“Meus, seus e nossos”: os desafios em lidar com filhos de outras relações

Quando começaram a se relacionar, a hoje bacharel em direito Roberta Cândida, 33, e o empresário Adriano Silva, 49, já tinham filhos frutos de outro casamento. Ele é pai de dois rapazes, e ela, de uma criança, o Pietro, que na época do início do romance tinha 6 anos. No princípio alguma cena de ciúme ou mesmo competição era percebida na convivência entre o novo companheiro e o rebento. Mas logo esses sentimentos se dissiparam, e a relação entre padrasto e enteado tornou-se uma parceria irrestrita. “Não há uma substituição (da figura paterna), mas é algo muito perto disso. Eles sempre brincam, se preocupam e sentem falta um do outro”, comenta, satisfeita com a forma como os dois se dão e com a maneira como sua família se constituiu. Ela própria, afinal, vinha de uma experiência ruim em sua infância e adolescência, quando tinha um convívio pouco harmonioso com a companheira de seu pai – e, acrescenta, por isso sabia exatamente o tipo de estrutura familiar que gostaria de construir.

“Ela (a madrasta) achava que meu pai me bajulava demais, e ela não tinha isso (o mesmo tipo de atenção), então achava que não tinha por que eu ter. Hoje, vejo que faltava a ela maturidade e boa vontade de aprender a lidar com a situação. E havia crueldade. Quando meu pai não estava, ela me castigava de forma imoderada, de forma cruel muitas vezes, como se quisesse se vingar de algo”, recorda, reconhecendo que chagas dessa relação tumultuada permanecem em sua memória.

As diferentes situações vivenciadas por Roberta traduzem a abrangência dos modelos de estrutura parental e dos desafios da construção de laços em situações em que há filhos de outros relacionamentos, uma modalidade familiar que, aliás, tem se tornado cada vez mais comum. Dados do Censo Demográfico 2010 levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostravam que esse formato de família estava presente em mais de 2,5 milhões de lares no país. Um número que provavelmente se ampliou, o que se pode inferir pelo volume de divórcios, que saltou de 243.224, há uma década, para 385.246, em 2018.

Além disso, o IBGE já demonstrava, em 2014, a tendência de crescimento da quantidade de brasileiros que se casam de papel passado pela segunda vez: se em 2004 eles eram apenas 13%, naquele ano, em 23% das uniões registradas, um dos cônjuges era divorciado ou viúvo – e poderia, portanto, constituir uma nova família tendo filhos de outra relação. Algo que também pode ter acontecido com algumas das mães do grupo de 11,5 milhões que não contavam com auxílio dos pais de seus filhos em 2015 no Brasil.

Uma disputa “afetiva-territorial”

Cada vez mais comum, esse arranjo familiar em que há “os meus, os seus e os nossos” pode se tornar mais complicado a depender de como o convívio entre as partes é estabelecido. “Os filhos entende sua mãe e seu pai como território um do outro e deles. Por isso não aceitam que o outro chegue nesse território. Esse comportamento pode ser agravado quando não é o primeiro episódio em que a criança ou adolescente lida com uma madrasta ou um padrasto, de forma que já tenha visto o pai ou a mãe biológicos sofrendo com tentativas de relações anteriores”, explica o hipnoterapeuta e especialista em programação neurolinguística Thiago Porto.

“No caso do padrasto e da madrasta, também há essa percepção (de sua nova parceria como um território)”, acrescenta, detalhando que a cobrança por atenção, neste caso, costuma aumentar com o tempo. “Quem está chegando a uma relação em que há filhos costuma, de início, ter mais facilidade para absorver e aceitar aquela situação. Mas, com o tempo, pode começar a compreender o companheiro de forma mais possessiva”, comenta.

Se há um conflito nos dois sentidos, uma disputa de territórios entre enteado e a nova pessoa na família, este é o pior dos cenários. Então tempo e atenção se tornam motivo de briga, e a pessoa que é o elo entre as partes passa a se sentir cobrada e pode se sentir esgotada, complementa Porto.

Negligência, autoridade imposta e construção de uma “família torta” são desafios para arranjos em que há “os meus, os seus e os nossos”

“Em minha prática profissional, percebo que o problema mais comum entre padrastos ou madrastas e enteados é a escolha dos adultos em não exercer as funções de cuidar e educar da criança ou adolescente. O padrasto ou madrasta pode se ausentar dessas funções, importar-se pouco ou acreditar que deve apenas conquistar o enteado e manter uma boa relação com ele para evitar conflito, sem exercer as funções de cuidar e educar para não competir com o outro genitor. Isso é um erro”, opina o psicólogo Rodrigo Tavares Mendonça, especialista em psicoterapia de famílias e de casais.

