Participação de Jojo Todynho em ‘A Fazenda’ fomenta debate sobre gordofobia

Não foi preciso mais de uma semana para que a presença de Jordana Gleise de Jesus Menezes, a Jojo Todynho, se tornasse de alguma maneira desconfortável para outros participantes do reality “A Fazenda”, da RecordTV. Logo nos primeiros dias de convivência, os peões Juliano Ceglia, Biel, Cartolouco e Mateus Carrieri fizeram uma roda e discorreram sobre o corpo da cantora. Não demorou para que se falasse em “cirurgia bariátrica” e para que se sugerisse que, em relação ao peso, ela havia chegado a um ponto já “irreversível”. Embora nenhum deles seja profissional da saúde, ao falar de Jojo, o grupo parecia, com muita naturalidade, descrever uma pessoa adoecida. Dias depois, em outro episódio, Biel voltou à carga. Falando com JP Gadelha, Rodrigo Moraes, Juliano e Cartolouco, o cantor comparou a funkeira a outra participante do reality, a MC Mirella, e sentenciou: a relação entre as duas seria pautada pela inveja que a primeira deveria nutrir em relação ao corpo da última.

Os episódios, nas duas ocasiões, repercutiram nas redes sociais e inflamaram um crescente debate contemporâneo: a gordofobia. As manifestações registradas no reality, afinal, são alegóricas de como essa violência se dá no dia a dia: assim como Jojo, outras pessoas gordas percebem que, sob pretexto de uma legítima preocupação com a saúde, parece haver uma autorização velada para que qualquer um possa opinar sobre os seus corpos. Ainda que pareça existir boa intenção, o tempo todo esses indivíduos são informados de que há algo de errado com eles – como quando recebem sugestões não solicitadas de dietas para emagrecimento.

Por trás dessa retórica pretensamente empática, todavia, há uma lógica que resulta em exclusão: “A mensagem que fica é a de que gordas e gordos devem se esforçar para se adequar aos padrões sob a pena de não haver, literalmente, espaço para eles na vida em sociedade”, expõe a psicóloga especializada em educação e saúde Eliza Carla Sirino Nunes. Ela lembra que sobrepeso e obesidade são fatores que implicam constrangimento social e dificultam o acesso a serviços básicos: é quase impossível transpor a catraca do ônibus, o assento do avião é estreito demais, e as macas dos hospitais podem não suportar o peso do paciente. Mesmo no mercado de trabalho, o fator peso pode ser um impeditivo – entre outros indicativos, uma pesquisa da Universidade de Cornell, em Nova York, EUA, apontou que as obesas recebem 9% menos que outras mulheres.

Por vezes, aliás, chega-se a abdicar de um verniz de preocupação em relação à saúde, e o ataque a pessoas gordas torna-se ainda mais explícito – como no segundo episódio em que Jojo tornou-se alvo dos peões. “A verdade é que, na maioria das vezes, esse incômodo é estético e não está relacionado com prevenção a doenças”, argumenta Rodrigo Lamounier, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional Minas Gerais (SBEM-MG). Trata-se de uma discriminação, prossegue, que se fundamenta no que se aprende sobre essas pessoas, muito associadas a adjetivos nada lisonjeiros.

Discriminação de pessoas gordas gera mais prejuízos que o excesso de peso em si

Diante desse cenário hostil, a psicóloga Eliza Carla Sirino Nunes avalia que a pressão pelo emagrecimento e a sensação de exclusão costumam ter repercussões para a saúde mental e emocional de pessoas gordas. De sua experiência clínica, observa a chegada de pacientes com quadros depressivos e com transtorno de ansiedade relacionados, entre outros fatores, a um histórico de assédio gordofóbico. Ataques que, para muitos, se iniciam ainda na infância. A pressão estética, afinal, é realidade desde muito cedo: uma pesquisa da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, detalhou que, por lá, metade das meninas de 3 a 6 anos diziam ter medo de não serem magras.

O risco para o adoecimento mental, sublinha a psicóloga, é ainda mais agravado no caso de o indivíduo pertencer a outro grupo minoritário – pois, neste caso, teria que lidar com outras formas de opressão. De fato, de acordo com uma publicação de 2012 disponível no repositório científico PubMed Central (PMC), afro-americanas candidatas à cirurgia bariátrica tendem a ficar mais deprimidas do que mulheres brancas.

