
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Primeira casa do novo povoado de Bento Rodrigues começa a ser erguida. Reassentamento de 255 famílias está previsto para ser concluído em agosto de 2020 Vídeo: Flávio Tavares @flavio_tavares #BentoRodrigues #Mariana

Uma publicação compartilhada por InstaTEMPO (@otempo) em 29 de Jul, 2019 às 4:53 PDT



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