O CONCEITO DE DIFERENÇA NO CONTO OS DRAGÕES DE MURILO RUBIÃO – Por Leonardo Vieira Rodrigues – #temporadadetextos

Fonte: Internet
O Filósofo Leonardo Vieira Rodrigues

O presente texto fará uma breve analise do conto Os dragões, de Murilo Rubião, e para examinar o texto serão usados os conceitos de diferença (Deleuze) .O texto de Rubião descreve a situação de dragões que vivem em uma cidade, e que despertaram reações diversas nos moradores, como a hospitalidade e o estranhamento. Discutimos a relação entre os moradores da cidade e os dragões, por meio do conceito de ‘diferença’. Junto a isso, tratamos a noção de ‘diferença’ para compreender as ações dos dragões frente à decadência moral que permeia as relações da cidade apresentada no conto.

Ao modo do ‘realismo fantástico’[1] Rubião fala sobre o convívio, aparentemente natural, entre dragões e seres humanos. No conto temos a descrição de dragões que são estranhos aos modos morais da cidade. Nesse sentido, são conduzidos por inúmeras tentativas de domesticação, passando por coações e medidas coercitivas. A relação conflituosa guarda a ironia de Rubião em relação à moral.

No começo do conto, temos a seguinte passagem: “Os primeiros dragões que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso dos nossos costumes.” (RUBIÃO, 1990, p. 37). Essa perspectiva continua quando o narrador relata que os precários ensinamentos possivelmente deixarão comprometida a formação moral dos dragões. Percebe-se aí, uma crítica à moral estabelecida, principalmente sobre como a cultura da cidade está atrasada para formação dos dragões. Isso indica que animais ou seres diferentes dos humanos são mais evoluídos, no quesito de não depender de próteses da técnica, como o faz os seres humanos, no uso de roupas para se protegerem do frio ou do calor, do uso de ferramentas e armas para a sua sobrevivência, e de outros utensílios técnicos que facilitem  a vida  dos seres humanos. Já os animais vivem do instinto natural e criam os seus modos de sobreviverem às adversidades da natureza, coisa que os homens não fazem. Nesse aspecto, os animais que vivem do instinto e da sua adaptação ao meio, são mais independentes e evoluídos.

Pensando a organização do texto, compreende-se que primeiramente iremos descrever o léxico do termo dragão, depois brevemente será analisado. Depois faremos uma análise filosófica sobre a coerção moral e ‘diferença’, presente no conto.

Como podemos entender a presença dos dragões no texto de Rubião? Como uma metonímia para justificar suas críticas aos valores morais de sua época? Ou simplesmente como seres estranhos ao modo de vida dos habitantes da cidade do conto, cujo intuito é provocar uma reflexão sobre a diferença?

Podemos começar por entender as denominações que recaem sobre a figura mitológica dos dragões, ao longo da História. Os dragões são figuras mitológicas, presentes em inúmeras tradições, geralmente descritos como animais grandes na forma de réptil, algumas com asas a flamejar fogo pela boca e ventas. No dicionário de léxico, temos a descrição do verbete ‘dragão’ como um “Monstro imaginário geralmente representando como uma espécie de serpente recoberta de escamas, como asas de morcego, garras de leão, cauda comprida e boca que expele fogo […]” (AULETE, 2011, p. 517). Encontram-se ainda outras referências sobre esse ser mitológico, por exemplo, por ser um pequeno réptil, da ordem dos sáurios, que tem membranas que possibilita planar. E além disso, têm-se nele a  representação do mal,  ou do  demônio em outras culturas.