Além disso, a percepção de Eliza de que indivíduos com sobrepeso ou com obesidade estão mais vulneráveis ao adoecimento mental também se confirma à luz de estudos recentes. Um artigo da revista científica “Psychological Science” de 2016, por exemplo, indica que a expectativa de vida de pessoas gordas que se sentem discriminadas é mais curta do que daquelas que, com porte físico semelhante, não se sentem assim. São indícios de que o estigma associado ao excesso de peso possa ser mais prejudicial do que o fato de estar acima do peso, concluem os autores.

Vale registrar: a depressão passou a ser considerada uma doença associada à obesidade e constitui critério de indicação de procedimento bariátrico, conforme publicação feita, no dia 13 de janeiro de 2016, no portal do Conselho Federal de Medicina (CFM) referente à Resolução 2.131/15 do órgão. Por outro lado, um estudo canadense, feito entre 2006 e 2011 e publicado no “Journal of the American Medical Association” (“Jama”), apontou que pessoas que passam por uma cirurgia para redução de peso têm um risco 50% maior do que a média da população de tentar cometer suicídio após a operação.

Gordofobia médica faz que pessoas gordas sintam “medo” de consultórios

Algo recorrentemente relatado por sujeitos com diagnóstico de sobrepeso e de obesidade, a gordofobia médica está no hall de violências que contribuem para a manutenção dos estigmas e da exclusão.

“Muitos profissionais da saúde parecem acreditar que o peso dos pacientes está sob a tutela deles. Neste caso, o sujeito passa a ser excluído do direito ao atendimento, pois, mesmo diante de um conjunto de sintomas, muitos médicos apenas mandam que a pessoa emagreça – afinal, eles precisam tratar uma doença, e a obesidade é tida como tal”, sustenta Natália Fonseca de Abreu Rangel, mestre em sociologia política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ela lembra que, considerada uma doença crônica, a obesidade vem sendo tratada como uma epidemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) desde o ano 2000.

Efeito desse prática médica pouco acolhedora, esses pacientes tornam-se menos propensos a fazer consultas. Além disso, quando visitam um profissional da saúde, eles tendem a ser atendidos mais brevemente – como indica o artigo “O preconceito de peso e a capacitação de profissionais de saúde para um melhor manejo da obesidade: o que sabemos e o que devemos fazer?”, publicado em 2013. “A impressão que tenho é que essas pessoas são, às vezes, atendidas de forma displicente porque os profissionais vão associar elas a hábitos ruins, pouca força de vontade e preguiça. Logo, imaginam que não devem se deter sobre esses casos, pois não haveria muito a se fazer por esses pacientes”, opina a nutricionista Júlia Criscoullo Romano. Ela ainda lembra que muitos consultórios e clínicas não possuem estrutura para atender gordos e obesos.

Ao visar apenas obesidade, outras doenças podem ser negligenciadas

Outro problema associado à gordofobia médica é que, no afã de tratar a obesidade, o tratamento e até a identificação de outras enfermidades podem ficar prejudicados.

Um caso ilustrativo de como o emagrecimento não deve ser lido, necessariamente, como sinal de boa saúde foi tornado pública por O TEMPO em fevereiro de 2019. Em uma reportagem que discutia os impactos da gordofobia na sociedade, constava a história de Eduarda, uma mulher de 50 anos que durante toda sua vida lutou contra a balança, vinha buscando emagrecer. Finalmente, ela vinha conseguindo perder peso vertiginosamente. Mas sentia-se fraca e, por isso, consultou o médico que a acompanhava duas vezes para saber se algo havia de errado. A paciente apenas recebeu os cumprimentos pelo sucesso na empreitada. A fraqueza, garantiu o profissional, era só uma reação do corpo dela à nova dieta. Meses depois, muito fragilizada, a mulher foi internada. Descobriu, então, que seu intestino estava obstruído por um tumor maligno. Aos 51, Eduarda faleceu. Ela pesava 35 kg.

Trágica, a história dela é exemplo de como a gordofobia – muitas vezes justificada sob pretexto de preocupação com a saúde – pode ser mais letal do que a própria obesidade. Para se ter uma ideia, três estudos diferentes identificaram que mulheres gordas têm maior probabilidade de morrer de câncer de mama e cervical do que mulheres magras, um resultado parcialmente atribuído à relutância em consultar médicos e fazer exames, como informa o artigo “Tudo o que você sabe sobre obesidade está errado”, publicado no site norte-americano Huffington Post em 2018.

