Metas de ano novo: aposte em um só objetivo e estabeleça etapas de curto prazo

A cada fim de ano, há mais de uma década, a comunicadora e terapeuta holística Nádia Schmidt, 28, cumpre sistematicamente o ritual de revisitar metas – ou manifestações, como ela prefere – de anos anteriores e estabelecer novos objetivos a serem percorridos no próximo ciclo. Repetida tantas vezes, a prática comum a tantas outras pessoas foi ganhando moldes e sendo amparada por técnicas que garantiam o cumprimento, pelo menos parcial, de seus projetos. Mas, mesmo levando o costume a sério, Nádia reconhece que em 2020 foi difícil não se frustrar. “Principalmente no campo profissional, precisei deixar algumas questões em suspenso, colocá-las na gaveta para serem retomadas em outro momento”, observa, fazendo menção aos impactos da pandemia da Covid-19 na sociedade. Não que metas fossem sempre executadas por ela. Em outros anos já havia precisado adiar alguns projetos, seja por não fazerem mais sentido ou por conta de adversidades. Certo é que, desta vez, o número de desejos de futuro contingenciados tornou-se maior.

E se foi difícil para Nádia, que já tem o hábito de se organizar para as tarefas que se propõe executar ao longo do ano, um sem-número de entusiastas das resoluções de ano novo também pode ter experimentado essa sensação de frustração por ter ficado aquém daquilo que se pretendia para o ano que agora se encerra. E, pelo que indicam estatísticas sobre o tema, a maioria das pessoas, mesmo em períodos menos turbulentos, tende a desistir de seus objetivos – e isso acontece rapidamente. O instituto de pesquisa Statistic Brain Research Institute aponta que 27% dos norte-americanos desistem dessas tradicionais promessas ainda em dezembro. Para 50%, os projetos são enterrados em janeiro. Outro estudo, da Universidade de Scranton, crava que apenas 8% da população dos Estados Unidos costuma persistir e se comprometer com essas metas.

No Brasil não há levantamentos abrangentes sobre o assunto, mas um olhar atento para indicadores do Google Trends – ferramenta da gigante de buscas que mede o interesse dos usuários por determinados temas em um período recente – pode dar pistas de um cenário parecido com aquele desenhado pelos estudos norte-americanos. Ocorre que, nos últimos cinco anos, alguns tópicos têm sido pesquisados com mais frequência entre dezembro e janeiro. Caso de “como guardar dinheiro”, “como viajar mais” e “começar dieta”, que parecem se tornar uma preocupação maior justamente nesta época. Uma das hipóteses é que, por não terem sido cumpridos, esses objetivos voltem a figurar nas listas de resoluções de forma reincidente.

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Há, evidentemente, aspectos externos, que fogem do controle do indivíduo, que podem frear a execução dessas resoluções, mas esses fatores não explicam, sozinhos, os índices de desistência tão altos e a eterna repetição de metas. “Percebo que, em geral, relacionamos muitos propósitos, o que nos deixa dispersos. Alguns deles são excessivamente ambiciosos, algo que não vamos conquistar rapidamente, o que pode desmotivar. Para piorar, são frequentes nessas listas mudanças de comportamento, que são transformações que demandam tempo e esforço, e por isso deveriam ser cumpridas uma por vez”, avalia o psiquiatra e mestre em neurociência Renato Ferreira Araújo.

Para que os planos não fiquem ameaçados, a sugestão do estudioso é o foco em apenas um desejo, que, para ser alcançado, possa ser dividido em outras pequenas ações, realizáveis em curto prazo. “Hoje, até as empresas fazem isso por entenderem que é algo que dá certo”, destaca. “Um tópico frequente nessas listas é o desejo de perder peso. Mas, se eu definir que quero perder muitos quilos de uma vez, dificilmente vou alcançar esse objetivo e vou acabar desistindo. Além disso, há várias formas de encaminhar essa demanda: posso iniciar atividades físicas ou reformular minha alimentação, mas, se fizer tudo de uma vez, posso não me adaptar bem e jogar a toalha. O ideal é cumprir por partes essa ambição maior. Logo, nos primeiros três meses, vou me dedicar a consolidar uma rotina fisicamente ativa e, depois, posso começar uma reeducação alimentar. Assim vou me mantendo motivado”, garante.