As lendas celtas e germânicas são fontes famosas de relatos sobre esses seres. Mas, além dessas, eles também estão presentes em lendas da China, Mesopotâmia, entre os Persas, e na Bíblia, no Antigo Testamento, nos livros do Êxodo, Ezequiel e Jó, que aliás, é muito citado como epigrafe nos textos de Murilo Rubião. Nos livros  presentes  na Bíblia, os dragões geralmente representam a desordem, confusão despertada por um ser que causava medo naqueles que se aproximavam. Eles podem ser compreendidos como o ressoador do conceito de caos, que pode gerar uma crise (no sentido de mudança, transformação). Em resumo, os dragões são os seres que trazem o caos nas cidades da Europa,  e no Oriente Médio na antiguidade. Talvez o sentido mais apropriado da representação, ou do extrato do significado por trás da ideia de dragões no texto de Rubião, se encontra na simbologia que imagem de dragão sugere, sobretudo na ideia de transformação. Porém, tudo aquilo que eles representavam é cerceado ou adaptado.

O conto, do começo ao fim, trata os dragões como seres a serem domesticados, moldados ao modo que o ser humano entenda como ‘certo’; resumindo, conforme o padrão moral. A ideia da ‘diferença’ sempre foi solapada pela moral predominante. A moral e a racionalidade sempre tentaram homogeneizar ou eliminar as diferenças entre humanos. Podemos entender que tudo que é estranho, geralmente será excluída. Uma das instituições que sempre exerceu o discurso moral foi o cristianismo, e que, por meio dos seus dogmas, exerce forte influência no comportamento das pessoas. No conto temos a presença do cristianismo:

A controvérsia inicial foi desencadeada  pelo vigário. Convencido de que eles, apesar da aparência dócil e meiga, não passavam de enviados do demônio, não me permitiu educa-los. Ordenou que fossem encerrados numa casa velha, previamente exorcismada, onde ninguém poderia penetrar. Ao se arrepender de seu erro, a polêmica já se alastrava e o velho gramático negava-lhe a qualidade de dragões. (RUBIÃO, 1990, pag.37)

O vigário é uma autoridade moral em qualquer cidade, sobretudo nos interiores das Minas Gerais. O padre em questão entende que, apesar da aparência dócil, os dragões eram enviados do demônio. Nesse quesito o vigário está exercendo o discurso de poder que lhe cabe no seu território, e junto a isso, exercer o papel de reprimir os dóceis dragões. Observa-se que o conceito de diferença na passagem citada é presente. Já que a instituição, no caso, a igreja atua com prática impor seus dogmas, e controlar os dragões pelo fato deles terem a imagem associado, ao que o vigário entende por  demônio.

O conceito de diferença não está somente presente na passagem citada como em toda narrativa do texto, pois a  presença de seres mitológicos numa cidade gera uma série reações em seus habitantes. Ao longo da narrativa, Rubião descreve situações em que os dragões recebem uma hospitalidade dos moradores da cidade, mas, recebiam reações de hostilidade e a tentativa de apagar a singularidade desse seres, e adestração aos valores que instituições da cidade entende com certo, sobretudo a igreja católica. Em certo momento do conto, temos um exemplo do cerceamento moral proposto pelo pároco do local: “Desejando encerrar a discussão, que se avolumava sem alcançar objetivos práticos, o padre firmou uma tese: os dragões receberiam nomes na pia batismal e seriam alfabetizados” (RUBIÃO, 1990, pag. 48). Essa reação é um tipo de ação que tem por objetivo  apagar o estranhamento que o modo dos dragões possa vir a provocar nos moradores. Dentro do processo narrativo percebe-se uma ironia, o texto mostra como, processualmente, os dragões vão se tornando cada vez mais próximo dos humanos, no comportamento, na medida em que são cerceados:

Quando, subtraídos ao abandono em que se encontravam, me foram entregues para serem educados, compreendi a extensão da minha responsabilidade. Na maioria, tinham contraído moléstias  desconhecidas e, em consequência, diversos vieram a falecer. Dois sobreviveram, infelizmente os mais corrompidos. Mais bem-dotados em astúcias que os irmãos, fugiam, à noite do casarão e iam se embriagar no botequim. (RUBIÃO, 2010, pag.48).