Para ele, padrastos e madrastas devem exercer a função da parentalidade como adultos que cuidam e educam crianças ou adolescentes, e não se posicionar como um membro postiço da família. “Quando isso acontece, quando padrastos ou madrastas não exercem o seu papel de autoridade em casa, podem se sentir limitados na própria casa, sem liberdade, oprimidos pelo enteado. Esse sentimento pode ser a causa de inúmeros conflitos, ser o gatilho para a construção de uma relação de rivalidade entre padrastos ou madrastas e enteados, não de amor e respeito”, alerta. O coach Thiago Porto concorda. “Para o enteado, o melhor dos mundos é perceber que recebe o mesmo carinho e atenção de pai e mãe como de madrastas e padrastos”, considera.

Uma situação diametralmente oposta, mas também comum, é a tentativa de exercer a autoridade logo no início da relação, sem considerar que o filho do parceiro ou parceira possa se sentir ameaçado, como se sua família tivesse sido invadida por um impostor. “Isso acontece especialmente quando o ex-companheiro não aceita o fim do relacionamento, podendo reforçar no filho a ideia de que é o padrasto ou madrasta quem está impedindo a família de voltar a ser unida novamente”, salienta o psicólogo. Contudo, mesmo quando isso não acontece, “o padrasto ou madrasta pode querer exercer autoridade rápido demais. Essa função, que envolve cuidar e educar, deve ser construída, e alguma resistência pode acontecer. É preciso ter flexibilidade. Esse tempo de aceitação deve ser respeitado, sem impor de forma rígida uma autoridade que ainda não foi constituída”, sublinha.

Cobrar de crianças e adolescentes confiram amor materno ou paterno para a pessoa que chega na família não é uma boa ideia, adverte Porto. Essa relação afetiva precisa ser construída devagar e sem que haja comparação ou disputa pelos sentimentos do enteado.

A construção de uma família torta, que não se sustenta por todos os membros, também acontece muitas vezes, assinala Mendonça. “A mãe ou o pai pode reforçar, com atitudes ou palavras, que o atual companheiro é uma espécie de agregado na família, que o núcleo duro são ele e os filhos. Essa construção torta, além de limitar a autoridade do companheiro, limita a sua participação na vida familiar, podendo assim diminuir sua autoestima e importância”, avalia, acrescentando que essa situação pode ser adoecedora, causar conflitos e levar a família para uma nova ruptura.

Respeito é palavra-chave, e companheirismo é essencial

“O ideal é que a estrutura da nova família seja como a estrutura de uma família tradicional, com adultos (não somente o pai ou a mãe) organizando a família, cuidando e educando as crianças ou adolescentes, todos sendo um pilar para a sustentação da família, ser respeitados e reconhecidos em sua importância”, examina o psicólogo Rodrigo Tavares Mendonça, que aponta como essa relação será diferente a depender da fase vivida pelos filhos. “A diferença entre cuidar de uma criança ou adolescente por um padrasto ou madrasta me parece a mesma com que um pai ou mãe se depara. Adolescentes possuem a personalidade mais formada, devem ser mais respeitados que orientados. Já crianças precisam mais de orientação”, observa.

Na avaliação do hipnoterapeuta Thiago Porto, o hábito e a disposição de ceder devem ser praticados por todas as partes envolvidas na história. “Deve-se compreender a necessidade de atenção do outro sem criar um ambiente de disputa, mas de compartilhamento”, adiciona, inteirando que propor momentos em comum é uma ótima ferramenta para que se aprenda a conviver.

Dicas

Dê tempo ao tempo. Rodrigo Tavares Mendonça reforça que respeito é palavra-chave para a construção de relações familiares saudáveis. “Padrastos e madrastas devem respeitar o enteado, compreender que ele pode levar um tempo até aceitar a sua presença na vida familiar”, diz.

Compartilhe a autoridade. O pai ou a mãe que cuida da criança ou adolescente deve respeitar a autoridade do companheiro em casa e estimular que ele exerça a função parental. Já o pai ou a mãe que não cuida diariamente deve aceitar o fim do relacionamento e aceitar que o padrasto ou madrasta exerça livremente as funções de cuidar e educar, considerando, inclusive, que essas funções podem ser construtivas para seu filho, sinaliza o profissional.

Evite a competição. “O padrasto ou madrasta não precisa conquistar o enteado adolescente logo no início e nunca tentar competir com o pai ou mãe que não cuida diariamente nem desmerecê-lo. Se o pai ou mãe que não cuida diariamente exerce bem sua função, comparece aos eventos escolares, por exemplo, o padrasto ou madrasta, caso não haja harmonia, deve respeitar que essa função seja exercida pelo pai ou mãe. O respeito pela função e importância de cada um me parece essencial”, aconselha Mendonça.

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