“Erin Harrop, pesquisadora da Universidade de Washington, estuda mulheres de peso alto com anorexia, que, ao contrário do estereótipo tamanho zero da maioria das representações na mídia, têm duas vezes mais probabilidade de relatar vômitos, usando laxantes e abusando de pílulas dietéticas. Mulheres magras, descobriu Harrop, levam cerca de três anos para entrar em tratamento, enquanto suas participantes passaram em média 13 anos e meio esperando que seus distúrbios fossem resolvidos”, lê-se no texto.

Corpos gordos não devem ser tratados como doentes, defendem especialistas

O endocrinologista Rodrigo Lamounier e a nutricionista Júlia Criscoullo Romano acreditam que pessoas gordas não devem ser tratadas como doentes ou até como incapazes.

“O que é saúde? Julgo que uma pessoa saudável é aquela que reúne condições para lutar por seus sonhos, para defender sua dignidade e enfrentar desafios. Tenho pacientes que possuem sim quadro de doenças crônicas, que demandam atenção, mas levam uma vida sadia. Um deles tem 75 anos, é diabético, mas este não é um fato determinante na vida dele. É um senhor que faz caminhadas, que pula de parapente”, argumenta ele, defendendo que pessoas gordas podem, da mesma maneira, levar uma vida plena. “Não é razoável esperar que todas as pessoas tenham o mesmo corpo”, assinala.

Lamounier cita que a prevalência de obesidade tem se ampliado nas últimas décadas em todo o mundo. No Brasil, 19,8% da população tem Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 30 kg/m² e é, portanto, obesa. Já 55,7% entraria nas estatísticas do sobrepeso, com entre 25 e 30 kg/m², conforme detalhou a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2018.

Neste contexto, ele acredita que estratégias de saúde devem ser pensadas de maneira ampla. “Estamos diante de um problema multifatorial, complexo, que vai dizer respeito sobre como ocupamos nosso cotidiano, sobre como nos locomovemos, sobre o tempo que dispomos para o lazer. A solução é complexa e as dietas da moda de nada ajudam”, argui.

Júlia segue a mesma linha. “Estamos assistindo a um fenômeno de constante ganho de peso da população. Isso deve nos fazer refletir sobre como tem sido a nossa relação com a comida”, pontua. Ela acrescenta que o corpo gordo não deve ser visto como doente: “Para ser saudável, devemos ter hábitos saudáveis. Dessa maneira, uma pessoa pode ser magra e ter hábitos ruins, o que provavelmente fará que ela tenha problemas no futuro. E o oposto também é verdadeiro: uma pessoa pode ser gorda e ter uma rotina de exercícios físicos e uma alimentação nutritiva, sem apresentar problemas de saúde”, diz.

A nutricionista também tece críticas a dietas muito restritivas, que prometem operar verdadeiros milagres. Lembrando de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) que indica ineficácia desses métodos para até 95% dos dietistas, ela reforça que a prática acaba gerando frustração e ansiedade – e não contribui para uma melhoria da relação da pessoa com a comida.

Tendência é que debate sobre gordofobia se amplie, diz pesquisadora

A exemplo do que revelam as manifestações de Rodrigo Lamounier e Júlia Criscoulo, a socióloga Natália Rangel identifica haver, por parte de profissionais da saúde, um notável crescimento no interesse sobre a gordofobia e sobre como tratar pacientes gordos. “Isso, por si só, já é um grande avanço”, comemora, dizendo já ser possível ver o crescimento dessa discussão no campo acadêmico.

Apesar de o ambiente de debate científico ainda ser majoritariamente gordofóbico, diz Natália, a tendência é que o avanço de pesquisas que levem em consideração o corpo gordo sem preconceitos possa trazer cada vez mais elementos que antes não eram discutidos. Recentemente, ela fez parte de um grupo que reuniu aproximadamente 50 de pesquisadores acadêmicos sobre o corpo gordo. “Acredito que, cada vez mais, um número maior de trabalhos serão desenvolvidos sobre esse tema”, garante.

A mestre em sociologia política, que estuda a potência do ativismo gordo, já vê como estes esforços têm pautado inclusive decisões políticas. “Tive o prazer também de co-orientar as alunas Jacobina Cantisani e Barbara L. da Silva, do curso de nutrição da UFSC, que publicaram um trabalho de conclusão de curso com o nome de ‘Interfaces entre a gordofobia e a formação acadêmica em nutrição: um debate necessário’. Esse artigo foi usado como base para um projeto de lei para a criação do “Dia de conscientização e combate à gordofobia na Bahia”, orgulha-se.

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