Na passagem acima temos a demonstração de degradação dos dragões pelo fato deles adquirirem, em seu processo de civilidade, hábitos humanos, condição que os tornam domesticados, animais de rebanho que reproduzem os valores degradados da cidade em que vivem. As moléstias, o alcoolismo, o burlar as regras impostas a eles, são alguns dos sinais da falta de adequação dos dragões ao esperado padrão moral, talvez por serem nômades, com isso  fogem ao modelo que tentaram impor a eles. As conseqüências do que processo de adequação ou docilidade dos modos, é possível perceber descrições de fatores que levaram os dragões a serem enquadrados, ao forçar imprimirem nos dragões a identidade que aproxima daquilo que os moradores acreditam ser o certo. Leon Kossovitch (1979), em um ensaio filosófico sobre Nietzsche, diz sobre identidade e diferença: “A identidade é a diferença degradada: é a pulsão que se torna reflexiva. A superfície é da ordem da consciência. Incapaz de se desenvolver no selvagem, e mesmo no senhor, ela aparece como universal dependência.” (KOSSOVITCH, 1979, p. 51). Os dragões, ao serem civilizados, no processo de aceitabilidade da cidade vão se degradando, e perdem aquilo que os tornam seres diferentes.

 Em todos os momentos do conto percebe-se que a ideia central da narrativa era anular a diferença, no conto a ideia de anulação aparece quando do olhar vigilante das ações dos seres estranhos que soltam fogos pelas ventas, ou mesmo pela imposição da formação pedagógica a fim de integrar os dragões nos padrões da cidade. Isso é descrito assim: “Como jamais tivesse ensinado dragões, consumia a maior parte do tempo indagando pelo passado deles, família e método pedagógicos seguidos em sua terra natal. Reduzido material acolhidos dos sucessivos interrogatórios […]” (RUBIÃO, 2010, p. 48). O procedimento pedagógico para educar os dragões, não somente a intenção de padronizá-los aos modos da cidade, mas sim, controlá-los através de interrogatórios, para exercer poder e domínio sobre eles.

O uso do interrogatório pode ser compreendido como um procedimento de controle da diferença ou caminho para modelar a ‘diferença’ a certo padrão. Deleuze, em Diferença e repetição (2009), apresenta uma explicação para o termo, dessa forma: “A partir de uma primeira impressão (a diferença é o mal), propõe-se “salvar” a diferença, representando-a e, para representá-la, relacioná-la às exigências do conceito em geral.” (DELEUZE, 2009, p. 38). O conceito de ‘diferença’ proposto por Deleuze só é possível por via do devir, ou o vir-a-ser, ao modo de Heráclito, em que toda e qualquer multiplicidade do ‘ser’, ou seja, a vida e os indivíduos são plurais, ou uma constante modificação de si e das coisas. A ‘diferença’ é algo fora que  não se conforma com o dualismo do mundo das ideias de Platão, ela é o ‘mal’, um corpo nômade para o esquema racional em que a identidade e a essência são colocadas como verdade.

O conto Os Dragões revela muita sobre os preconceitos dos humanos e sobre a violência com as minorias que podem ser chamados o povo menor, em que se enquadram os negros diante do racismo, os judeus quando perseguidos pelos nazistas e fascistas, os indígenas na América latina.

Referência bibliográfica:

AULETE, Caldas. Minidicionário contemporâneo da língua portuguesa. 3ª Ed.Rio de Janeiro: Lexikon, 2011.

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. São Paulo: Editora Graal, 2009.

KOSSOVITCH, Leon. Signos e poderes em Nietzsche. São Paulo: Ática, 1979.

RUBIÃO, Murilo. Obras Completas. São Paulo: Companhia das letras, 2010.

RUBIÃO, Murilo. Murilo Rubião: literatura comentada. São Paulo: Abril educação, 1982.

[1] Realismo fantástico: escola literária do século XX, produção tipicamente da América Latina e Brasil, em que fantástico mistura-se ao verossímil.

Leonardo Vieira Rodrigues é Professor de Filosofia e História. Atualmente leciona em Guarulhos-SP para estudantes do Ensino Médio e  Ensino Fundamental. É também pesquisador da Filosofia em temas como estética e política. É mestre em Estudos de Linguagem pelo CEFET-MG. No Facebook: leonardo.vieirarodrigues1

Como podemos entender a presença dos dragões