O holocausto brasileiro


Quero falar sobre uma história real. Aconteceu no Brasil, em Minas Gerais, mais precisamente em Barbacena. Aquela do personagem de Chico Anísio, que nos fazia rir: “Quando eu era criança pequena lá em Barbacena”… Lá mesmo, uma cidade, apesar de não tão pequena, aparentemente pacata, aconteceu um evento que mancha a nossa história, e que ficou conhecido como “O holocausto brasileiro”.

Este é o Brasil que muitos não conhecem ou fecham os olhos. Passam longe as distopias da literatura que tratam da venda de corpos, mentes, órgãos, pessoas… A realidade, às vezes, é bem mais cruel.

Quem teve notícia, além dos gaúchos, do relato das experiências do casal da Porto Alegre do século XIX, que residia à rua do Arvoredo, hoje, rua Fernando Machado, que até o biólogo Charles Darwin classificou como o maior crime da terra? Um homem, chamado José Ramos, havia comprado uma casa, onde funcionava um antigo açougue, respondeu por crimes de assassinato, quando, juntamente com sua esposa, uma mulher húngara, muito bonita, que tinha o papel de atrair as vítimas para a casa-açougue, esquartejava os corpos e, após, usava a carne para a fabricação de linguiça.

Embora não haja provas de que os corpos realmente viravam linguiça, os crimes de fato aconteceram. E, o que ficou conhecido como o “holocausto brasileiro” refere-se a um hospital psiquiátrico, o maior do Brasil, fundado em 1903, conhecido como “Colônia”, e só desativado 80 anos depois, onde pessoas com ou sem transtornos mentais eram internadas. Muitas delas, talvez a maioria, simplesmente por vagarem nas ruas, por serem pobres, quase sempre, negras, por serem usuárias de drogas, mulheres para esconder uma gravidez ou abandonadas por seus maridos, e ainda, crianças. Jogadas num verdadeiro depósito, sem alimentação adequada nem suficiente, sem cama, maltratadas, vítimas das maiores atrocidades possíveis, sem voz, sem documento, largadas ao esquecimento, abandonadas, nem dá para dizer, à própria sorte, porque isso não é sorte, tampouco se pode falar em castigo. Por que, afinal, o que elas fizeram para serem de tal forma desconsideradas em sua humanidade?

Para aumentar ainda mais a barbárie, a partir dos anos 1960, os corpos passaram a ser vendidos a faculdades de medicina do Brasil. Penso em pessoas conhecidas, com alguma deficiência que, se tivessem tido a má-sorte de nascer em Barbacena ou em Minas, ou mesmo em alguma parte do Brasil, porque os “trens de doidos” de Guimarães Rosa vinham de outros locais do Brasil, poderiam estar lá. Poderiam ter morrido lá, “simplesmente”, o que é até irônico dizer, por não se enquadrarem em um padrão social ou estético.

Segundo dados coletados, ao todo, foram 60 mil mortes! Precisamos conhecer a nossa história para termos a consciência do quão cruéis podemos ser. Falamos dos campos de concentração da Alemanha nazista, mas desconhecemos ou fingimos não saber, o nosso passado de horror, que inclui escravidão e ditadura militar, e mais esse fato!

Longe de mim defender os crimes do holocausto, porém, o Brasil sabe também ser cruel. E, mais triste e lamentável ainda, é que isso é feito com seu próprio povo. Nos choca tão profundamente um fato ocorrido em outro continente. Todavia, justamente, por ter acontecido lá fora, parece não nos atingir. Mas, e o que acontece em nosso próprio quintal, não nos toca?

Fonte do link

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

1 × 3 =