Crenças limitantes, falta de propósito e desorganização emperram objetivos 

A psicóloga e mentora em inteligência emocional Patrícia Gomes acrescenta que não estabelecer metas de forma objetiva é outro obstáculo, seguido pelas crenças limitantes. “Se o sonho de alguém é crescer profissionalmente e essa pessoa acredita que, para isso, terá que se dedicar menos à família, ela pode se sabotar de forma inconsciente no trabalho. O desafio, então, é identificar esse comportamento em nós – algo que só é possível por meio de práticas de autoconhecimento e de muita reflexão – e, então, fazer o exercício de substituir esses pensamentos sabotadores por crenças fortalecedoras. No caso desse exemplo, a pessoa poderia passar a pensar que o seu sucesso despertaria o orgulho de seus familiares em vez de mentalizar que estaria se afastando deles”, opina.

Por outro lado, a falta de um significado verdadeiro é um elemento que leva à desistência dessas promessas. “Acho importante pensar se desejamos mesmo aquilo que estamos nos prontificando a conquistar ou se é só algo que foi sugestionado. Podemos nos questionar sobre o propósito, sobre por que desejamos incluir isso ou aquilo entre as nossas metas de ano novo”, sugere Patrícia. Por fim, a indisciplina também costuma comprometer planos. “Temos, atualmente, uma série de ferramentas que podem nos ajudar nessa organização. Os planners, em que vamos organizar nosso dia a dia, definindo horários para cada coisa, são ótimos. Virtualmente, há tecnologias como o Trello (um sistema de gerenciamento de projetos), em que posso colocar prazos para execução de tarefas e até dividir com outras pessoas a responsabilidade”, indica a coach de carreira e liderança.

De olho em 2021. Como é de praxe, Nádia Schmidt não tem feito projetos muito audaciosos para o próximo ano, em que sobram incertezas. “Não sabemos como vai ser a rotina, se retomaremos atividades presenciais ou quando isso vai acontecer. Eu tenho preferido fazer planos que não vão depender do sucesso da vacina e pensado até os seis primeiros meses. Se as coisas mudarem, refaço essas metas”, situa. Esta, aliás, é justamente a sugestão do psiquiatra Renato Ferreira Araújo. “Temos que projetar objetivos pensando dentro da realidade de como estamos vivendo o dia de hoje. Se as coisas melhorarem, podemos rever essas propostas”, reforça.

Ritual. Hoje, para Nádia, estabelecer metas é mesmo um ritual. “Tenho meus cadernos de outros anos e, quando vou pensar no próximo ciclo, retomo eles. Vou vendo meus desejos antigos. Algumas vezes me pergunto: ‘Por que eu queria isso?’. Outras, descubro que consegui cumprir um propósito anos depois e por um caminho que não havia imaginado na época”, cita. Quando vai tomar nota das novas ambições, acende velas e deixa queimar um incenso, criando uma ambiência que, no caso dela, ajuda a manter o foco. O primeiro passo, diz, é escolher uma palavra que representará o novo ciclo e, ao definir alguma ação, associa a ela sentimentos. “Se definir que quero me mudar (de casa), descrevo não só o imóvel que seria o ideal, deixando em aberto outras possibilidades, mas também como quero me sentir naquele lugar”, detalha.

Imagens. Para estimular o cumprimentos de metas, ela usa imagens que reforçam seus desejos, recorrendo a recortes físicos e virtuais e salvando pastas de imagens em aplicativos como o Instagram e o Pinterest.

Tripé. A terapeuta holística costuma recorrer a um tripé fundamental para definir seus planos para o ano que se inicia, passando por análise, escolha e responsabilidade. “Esse é também um exercício de autoconhecimento, em que você vai se questionar se sabe o que quer, se sabe por que quer e se assume a responsabilidade de ter isso na sua vida”, enfatiza.


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