MG cria o primeiro ambulatório para adolescentes transexuais


A servidora Maria Cristina Pereira, 46, viu a filha Melissa, hoje com 13 anos, construir uma identidade de gênero diferente do sexo biológico desde as primeiras descobertas da infância. “Ainda pequena, ela gostava de colocar um sapato meu, passar batom. Até que chegou um momento que ela me falou que não gostava do corpo, que se sentia menina”, conta. A cada brincadeira e conversa, a mãe aprendia sobre a aceitação da diversidade. 

A adolescente teve o nome social reconhecido pela escola, localizada em Contagem, na região metropolitana, há dois anos, e agora começa a trilhar mais um caminho em busca do reconhecimento do próprio corpo: a afirmação sexual. E foi em um ambulatório no Hospital Infantil João Paulo II, na região Centro-Sul da capital, que Melissa encontrou o suporte profissional necessário para iniciar o longo processo. O espaço começou a funcionar no fim de abril e é o primeiro dedicado exclusivamente a adolescentes transgênero em Minas – o Hospital Eduardo Menezes, também em BH, tem um ambulatório trans, mas voltado para adultos.
O Ambulatório de Saúde do Adolescente atende às quartas-feiras, das 13h30 às 18h. Pediatra da unidade e idealizadora do projeto, Tatiane Miranda conta que a ideia de viabilizar o serviço surgiu no segundo semestre de 2019. 

A direção do hospital abraçou a ideia, e o projeto se tornou realidade. E, muito além dos tratamentos de bloqueio hormonal, que impedem o desenvolvimento de características do sexo biológico, mas não provocam mudança no corpo, o espaço conta com pediatra, psiquiatra, assistente social, ginecologista, urologista, cirurgião plástico e pedagogo.

“A intenção é fazer todo um acompanhamento por meio de uma rede de apoio. Não se trata somente de uma questão hormonal ou algo no corpo físico”, disse a pediatra. 

Abrangência
A especialista lembra que os transgêneros no país são, muitas vezes, marginalizados pela sociedade e desfavorecidos até no acesso à saúde pública. “O atendimento não se esgota nesse ambulatório, muito pelo contrário. A proposta é que ele venha a somar, juntamente com outras instituições, à atenção primária no Sistema Único de Saúde (SUS), que é o cuidado com a saúde”, explica.

O objetivo agora é difundir o serviço pioneiro para que mais adolescentes transgênero sejam atendidos pelo hospital. De acordo com a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), que gerencia o Ambulatório de Saúde do Adolescente, a expectativa também é realizar parcerias com ONGs do Estado que acolhem jovens trans expulsos de casa. 

Garota sonha com tratamento que faz bloqueio hormonal 
Sem dinheiro para arcar com um acompanhamento particular, Maria Cristina disse que a vida de Melissa melhorou consideravelmente com os atendimentos no laboratório do Hospital Infantil João Paulo II. “Ela passa horas lá, tem tudo que precisa. Toda vez (que é atendida), fica muito feliz”, afirma.

Agora a mais nova batalha da família é na Justiça. Como o remédio que faz o bloqueio hormonal não é oferecido pelo SUS, a servidora busca, por meio de uma ação, que o Estado banque o medicamento. “Tenho fé que vamos conseguir. É um sonho dela fazer esse tratamento, para começar a tomar o hormônio feminino só mais tarde. Fico preocupada, ela é muito ansiosa com isso, tem medo de as características masculinas aparecerem”, observa.

Questionadas pela reportagem sobre a ação da família, a Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais e a Advogacia Geral do Estado não tinham respondido até o fechamento desta edição. 

Contatos
Pais que buscam o atendimento especializado para filhos adolescentes devem procurar um profissional da atenção primária em postos de saúde e pedir o encaminhamento. Centros de Referência de Assistência Social também dão o suporte – são 34 na capital mineira. 

O Ambulatório de Saúde do Adolescente fica na alameda Ezequiel Dias, 345, na área hospitalar. Mais informações pelo telefone (31) 3239-9120.
 

Preconceito faz risco de transtornos aumentar
Psiquiatra do ambulatório, Pedro Henrique de Oliveira afirma que são diárias as dificuldades sociais enfrentadas por qualquer pessoa trans. Essa repressão social gera, segundo ele, um risco maior para o desenvolvimento de problemas mentais. “Isso aumenta a chance de problemas ocupacionais, sociais e de contato. Os transgêneros podem ter mais transtornos de ansiedade, oscilação de humor e até evasão escolar. Por conta desse panorama, buscamos trabalhar com eles para ajudar a saúde mental”, detalha.

Lei 
A transexualidade deixou de ser tratada como transtorno mental pela Organização Mundial da Saúde em 2018. E, em janeiro de 2020, as orientações para atendimento médico e cuidados de saúde dos trans foram regulamentadas pelo Conselho Federal de Medicina. 
 

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