O CIBERPRÍNCIPE – Por Rodrigo Starling – #temporadadetextos

Fonte: Pixabay
Rodrigo Starling

Aqui, além dos Leitores do Portal Nova Contagem, dirijo-me a Inteligência Artificial, aos sacerdotes da matéria, aos operadores do Big Data, seus Demiurgos e seguidores.

Nosso objetivo é um só, vencê-los com as próprias armas de dominação: simulacros e simulações, realidade virtual e aumentada.

Ciente estamos: trata-se de uma reedição contemporânea de Davi e Golias, mas a mira será calibrada, de modo a derrubar o gigante cyborgue.

A investida é nova, mas a estratégia antiga. Amparo-me em um velho conhecido, preterido por muitos, Nicolau Maquiavel (1469 – 1527). Se o faço, não é sem razão. Aquele cujo pensamento sobrevive e permanece atual (por mais de cinco séculos), merece nosso respeito.

Falo do Realismo Político, legado do Renascimento Italiano. Claro, Maquiavel não foi o único, contudo, o mais estratégico e corajoso – atributo de que agora preciso – ao propor uma nova sentença. Ideia tão nova e lapidar que, mesmo tendo Rousseau e Platão como interlocutores iniciais, ouso trocá-los de última hora…

Esta leitura, creio, nem o mais refinado algoritmo poderia imaginar. Pegando de surpresa, aquele que coleciona e amplifica padrões, vou na contramão:

“(…) Julguei mais conveniente ir atrás da verdade efetiva do que das suas aparências, como fizeram muitos, imaginando repúblicas e principados que nunca se viram nem existiram”. Critica direta a Platão e sua predileção pelo Mundo das Ideias. Mas a proposta vai além, o que Maquiavel opera, não tem por foco o grande filósofo, mas sim, o lugar de onde fala. Por isso, o pensamento é atual, adaptável, inclusive frente a precessão dos simulacros. Prossegue o secretário florentino: “Entre o como se vive e o como se deveria viver, há tamanha diferença que, aquele que despreza o que se faz pelo que se deveria fazer, aprende antes a trabalhar em prol da sua ruína do que da sua conservação”.

Aqui “embaixo”, no Mundo Sensível, de fato vivemos uma época onde a realidade é feita de simulacros – representações imperfeitas – e suas escórias. Um tempo onde o real é uma cópia da cópia, ambas mal feitas. Qual então a nossa estratégia para “sair” da caverna? A celebração de um CONTRATO VIRTUAL, sem mediadores, apenas entre nós e a alta tecnologia, tomada de consciência sobre nossa condição VirtuReal.

Do autor de O Príncipe, pegaremos empresado os conceitos de Virtú e Fortuna, para, logo após, criar o próprio simulacro, manual prático para o CIBERPRÍNCIPE, governando a si mesmo. Atitude perfeitamente possível e até louvável.

Num mundo repleto de cópias das cópias, que sejamos ao menos capazes de criar o próprio modelo (nosso CONTRATO VIRTUAL), que pode, na estatura de cada consciência, representar a verdadeira saída da caverna. Tomar para si a função de Demiurgo, em Platão “Artesão divino que, sem criar de fato a realidade, modela e organiza a matéria caótica e preexistente (…)”.

(Uma visão memorável: Platão, Rousseau e Maquiavel, juntos, neste Banquete de Dados, neste diálogo sobre a matéria caótica e preexistente, manual para O CIBERPRÍNCIPE… Ética e estética do absurdo, o próprio VirtuReal).

Vejamos os conceitos originais, conforme pensados por Maquiavel. Fortuna: adversidades, sorte, acaso, influência das circunstâncias. Virtu: coragem, valor, capacidade e eficácia política frente a estas adversidades.

Nosso simulacro, Virtu: individualmente, tomar consciência, saber lidar com a alta tecnologia, utilizando-a a nosso favor, não o contrário. Fortuna, que passaremos a chamar de Real: avanço das tecnologias, algoritmos, inteligência artificial, realidades virtuais e aumentadas que, de fato, interferem direta ou indiretamente em nossas vidas.

Eis o objeto e proposta de nosso CONTRATO VIRTUAL: que cada cidadão/usuário, a partir da tomada de consciência individual (Virtu), seja capaz de sobreviver e usufruir da alta tecnologia (Fortuna/Real).

Mais pode a “Virtu” que o “Real”, VirtuReal, eis a condição humana, híbrida, num universo que vai do Big Bang ao Big Data, dos átomos aos bites, e além…


*Rodrigo Starling é Filósofo, Escritor e Poeta, natural de Belo Horizonte/MG. Pós em Gestão de Políticas Sociais (PUC Minas) e Mestre em Ciências Políticas (ULHT Lisboa). Autor de 12 livros, figura em coletâneas do Brasil e exterior (EUA, Equador, Itália, Japão e Uruguai). Em 2004, fundou a Oficina de Produção Artística — OPA, hoje, MINAS VOLUNTÁRIOS, ao qual preside. Em 2011, criou o Selo Editorial Starling, responsável pelas antologias Cem Poemas, Cem Mil Sonhos e Provérbios da Lama. Laureado: Menção Nosside XXIV — UNESCO World Poetry Directory; Medalha Resgate da Cidadania (2008) e Medalha Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais — INBRASCI (2012). Em 2013, nomeado Embaixador pelo Cercle Universel des Ambassadeurs de La Paix — CUAP, de Genebra/Suíça e Orange/França. Em 2015/16, atuou como moderador (Rio Dialogues) e consultor (UNV), ambos junto à Organização das Nações Unidas — ONU. Cofundador do Instituto Ekopolis, sediado em Contagem/MG.


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