O rosto ideal – Por Leonardo Vieira Rodrigues #temporadadetextos

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   O rosto é uma parte fundamental do corpo, e está associada à cabeça limitada pelos cabelos, nele têm-se os olhos, a boca, o nariz, bochechas. O semblante é parte essencial  do rosto, pois, através dele temos as expressões que são tipicamente humanas. Essa descrição é só uma introdução, para o tema a ser tratado o conceito de rostidade, e da assimilação do rosto ideal. Gilles Deleuze no Mil Platôs 3 no texto intitulado  Ano Zero—Rostidade (2012), ao tratar do assunto dimensiona o rosto de Jesus Cristo como um ideal. A imagem de um cristo europeu de um italiano de olhos verdes, tez branca misturada com as marcas de sofrimento para endossar os princípios do cristianismo, seria um sinal de algo a ser conquistado e perseguido. Já em aspecto contrário, o Jesus histórico não vestiria uma túnica romana, e nem teria a aparência de um homem branco, visto que estaria mais próximo da imagem de um nômade do deserto do Oriente médio. Será nessa linha de perspectiva que iremos tratar do assunto, a semântica da rostidade, o ideal de rosto e uma imposição de modelo étnico de beleza, e de ser no mundo que será instrumentalizado pelo capitalismo.

   Os valores morais considerados tradicionais são frutos dos princípios advindos de instituições religiosas (no caso do Brasil, as religiões cristãs) e o regime régio do poder no caso, o capitalismo. Esses princípios circulam através de discursos que se justificam viabilizados pelo conceito de bem e mal, em que o bem seria a crença denominada como certa, já o mal é representado como coisas nebulosas e animalescas. O bem sempre associada e condicionado pela racionalidade, já o mal pela corporeidade. Esses valores são criticados por Nietzsche no livro A genealogia da moral (1987), para ele ambos são parte de um todo, e que vivem em tensão no humano, e, não são como algo distinto e separado. Junto ao discurso, temos as imagens que agenciavam subjetividades com o reforço de certos rostos como essencial e ideal de imagem perfeita de ser humano.

   Essas imagens ditas ‘perfeitas’ idealizadas reforçam certas belezas de algumas etnias, e valores em detrimentos de outras. Isso pode ser exemplificado, na construção do retrato de Jesus europeu de olhos azuis, e com a fisionomia que não corresponde com a imagem do cristo (histórico) de terras desérticas das tribos judaicas. Outra rostidade emblemática explorada e construída para ser o ideal da mulher, e da atriz, Marilyn Monroe, pois, todos os signos ideais que se esperam do ser feminino estão na representação imagética dela, ou seja, uma loira sensual, que fala em voz baixa, de olhar submisso, e com a doçura esperada e idealizada do ser feminino. Jesus e Marilyn,  são personagens icônicos da ideologia capitalista imperialista, eles são modelos de perfeição dos nossos tempos. Eles representam os signos que remetem a tradição, e ao conservadorismo. Pois, ambos são brancos, tonalidade que representa a paz e claridade das coisas via o êxito da razão, já a sua oposição a negra retrata a obscuridade e a emoção. A imagem consegue condicionar as pessoas para certas emoções e impressões. Além disso, as imagens reforçam as ideias institucionais como algo certo e ‘natural’. Aparentemente são coisas inofensivas, no entanto, as imagens impõem certas formas de lidarmos com os afetos humanos. De forma assertiva, essas imagens icônicas (no caso, Jesus e Marilyn), capturam, direcionam e afirmam os valores do capitalismo e do cristianismo como certa e incorruptível. Junto a isso, a ideia de insatisfação irá dimensionar o conceito de rostidade. Por qual motivo? Entendo que a insatisfação alimenta o consumismo desenfreado das pessoas no mundo atual. É por meio da não completa satisfação, as pessoas buscam se adequarem ao ideal de rosto, para exemplo disso podemos citar as indústrias das cirurgias plásticas que vendem uma felicidade via afinamento de nariz, ou via preenchimento labial. Outro exemplo são os Kens humanos que tentam transformar seus corpos em termos reais ao ideal de beleza americana.

    A insatisfação mantém as pessoas crentes as promessas ideológicas do capitalismo de alcançar a felicidade e a liberdade. Pela insatisfação o capitalismo é o eterno vir-á-ser, ou seja, ele é uma coisa em termos materiais e opostas, mas, com a promessa de ser outra. O capitalismo é a utopia da promessa que se tenta realiza diariamente. A insatisfação é o mecanismo que gera a busca por transformações no corpo que não está nos padrões de beleza vendidos em propagandas de grandes empresas. Aliás, o Brasil é um dos países que mais se praticam cirurgias plásticas, e as indústrias de cosméticos faturam muito com a tentativa de aproximar daquilo que se chama beleza (padrão). Cirurgias como de afinamento de nariz, e aumento dos seios via silicone fazem parte do processo de contenção do descontentamento com o corpo.

    A rostidade impõe valores, através de imagens ativam-se a nossa terna vontade de se padronizar de ser aquilo que a sua forma  biologia não corresponde. Para ficar mais literal a explicação sobre os dois conceitos aqui proposto, podemos dizer que em termos das relações políticas no mundo atual temos poderosos que financiam a campanha política de candidatos, e quando estes ganham acabam realizando as propostas dos seus financiadores. Em outras palavras os poderosos que financiaram a campanha política são a rostidade (que não aparece) e o político eleito e o rosto que  efetua nas suas atividades políticas as pretensões dos banqueiros, ou ricos que “doam” dinheiro as campanhas políticas.O mesmo pode-se apontar para as chamadas campanhas de propagandas de produtos em que a imagem de ator incentiva a venda de um produto de uma empresa, nessa lógica o ator é o rosto  que faz a rostificação dos valores da    empresa. Portanto, essa relação nos dois casos para interlocutor é confundida, ou escondida. Como superar as rostidades de poderes institucionais? Não sei dizer, mais, podemos começar a questionar pelo menos. 

Referência bibliográfica:

DELEUZE, Gilles. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 3. São Paulo: Editora 34, 2019

NIETZSCHE, Fredrich. Genealogia da moral: um escrito polêmico. São Paulo: Editora brasiliense, 1987.

Canal do Youtube: O algoritmo a imagem.


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