O NOVO LEVIATÃ – Por Rodrigo Starling – #temporadadetextos

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Rodrigo Starling

“Os homens têm de cumprir os pactos que celebrarem(…)”, estamos nós: eu, você e todos os leitores do Portal Nova Contagem, cientes dos acordos tácitos que temos celebrado? Ou nunca paramos para pensar, refletir, aprofundar e realmente estabelecer os termos de nosso CONTRATO VIRTUAL, por uma relação saudável entre cada indivíduo e a tecnologia.

Aqui, como na frase de abertura, invocamos Thomas Hobbes (1588-1679), autor do clássico O Leviatã (1651). Nesta, que é sua obra máxima, Hobbes afirma que a condição dos homens em estado de natureza é a da “guerra de todos contra todos”. É neste contexto que usa a expressão latina homo homini lupus – “o homem é o lobo do homem” – onde cada qual tende a se apropriar de tudo o que necessita para a própria sobrevivência e conservação.

De fato, no estado na natureza, o homem acaba “ficando a cada instante exposto ao perigo de morte violenta”, por isso, conduzido pelo medo, justifica a criação de um estado artificial e absoluto, capaz de legislar em prol de uma vida mais segura. De forma resumida, sua teoria engloba três pontos, sem os quais não pode se constituir uma sociedade. 1º – que o homem se esforce por buscar a paz; 2º – que renuncie o direito sobre todas as coisas (típico do estado de natureza); 3º e último: que se cumpram os acordos. E o filósofo recorre ao evangelho: “tudo aquilo que exiges que os outros te façam, faze-o a eles”.

Grosso modo, este é o estado artificial proposto Hobbes, um forte e poderoso Leviatã, empréstimo da figura contida no Livro de Jó (40-41): “… Quando se ergue, as ondas temem e as vagas do mar se afastam… Na terra, ninguém se iguala a ele, pois foi feito para não ter medo. Afronta os mais altivos, é o rei das feras soberbas”. Imaginemos o BIG DATA como o NOVO LEVIATÃ, um novo Estado das coisas, monstro de dados, extraidos de cada individualidade, quase sempre sem o nosso consentimento. Não podemos simplesmente nos submeter ou, por ignorância, nos omitir em discutir sobre aquilo que interfere diretamente em nossas vidas.

Oferto três autores de referência, vivos e contemporâneos, com exemplos concretos do que se trata:

O primeiro, Evgeny Morozov (1984- ) escritor bielorrusso, estudioso do progresso tecnológico e digital e suas implicações, políticas e sociais. Dentre os pontos de seus estudos e críticas, destacamos: 1º – que ideia de aldeia global nunca se materializou, mas, pelo contrário, abriu mercados para empresas de tecnologia e de serviços de inteligência. 2º – denuncia o que chama de “falso empoderamento dos usuários”, por estes não estarem em pé de igualdade com as corporações. Estas, denuncia, exercem poder sobre os indivíduos, já que permitem o controle e compartilhamento do histórico de interações dos usuários, obtendo lucro com estes dados e propagandas. 3º – aborda a recorrente questão das fake news, alertando sobre a ameça que trazem a já fragilizada economia. Nossa indicação é seu livro de estreia “The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom”, de 2011.

O segundo, é o jovem Cientista de Dados, Seth Stephens-Davidowitz (1982- ), ex-funcionário do Google, colaborador do New York Times, que faz contrapontos positivos. Segundo ele o Big Data oferece quatro grandes vantagens: 1ª – o acesso a novos tipos de dados; 2ª – a percepação, pela análise dos dados, que as pessoas costumam mentir para si mesmas, vivendo num mundo de auto-ilusão. 3ª – o poder de refinamento das pesquisas, que podem focar em subgrupos. Isto só é possivel pelo tamanho gigantesco das amostras e, finalmente, a 4ª – permitir realizar experiências. Tendência que se iniciou e desenvolveu a partir do ano 2000, pelos próprios funcionários do Google. De Davidowitz, indicamos o livro: “Everybody Lies: Big Data, New Data, and What : The Internet Can Tell Us About Who We Really Are”, de 2019.

O último exemplo/referência é Shoshana Zuboff (1951 – ), professora aposentada da Harvard Business School, Ph.D. em psicologia social da Universidade de Harvard e bacharel em filosofia pela Universidade de Chicago. Zuboff traz a tona a questão do Capitalismo de Vigilância, Argumenta que a indústria digital prospera graças a um princípio quase infantil “extrair dados pessoais e vender aos anunciantes previsões sobre o comportamento dos usuários.” Porém, para lucros cada vez maiores, os prognósticos devem ser cada vez mais certeiros. Incluindo mesmo, a interferência nos padroes de comportamento humano. Como exemplo, cita o lúdico e despretencioso jogo de Realidade Aumentada Pokemon, franquia de mídia da Nintendo, criada em 1995 . Eis um trecho de sombrio relato da pesquisadora, publicado em artigo do Le Monde Diplomatique:

“Ao abrir a porta, viu-se diante de dois adolescentes sacudindo seus aparelhos de celular bem na sua cara.

“– Oi! Você tem um Pokémon no jardim. Ele é nosso! Podemos ir pegar?

– Um o quê?”

Naquela noite, David foi perturbado mais quatro vezes por estranhos ansiosos para irem ao seu jardim e furiosos por serem dispensados. Com o celular na mão, gritavam e vasculhavam a casa com os olhos, em busca das famosas criaturas de “realidade aumentada”. Vista através de suas telas, aquela fatia do mundo era um campo de Pokémons. O jogo apropriou-se da casa e do mundo ao redor dela. Trata-se de uma nova pretensão comercial: uma declaração de expropriação com fins lucrativos que transforma a realidade em uma extensão de espaços vazios prontos para serem explorados em benefício de outros.”

De Shoshana Zuboff indicamos o livro “The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power”, de 2020.

Dados lançados! Que cada leitor reflita e responda: conspiração ou realidade VirtuReal?


*Rodrigo Starling é Filósofo, Escritor e Poeta, natural de Belo Horizonte/MG. Pós em Gestão de Políticas Sociais (PUC Minas) e Mestre em Ciências Políticas (ULHT Lisboa). Autor de 12 livros, figura em coletâneas do Brasil e exterior (EUA, Equador, Itália, Japão e Uruguai). Em 2004, fundou a Oficina de Produção Artística — OPA, hoje, MINAS VOLUNTÁRIOS, ao qual preside. Em 2011, criou o Selo Editorial Starling, responsável pelas antologias Cem Poemas, Cem Mil Sonhos e Provérbios da Lama. Laureado: Menção Nosside XXIV — UNESCO World Poetry Directory; Medalha Resgate da Cidadania (2008) e Medalha Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais — INBRASCI (2012). Em 2013, nomeado Embaixador pelo Cercle Universel des Ambassadeurs de La Paix — CUAP, de Genebra/Suíça e Orange/França. Em 2015/16, atuou como moderador (Rio Dialogues) e consultor (UNV), ambos junto à Organização das Nações Unidas — ONU. Cofundador do Instituto Ekopolis, sediado em Contagem/MG.


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