Os caminhos para que o Brasil abrace o bilinguismo


De Montes Claros, na região Norte de Minas Gerais, Roberta Maldonado desembarcou em Londres, na Inglaterra, em 1999, aos 19 anos. À época, na contramão de boa parte do planeta, mas como a esmagadora maioria dos brasileiros, ela mal pronunciava expressões básicas do inglês ou de qualquer outro idioma que não fosse o português. Entretanto, decidida a construir uma vida naquele lugar, a mineira, que se mudou para acompanhar o então noivo no Velho Mundo, decidiu transformar a própria realidade e dedicou-se com afinco ao aprendizado de novas línguas, buscando se inserir na cultura daquele povo – o que, para ela, era um desafio amenizado pela familiaridade com duas paixões: a música e o cinema. “Lá me casei e me separei, iniciei minha carreira, aprendi e ensinei”, resume ela, que chegou a dar aulas de inglês e de português para nativos e para pessoas vindas de outros países, sobretudo brasileiros ansiosos para, como ela, se instalar no país nórdico. 

Graduada em literatura espanhola e latino-americana e mestre em ensino de inglês pela Universidade de Londres, Roberta também viveu por quase uma década na Espanha. Em sua estada no país, se especializou no método de ensino Montessori, que é inspirado em pesquisas científicas e empíricas desenvolvidas pela médica e pedagoga italiana Maria Montessori e que tem ênfase na autonomia, na liberdade com limites e no respeito pelo desenvolvimento natural das habilidades físicas, sociais e psicológicas da criança. Em sua experiência na Europa, a estudiosa percebeu que a educação bilíngue tem se consolidado como uma meta em diversos países. “É uma tendência que já vinha se consagrando há anos. Eu realmente noto que, no exterior, escolas têm trazido essa proposta muito fortemente, estimulando, principalmente, o aprendizado do inglês, que se tornou uma língua franca, de forma que seus falantes passam a ter condições de circular por diversos lugares e meios. Algo fundamental em um mundo globalizado”, analisa.

Hoje – à luz de toda essa experiência e para muito além de usar a própria história como exemplo de que não existe idade para se aprender e dominar um novo idioma –, a professora de português, inglês e espanhol têm se dedicado a refletir sobre os desafios e pensar nos caminhos possíveis para que o Brasil finalmente abrace a cultura do bilinguismo. Admitindo que há uma longa jornada a ser percorrida nesse sentido, ela acredita que o simples debate sobre o assunto já funciona como um primeiro passo, ou pelo menos como um disparo para a largada inicial dessa maratona educacional e cultural que deveria ser nacional.

Poucos brasileiros se comunicam em um segundo idioma

“Em boa parte do mundo, conhecer pelo menos uma segunda língua é a regra. Nós somos a exceção”, lamenta Roberta Maldonado em uma análise certeira. Para se ter uma ideia, enquanto estimativas dão conta de que 43% da população mundial é bilíngue – ou por conhecer um dialeto tradicional, ou por aprender, na escola, um segundo idioma –, entre os brasileiros, esse índice é quase nove vezes menor: apenas 5% sabem se comunicar em inglês, sendo que apenas 1% é fluente, conforme estudo do instituto cultural British Council.

Esse déficit linguístico também pode ser observado nos levantamentos anuais da empresa especializada em ensino de idiomas Education First (EF). De acordo com a décima edição do Índice de Proficiência em Inglês da instituição, entre cem nações avaliadas, o Brasil aparece na 53ª posição. Entre os latinos, o país ocupa o décimo lugar entre os 19 territórios considerados.

Idiomas apagados. “Esse problema que enfrentamos hoje tem muito a ver com o processo de colonização português e com as políticas de supressão e desvalorização de idiomas nativos, que nunca chegaram a ser estimulados”, lamenta, citando que, dos milhares de vernáculos falados por povos originários, restam menos de duas centenas atualmente. “E a maioria delas possui hoje uma população pequena de falantes, de menos de mil pessoas”, insiste, citando que, em outras nações, a valorização de dialetos locais tem, entre outros efeitos, o poder de catapultar o interesse de seus povos por aprender novas línguas. É o que se percebe na história do argelino Ferhat, que, aos 27 anos, domina sete idiomas.

