Pacientes enfrentam sequelas depois de intoxicação por dietilenoglicol


Em um mês, o taxista Josias Moreira de Matos, 53, e sua família viram o cotidiano virar do avesso. O motorista com 28 anos de profissão e principal fonte de renda da casa agora está impossibilitado de dirigir, com a visão comprometida, fortes dores abdominais e problemas de locomoção. A mulher dele, Valdirene Matos, 42, a filha, Dayane, 20, e o filho, Vinicius, 22 anos, todos também motoristas, passaram a se dividir em cuidar de Josias e rodar com o táxi para pagar as contas emergenciais da família. 

Josias é uma das vítimas notificadas com intoxicação por dietilenoglicol. Ao todo, a Secretaria de Estado de Saúde já notificou 30 vítimas com intoxicação, sendo 26 casos ainda sob investigação e quatro confirmados. Seis pessoas morreram, e em um óbito foi confirmada a presença da substância. 

Além dos sintomas semelhantes e da ordem que eles aparecem, o que liga Josias às  outras 29 pessoas é o consumo da cerveja Belorizontina, da marca Backer. 

Segundo a filha de Josias, o taxista bebeu apenas uma garrafa da cerveja, em 5 de janeiro, no terreno que a família tem para os fins de semana, em Contagem, na região metropolitana de BH. No decorrer da semana, o pai começou a sentir os primeiros sintomas (gastrointestinais), e em 10 de janeiro, Matos foi a primeira vez à UPA, já com insuficiência renal.    

“Meu pai bebe pouco. Ele comprou uma garrafa, bebeu e voltando para casa já começou a se queixar de incômodos intestinais. No começo tratamos com remédio para o estômago, mas depois ele começou a piorar e fomos à UPA”, contou a filha. 

No mesmo dia Josias foi liberado, mas, três dias depois, precisou voltar à unidade pois o mal estar piorou. 

“Na segunda vez que fomos à UPA, ele já estava bem pior, reclamava muito de não conseguir urinar, falava que sentia vontade mas não saia uma gota quando ia ao banheiro”, explicou. 

Ela conta ainda que na unidade os sintomas neurológicos começaram a aparecer.   

“Deram a pulseira verde para ele, e demoraram muito para o atender. Na fila, ele começou a delirar, falar coisas confusas e gritar. Além disso, ele passou muito mal, vomitou no banheiro da UPA”, relembra a filha.

Dois dias depois, Josias foi internado na Santa Casa, no entanto a mulher dele se queixa da falta de um diagnóstico preciso. 

“Deram alta porque ele não sentia mais dores, mas a gente nunca conseguiu conversar com os médicos, pois, em hora alguma que íamos ao hospital, eles estavam disponíveis. Estamos preocupadas com ele em casa, não sabemos nem se ele precisa de hemodiálise”, reclama Valdirene. 

Já em casa, consciente, falando e conseguindo andar desde 19 de janeiro, o taxista ainda sente as sequelas deixadas no corpo pela substância. Outro médico consultado por ele passou um laudo o impossibilitando de trabalhar. 

Josias ainda sente fraqueza, dificuldade motora nas pernas e nas mãos e o mais grave: tem a visão dos dois olhos comprometidas. 

“Meu marido pagava quase todas as despesas da nossa casa. Nossa renda dependia do que ele tirava do táxi. [Com] ele sem trabalhar, o dinheiro acabou. Estamos com a parcela da casa atrasada. Eu e minha filha não podemos trabalhar muito pois precisamos cuidar dele. Estamos só conseguindo colocar comida em casa”, relata Valdirene. 

“O difícil também é que muitos exames e remédios que ele precisa não conseguimos pelo SUS e não temos condição de comprá-los. O próprio exame para saber se ele precisa de hemodiálise não conseguimos fazer”, lamenta. 

Outra vítima dentre as notificadas pela SES, o dentista Ney Eduardo Vieira Martins, 65, também se recupera da intoxicação em casa. No entanto, mesmo com uma recuperação que impressiona os médicos, a vida da família de Ney também foi modificada drasticamente depois que ele adoeceu. 

A esposa deu um tempo na venda de acessórios femininos, ele teve que mudar-sede São Lourenço para o apartamento que tem Belo Horizonte. Com isso, já gastou boa parte das suas reservas financeiras com o tratamento. 

Para quem, como ele, se orgulha em dizer que nunca havia sido internado, fazia trilhas de moto e quase nunca tirava férias, os olhos enchem de lágrimas quando fala da sua atual realidade. 

“Três dias da minha semana são comprometidos pela hemodiálise. Você não imagina o que é  ficar quatro horas ligados a uma máquina sem poder ir a lugar algum. Eu que sempre fui muito ativo é desesperador. O tempo não passa. Tento me distrair com um ou dois filmes salvos no celular”, conta Ney, que se diz um cinéfilo apaixonado pelos filmes do cineasta italiano Franco Zeffirelli. 

O dentista se enquadra no perfil definido pela secretaria e foi o décimo caso notificado. Ele fez o consumo da cerveja Belorizontina, da marca mineira Backer, três dias antes do aparecimento dos primeiros sintomas. 

Foram oito dias de dores, fraqueza, diarréia e vômito, com Ney sozinho em casa, em São Lourenço. No dia 11 de dezembro, o dentista deu entrada no hospital com suspeita de uma virose gastrointestinal e com insuficiência renal. No dia seguinte, ele já estava no CTI e fazendo hemodiálise. Só teve alta no dia 19.  

“Eu me assustei da forma que o encontrei. Ele foi internado no dia 11, na maternidade do hospital, pois não tinha leito, e no dia 13 o levaram para o CTI, pois já apresentava falência dos rins”, conta Taciana Souza Martins, 47, mulher do dentista. Segundo ela, os exames  apontavam a ureia em 307. O normal para a idade dele é entre 16 e 40. “Correram com ele para a diálise. Foi o pior dia da minha vida. Achei que o perderia”, conta. 

Durante os dias que o dentista permaneceu no hospital, os médicos o trataram como um quadro de insuficiência renal. Mas, em janeiro, após o caso vir à tona na imprensa e com o dentista já em Belo Horizonte, onde segue o tratamento, começou a ser tratado como vítima suspeita de intoxicação por dietilenoglicol.  

“A gente desconfiou pois meus sintomas eram iguais aos dos pacientes noticiados: insuficiência renal, visão turva, quadros convulsivos, paralisia motora, e eu tinha bebido da Belorizontina três dias antes de aparecerem os sintomas”, explicou Ney. 

Ele conta que fez consumo da cerveja Belorizontina da marca Backer no dia 30 de novembro, na celebração da primeira eucaristia de um sobrinho, mas que jamais pensou na bebida como causadora do seu mal estar.  

“Eu bebi da cerveja. Minha esposa não estava bem e não bebeu. Meu sogro bebeu um copo, mas não gostou, ele gosta é de Subzero. A sorte deles”, lembra.  

“Quando eu passei mal, não tinha como desconfiar que era a cerveja que estaria me causando aquilo. Mal sabia que o meu momento de lazer estaria me matando”, diz emocionado. 

Hoje, no apartamento que tem no Buritis, ele não esconde a tristeza que sente por estar impossibilitado de fazer as coisas que gosta e, quando perguntado sobre o que mais sente falta, ele responde sem pensar: “Quero sentar na minha cadeira de dentista e voltar a trabalhar e depois pegar a minha moto e sair por aí viajando sem rumo”.

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