O Último Desejo – Por Wilson Albino Pereira – #temporadadetextos

Fonte: Pixabay
Wilson Albino Pereira

O exemplar do jornal O TEMPO, Ano 17 – Número 6458, edição que circulou na última quinta-feira, 21 de agosto de 2014, trazia um comunicado do Instituto Cryonics.  Todos os leitores estavam convidados a participar de uma cerimônia de ressurreição no Mineirinho às 19h no próximo domingo. É isso mesmo, uma RE-SSU-RREI-ÇÃO. A publicação apresentava detalhes de um milagre tecnológico.  A medicina traria à vida um homem falecido há anos, cujo corpo fora congelado numa cápsula de hidrogênio.

Não curto eventos. Finjo esquecer datas de festas, principalmente de aniversário. Entretanto, a fim de marcar presença na celebração daquele que seria ressuscitado, “me deixei” lembretes no celular e na porta da geladeira. Atos desnecessários, já que eu não pensava em outra coisa. A solenidade arrebanhou milhares de pessoas. Fato é, parte do grupo aglomerado na região nem sabia por que estava ali. O povaréu eufórico transformou o lugar numa ilha cercada de gente por todos os lados. Não tardou até que a multidão entoasse gritos de guerra. Mas, o “gigante” ainda estava tímido e meio ressacado moralmente, resquício do mil vezes desgraçado 7X1.

Quem se deliciou com o rebuliço foi a imprensa. Havia fontes o suficiente para inundar uns dois Arrudas. Durante as reportagens, centenas de indivíduos cutucavam o cara do microfone pra perguntar se o sorteio ainda ia demorar. Outros estavam só curtindo a recreação e a cerva gelada. Mas, havia gente politizada também, inclusive disposta a protestar contra quase tudo. 

Fora da cápsula, o finado aguardava tranquilo seu momento triunfal. Os médicos participavam de uma coletiva sobre a inovadora, magnífica e infalível técnica para levantar defuntos. Por meio de telões colossais transmitia-se a entrevista ao povão.  Aliás, ocupadíssimo por sinal, parece-me que gritar, depredar e escapar da polícia sem sofrer fraturas deve ser custoso de mais. Antes que algum semideus trajando jaleco branco trovejasse a célebre frase – EU TE MANDO: LEVANTA-TE! Uma vez “desencapsulado”, o “morto/vivo” pôs-se de pé por conta e risco.

Atordoado meio ao caos sonoro, quase se afogou em um oceano de ruídos e vociferações. Em qualquer direção que olhasse, o palavrório resvalava-o, comprimia-o, perpassava-lhe o cerne. Custou a compreender o que ocorria. Só conseguiu situar-se no tempo e no espaço ao perceber que era sua, a trajetória exibida no telão. Sua história embasava os procedimentos utilizados para ressuscitar.  Com a cabeça entre as mãos, o ressuscitado invadiu o local onde o conselho médico estava reunido, puxou com veemência o alvíssimo colarinho do doutor que falava naquele instante e suplicou-lhe –  Aqui…  dá pra me congelá de novo, por favô?!

É importante ressaltar que doar o próprio corpo para a medicina descobrir como se faz a ressurreição era projeto do morto… do vivo… agora morto outra vez.  Vi que o tal de Goethe sempre teve razão: “O coração do homem é [mesmo] um mistério indecifrável.”


*Wilson Albino Pereira – Jornalista & Fotógrafo  –  MTE 0021095/MG