Mestre em comércio internacional com foco em economia humana e sustentável, Ferhat explica que, comumente, na Argélia, crianças costumam ser educadas em pelo menos três línguas. “O  país africano de onde venho era uma colônia francesa até o ano 1962. Desde a independência aconteceram muitas mudanças, culturais e econômicas. Hoje, oficialmente, falamos o árabe, que aprendemos nas escolas. Além disso, as pessoas falam o argelino, o nosso dialeto local, uma forma simplificada e moderna de árabe, resultado da influência dos anos de colonização”, expõe, acrescentando que, por essa mesma razão, boa parte dos argelinos fala também o francês. “O idioma continua muito presente no país hoje. E temos ainda o amazigh, que é o idioma indígena dos povos originários do norte da África”, pontua. 

Em um depoimento que traz ressonâncias das análises de Roberta, Ferhat não tem dúvida de que a valorização das linguagens tradicionais foram importantes para a formatação de sua identidade e de seu desejo de aprendizado. “Como, desde pequeno, eu estava aberto para outras culturas, viver novas experiências, em intercâmbios e viagens, era algo natural e quase lógico para mim”, sublinha, acrescentando que “falar várias línguas é uma prova de capacidade de integração, o que é crucial para o trabalho no contexto de um mundo globalizado”.

E, para além desse valor pragmático e competitivo em uma sociedade de mercado, o bilinguismo traz consigo uma mudança de perspectiva. “Dominar mais de um idioma significa ver o mundo com outros olhos, potencializando a capacidade do sujeito de entender outras perspectivas e visões do mundo”, argumenta, sustentando que este é um passo que pode reverberar em mais empatia, respeito e tolerância. “Além disso, aprender vários idiomas ajuda muito para adquirir outra competência: aprender a aprender. Conhecer os nossos processos próprios de aprendizagem é uma grande vantagem para uma melhor adaptação e integração em realidades novas ou desconhecidas”, garante.

Olhando para frente. Para reconduzir o Brasil rumo à valorização do multilinguismo, além de defender uma política de valorização de centenas de vernáculos nativos ainda vivos, Roberta defende maior investimento em treinamento de trabalhadores da educação. “Eles são os principais vetores desse aprendizado, deveriam estar muito melhor amparados. E não estou falando só da parte financeira. Precisamos investir no básico e treinar esses profissionais”, situa. Caso contrário, o que era para ser aprendizado pode se tornar uma barreira para o conhecimento. 

“Em minha experiência dando aulas, pude observar que traumas na infância constituem um obstáculo difícil de sobrepor. O que acontece é que esses alunos, quando decidem aprender outro idioma, trazem consigo as experiências ruins que tiveram na escola ou quando tentaram algum curso. Por isso, decidi que gostaria de ajudar professores a auxiliar melhor essas pessoas, para que o processo de aprendizado não se torne algo traumático e, portanto, contraproducente”, explica ela que é idealizadora do método de ensino de inglês para crianças que combina Montessori, disciplina positiva e TPR-Total Physical Response e se dedica principalmente ao treinamento de educadores.

Junto à falta de uma política cultural e educacional que fomente o aprendizado de novos idiomas, a dificuldade de acesso é outro gargalo que ajuda a compreender o déficit linguístico do país. “Aprender um idioma demanda investimento financeiro e de tempo. A pessoa precisa se dedicar a estudar, a assistir às aulas. Então, mesmo que a gente esteja falando de alguém que está no ensino superior – e estamos falando de uma minoria da população –, é mais comum que ela foque os estudos na universidade, e não se tornar bilíngue”, sublinha a psicóloga e consultora de carreira Janaína Fidelis. Ela lembra que, embora muitos cursos ainda custem caro, há hoje plataformas que requerem menor investimento. “Não podemos ignorar que o acesso se tornou mais facilitado nas últimas décadas. Evidentemente que talvez o indivíduo não alcance a fluência, mas, sem dúvida, essas alternativas já serão suficientes para gerar uma base e permitir que se dê um passo maior posteriormente”, comenta.

Vantagem profissional. Segundo apuração do site de classificados de emprego Catho, a diferença salarial entre profissionais com e sem domínio do inglês pode chegar a 70%, Janaína Fidelis observa como, cada vez mais, as empresas têm se mostrado com fronteiras abertas. “Recentemente, atendi uma pessoa que mora no Brasil e trabalha para uma instituição norte-americana, com sede nos Estados Unidos. Isso tem se tornado cada vez mais comum, sobretudo após a pandemia de Covid-19 ter estimulado a modalidade de home office”, sinaliza. 

