Não é natural

©Lecy Sousa

Quando os artistas fazem propaganda defendendo o consumo de muita carne (mesmo sendo veganos), tudo bem. Está certinho, mesmo sendo esse um tema sem solução para o atual nível de consciência humana.

Quando os artistas fazem propaganda defendendo o uso de armas, pelos cidadãos comuns, mesmo que estes não tenham o que comer em casa, está certinho.

Quando os artistas fazem propaganda de qualquer Banco ou cartão de crédito, tudo bem. Está certinho. O mercado não é versado em humanismo.

Quando os artistas defendem a supremacia branca no Século XXI (de maneira dissimulada), tudo bem. Está certinho.

Quando os artistas exaltam o consumo desenfreado como único caminho de felicidade terrena, tudo bem. Está certinho.

Quando os artistas se acabam usando drogas lícitas e ilícitas, tudo bem. Problema deles, desde que o mercado de drogas continue prosperando. Está certinho.

Mas, reparem, quando artistas e pessoas comuns vão às ruas pedir a preservação do meio ambiente e medidas imediatas contra a poluição e as alterações climáticas promovidas pelos oligopólios industriais, nesse caso, elas estão movidas pelo demônio, por conspiracionistas de esquerda, por comunistas levantados de suas covas e com superpoderes do além, por psicopatas, por George Soros (como se Soros não fosse produto e papel de um pensamento capitalista predatório), pelos inimigos do progresso, pelos alienígenas que desejam dominar a raça humana (sem poluição?!), pelos inimigos de Israel (até esse tipo de coisa a gente lê). Detalhe: em Israel, a maioria dos automóveis são movidos à eletricidade (estão abandonando o combustível fóssil).

É bastante óbvio que, se alguma manifestação deseja interromper o ciclo destrutivo de mega negócios mantidos por uma “elite” empresarial, será tratada a chicote. A defesa da Natureza só é bonitinha dentro das salas de aula da 5ª série primária, onde os estudantes ainda usam papel de empresas predatórias (reflorestamento é atitude comunista, na opinião dessas empresas).

Quando a escravidão foi “abolida” no Brasil, alguém pensa que os coronéis aplaudiram horrores e foram celebrar com os negros na bodega mais próxima? O fim de uma exploração é absurdamente traumático para o explorador viciado nesse processo. Portanto, a abolição deve ter sido obra do demônio na visão empresarial daquela época.

É muito fácil jogar palavras de ordem na mente das massas que não pesquisam, não conhecem o contraditório e fogem da responsabilidade cidadã. Resta a defesa de mitos esvaziados, posto que as massas necessitam de algum boneco que simbolize seu vazio coletivo e vociferante.