Não somos o centro do mundo e Nietzsche: um polêmico – Por Leonardo Vieira Rodrigues – #temporadadetextos

O filósofo alemão Franz Nietzsche

      A crença de que os humanos são mais importantes que os outros seres que vivem no mundo, têm considerável contribuição para parte dos nossos problemas. A falta de entendimento sobre a nossa finitude diante da natureza coloca responsabilidade para além do que se pode carregar nas costas das pessoas. Essa concepção está vinculada com a ideia de que somos a imagem e semelhança de um criador. Algo que traz um peso e responsabilidade sobre cada indivíduo em relação às coisas do mundo, e de outra perspectiva cria-se a fantasia de sermos mais importantes, do que somos em realidade. Junto a isso, vivemos com outra crença de que somos possuidores da ‘verdade’. Essa crença que os humanos são donos de uma ‘verdade’ e de uma moral foi criticada pela filosofia de Nietzsche.

       O alemão Friedrich Whilhelm Nietzsche é um filósofo singular e polêmico, por ser crítico da moral, da religião cristã, e das teorias do conhecimento da tradição filosófica. Nietzsche nasceu em 15 de outubro, data de nascimento do poeta latino Virgílio, e do heterônimo Alberto Caeiro do poeta Fernando Pessoa. Optou por uma escrita experimental que escapa da linearidade tipicamente platônica e aristotélica em seu modo de tecer um texto filosófico. O experimentalismo na escrita coloca-o próximo de Heráclito de Efésios, que defendia o constante de devir de tudo, ou movimento constante que está em torno da natureza e do ser humano. Outro fator a ser dimensionado em termos da polêmica e sua ligação indireta a Diógenes, o cínico, visto que este renegou os princípios da racionalidade exaltada por Sócrates, ao tentar viver mais próxima das condições dos animais. Isso é percebido na afirmação de Peter Sloterdijk na obra Crítica da razão cínica (2012), em que ele o denomina como um neo-cínico. Mas, sobretudo com Nietzsche temos o deslocamento da ideia de que o filósofo é aquele que busca a verdade, pois com ele tem uma crítica radical desse conceito. Ele além de experimentalista é um pensador que ressaltar as perspectivas, ou as possibilidades. Porém, é valido lembrar que o alemão é polêmico por suas críticas a qualquer tipo de filosofia de rebanho, como são comuns em certas linhas das filosofias políticas, sobretudo as que fazem interpretam e analisam as desigualdades sociais e contradições da sociedade burguesa e liberal. Com isso, criou-se uma imagem de filósofo tipicamente burguês na visão Gyorgy Lukács. Algo que discordo, visto que Nietzsche não é só crítico dos conceitos apresentados por outros pensadores, mas, sobretudo das formas como essas filosofias se dão, e reafirmam um além-mundo com instância da verdade, ou qualquer racionalidade que evite a corporeidade,  e pulsar de sangue no pensamento e na vida. Nesse aspecto é uma filosofia extemporânea, e nada conservadora, algo contrário ao pensamento burguês. Apesar de apresentar algumas polêmicas sobre Nietzsche, ressalto que nesse texto só iremos analisar brevemente o conceito de verdade na percepção crítica do filósofo alemão. 

 

Apesar de apresentar algumas polêmicas sobre Nietzsche, ressalto que nesse texto só iremos analisar brevemente o conceito de verdade na percepção crítica do filósofo alemão.

     A concepção de ‘verdade’ é um tema fundamental da metafísica, Platão, junto aos filósofos medievais, assim como Descartes e outros pensadores da modernidade  elevaram a sofisticação o conceito de verdade em suas elucubrações filosóficas. O conceito de verdade coloca o ser humano como parte central da natureza, e da validade ao ser divino do judaísmo-cristão, como fonte de todas as causas do mundo. É essa mesma lógica justifica os binarismos da metafísica, como o bem e o mal, o escuro e o negro, verdade e a mentira. No entanto, Nietzsche questiona esse binarismo como algo necessário, para ele ambos são partes de uma mesma coisa e não forças contrárias. Junto a isso, faz críticas a pretensão da ideia de verdade. Em seu escrito Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral (1983), temos a seguinte passagem:

      Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor  e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos então que também ele bóia no ar com esse páthos e sente em si o centro voante deste mundo. Não há nada tão desprezível e mesquinho na natureza que, com um pequeno sopro daquela força do conhecimento, não transbordasse logo como um odre; e como todo transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos homens […] (NIETZSCHE, Friedrich. 1983,  pág.45)

     A ironia expressa na passagem sobre a percepção de que a mosca se sente o centro do mundo, é uma evidente crítica aos seres humanos com a pretensa crença de ser mais importante que qualquer outra forma de vida do planeta Terra. Essa convicção de ser a peça importante do cosmo faz com que os humanos, não respeitem o tempo próprio da natureza, na qual faz agressões sucessivas aos rios, aos mares, e encontre motivos para destruir florestas. Além disso, temos humanos que não respeita nem os seus pares a partir de valores gregários, estabeleceram que o rosto branco como melhor que outros rostos. Visto que as raças não europeias são descriminadas. Tudo isso, faz parte da complexidade que é própria do humano e suas demasias.

Acredito que a compreensão sobre o lugar do humano como parte de um todo, é não como centro da natureza. Talvez seja o começo de uma virada e de uma vida mais leve, sem o peso da culpa.

Leonardo Vieira Rodrigues

Leonardo Vieira Rodrigues

Professor de Filosofia e História. Atualmente leciona em Guarulhos-SP para estudantes do Ensino Médio e Ensino Fundamental. É também pesquisador da Filosofia em temas como estética e política. É mestre em Estudos de Linguagem pelo CEFET-MG.