Ainda da perspectiva profissional, a consultora assinala que tem sido mais comum o investimento em equipes multiculturais. Nesse caso, o domínio de um idioma mais universal torna-se um atributo básico.

Outros ganhos. A psicóloga reforça que estudar um novo idioma é um fator de proteção para o cérebro, e cita pesquisas indicando como pessoas bilíngues costumam apresentar sinais de demências, entre elas o Alzheimer, mais tardiamente. “Muitos estudos já demonstraram que há também ganhos cognitivos. Sabe-se que quem fala mais de uma língua desenvolve melhor habilidades de multitarefa, de memória, de observação e de tomada de decisões, mesmo em momentos mais delicados”, sinaliza.

E, à medida que vai se tornando mais capaz de se inserir em diversos meios e conseguindo se inteirar e participar de debates globais, para além dos ganhos culturais e sociais provenientes dessas interações, a pessoa bilíngue experimenta também ganhos em relação à autoestima.

Motivação é essencial. Muito se fala sobre uma possível janela ideal, que seria anterior aos 12 anos, para o aprendizado de novas línguas. “De fato, em relação à pronúncia, a articulação de certos fonemas, se a pessoa se habitua a ele desde pequena, fica mais fácil aprender”, avalia Roberta Maldonado. Contudo, ela lembra que, em geral, um adulto motivado tende a aprender mais rapidamente que uma criança, o que coloca essa tese em xeque.

No mesmo sentido, a educadora questiona a crença de que alguns indivíduos seriam mais predispostos ao aprendizado de um segundo idioma. “Se você aprendeu uma língua, então será plenamente capaz, falando em termos de cognição, de aprender outra”, destaca. “Vejo que a motivação é mesmo a grande chave. Quando dei aula de português para ingleses, aqueles que iriam se casar com alguém do Brasil aprendiam mais rápido. E os brasileiros que apenas queriam ter a habilidade no currículo não costumam alcançar os mesmos resultados daqueles que tinham objetivos mais apaixonados, como conhecer outro país”, cita.

Cinco dicas da educadora Roberta Maldonado para se aprender inglês:

  1. Estude cinco vezes por semana, por 25 minutinhos apenas e já notará progresso. Se ainda não está disposto a contratar um professor de inglês, comece praticando em casa com o site do British Council. Nele, você encontrará atividades de vocabulário, escuta e leitura de excelente qualidade para todos os níveis. Para saber seu nível, faça o teste disponibilizado gratuitamente na plataforma. Depois, decida o horário que vai estudar diariamente e vá escolhendo as atividades de acordo com o seu interesse.
  2. Busque conteúdos em inglês relacionados a assuntos que sejam interessantes para você, mesmo que seja iniciante. Aprender inglês precisa ser prazeroso ou você não persistirá para ver resultados. Se, por exemplo, você gosta de cozinhar, pode buscar vídeos de cozinheiros que ensinam, em inglês, a preparar pratos.
  3. A não ser que você seja professor de inglês, foque menos em aprender os nomes dos tempos verbais e mais em diálogos e textos significativos e contextualizados. Se gosta de apresentações e de vídeos ilustrados, mergulhe neste canal. Nele, você encontra profissionais e celebridades do mundo todo falando sobre uma infinidade de assuntos, além de vídeos explicativos super didáticos e bem produzidos.
  4. Você já entende, já fala um pouco, mas acha que não pronuncia bem as palavras? Gostaria de praticar os fonemas um a um? Sem problemas. Existem sites que possibilitam esse tipo de exercício, como o pronunciationstudio.com. Nesse canal, uma boa opção é baixar o ebook “The sounds of English”, que é gratuito.
  5. Entenda que aprender inglês (ou qualquer outro idioma) não acontece de um ano para o outro. Mesmo se você estiver imerso na língua (e isso inclui morar no país), prepare-se para se dedicar pelos próximos 5 anos a esse objetivo. A falsa ideia de que você estará se comunicando em poucos meses já frustrou muita gente (e vendeu muito curso de inglês milagroso). Comece hoje e, em cinco anos, você irá me agradecer

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