Mal-estar da civilização


A liberdade política corre o risco de desmoronar, silenciosa e insidiosamente, a partir do ponto em que ela é mais essencial: a própria sociedade. O estudo “Democracias sob Tensão”, da Fundação para a Inovação Política, realizado com 36.395 pessoas em 42 países, mostra que 38% da população mundial aprova um sistema em que somente as pessoas com maior nível de instrução possam votar (no Brasil, são 36%). Quanto mais jovem, maior é o apoio. No caso das pessoas com 35 anos ou menos, o índice chega a 48%.

Sugerida como uma forma de evitar “governos incompetentes ou corruptos”, a chamada “epistocracia” mal esconde seu viés segregacionista e antidemocrático e exclui uma camada significativa da população de seu direito à representação política em nome de um pseudo discurso de eficiência e meritocracia.

Não sem motivos, o mesmo estudo mostra que 31% dos entrevistados admitiriam viver sob um governo autoritário, sem eleições ou Legislativo, ou mesmo sob um regime militar (novamente, a aprovação cresce entre os mais jovens: 38%).

Para o professor Dominique Reynié, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, vivemos em um mundo complexo, bombardeado por uma gigantesca quantidade de informações contraditórias, o que é fonte de angústia coletiva. Para lidar com isso, as pessoas se fecham em redes de comunidades privadas e abrem espaço para a emergência de governos populistas e autoritários em busca de soluções simplistas.

Render-se a mistificações e preconceitos rasteiros em tempos conturbados mina a conquista civilizatória que é a democracia e é caminho certo para o retrocesso a um mundo de força e barbárie muito mais angustiante que o atual.

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