Me digas o que lês, que te direi quem tu és – Por Isa de Oliveira – #temporadadetextos

Que leitor sou eu? Os estereótipos de leitores rotulados pelas suas leituras.

Imagem: Pixabay
Isa de Oliveira @corujadasletras

Rótulos, hoje, são praticamente condenáveis. E aquele ditado da moda de que o que vestimos fala muito de nosso espírito, de nosso ser, de nossa personalidade. Assim como estereótipos de perfis são aplicados a determinadas visões já pré-concebidas, como “a bíblia do protestante cheira a sovaco e a do católico a mofo ou poeira”. Isso pressupõe um estereótipo religioso. Não é mesmo? E quando dizem que “ler gibis é coisa de criança, infantil, ou adulto que lê HQs é porque não cresceu ou não saiu de casa?” Mais uma vez…caímos na falácia dos preconceitos estereotipados.

As leituras que escolhemos refletem muito mais a forma com que a linguagem literária é capaz de nos comunicar algo e transmitir mensagens que de outra forma não seria possível. Se buscamos o gênero de auto-ajuda, significa que a busca pela espiritualidade humana não está só nos livros sagrados.

Há aqueles que dizem que “ficção científica é coisa para nerd”. O tempo todo os rótulos determinam o tipo de leitor que é você. “Ah, mas eu leio de tudo!” O leitor é eclético, universal, e mesmo assim, nem sendo um leitor aberto está isento de estereótipo. Caramba! É um saco isso, não?

Eu sou apenas um leitor como qualquer outro, isso é o que importa. Será mesmo que as leituras que escolho falam muito de mim, o que sou ou o que busco? Afinal, nem todo leitor de poesia é poeta. Nem toda leitura traduz o exercício ou o comportamento do seu leitor, mas elas de alguma forma irão refletir na vida das pessoas, e desde que positivamente, podem até mesmo impactar no seu modo de ver o mundo e se posicionar perante a ele.

As leituras significam muitas coisas: identificações pessoais, curiosidades, influências diversas seja de indicações ou recomendações, pesquisas, obrigações laborais, acadêmicas, estudantis etc, enfim, uma série de situações que elas podem refletir o processo em que se encontra o leitor, mas não caracterizam o leitor em si.

O cuidado que devemos ter quando julgamos as pessoas pelo que leem, costumo dizer que é preciso fazer uma terapia literária. Precisamos de um psicólogo literário, como faz o querido e alcunhado estagiário da editora Dublinense, Eduardo Krauser. Antes de te indicar um livro da editora, ele recomenda uma sessão terapêutica. Estive nesse consultório virtual Dublinense de psicologia literária e terminei ao final em mãos, com uma leitura tão tocante que foi preciso muita coragem para ler, a obra do escritor português José Luís Peixoto, Morreste-me, que fala de um luto paterno em um extenso monólogo poético que eu relutaria em ler, se não fosse uma sessão terapêutica. Já passei por terapias não-literárias que minha psicóloga me recomendou a leitura do Gabo (alcunha de Gabriel García Marquez), Notícias de um sequestro, para dar parecer de minha situação mental…(sic!) até mesmo nessas situações a medicina recorre à literatura para salvar/libertar algumas mentes.

Os livros são uma verdadeira terapia e uma derradeira saída para uma análise interior, pessoal, profissional e íntima. Quem sou eu, que leitor eu sou e o que busco entender?

As leituras traduzem muito mais o momento e a necessidade de buscar respostas ou compreender situações do que apenas dizer quem sou eu: se sou poeta, se sou nerd, se sou feminista, se sou machista, se sou leitor cult, leitor eclético se ou isso ou aquilo…


* Isa de Oliveira é doutoranda em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG, pesquisadora, poeta, resenhista e crítica literária, autora de “Intermitências” (Crivo Editorial, 2010), contagense e bookaholic que escreve para entender o mundo e se fazer entendida quando possível.


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