Mais que erotismo, mercado de produtos sexuais mira o bem-estar

“Se as pessoas têm se preocupado em ter uma rotina de exercícios, em se alimentar de maneira saudável, se estão tirando um tempo para cuidar da pele e estão mais atentas à saúde mental, então, por que não estariam também preocupadas em pensar e viver a própria sexualidade de maneira plena? Acredito que todas essas preocupações estão interligadas e estão sob o mesmo guarda-chuvas: o do bem-estar como um todo”. A reflexão da designer de moda Izabela Starling dá o tom de uma significativa mudança no pulsante mercado de produtos para o sexo, que, em meio a exponencial crescimento, tem visto florescer negócios que buscam se distanciar da estética e da proposta dos sex shops tradicionais. 

É o caso da Pantynova, startup dedicada ao universo do bem-estar sexual criada por Izabela e pela artista plástica Heloísa Etelvina. “É uma lógica diferente daquela das lojas de cosméticos e brinquedos adultos convencionais, em que o foco era a satisfação do outro, lugares que a pessoa buscava se queria apimentar a relação e dar mais prazer para sua parceria. O conceito que trabalhamos é outro. Claro que os nossos produtos podem ser usados para que a relação seja mais prazerosa para o outro, mas não é só isso. Eles são também uma ferramenta de autoconhecer, possibilitando que a pessoa explore o próprio corpo e exercite também o autocuidado sexual”, estabelece a empreendedora. 

Com essa mudança de propósito, a dupla atende um nicho que, agora, atrai a atenção das gigantes do varejo. Em outubro, por exemplo, a Magazine Luiza anunciou o lançamento de uma categoria para o segmento. Algo que a Amaro fez em abril. A iniciativa, diga-se, foi bem-sucedida. Hoje, esses produtos representam 9% das vendas da categoria de beleza vendidos da marketplace.
 
Outra experiência. Izabela Starling lembra que, ao criar a Pantynova, em 2018, tentava atender um mercado que não se via representado pela indústria erótica. “Como mulheres lésbicas, os sex shops nos intimidavam. Não foram poucas as vezes em que a gente se sentiu como se tivesse comprando algo quase proibido. Além disso, esse mercado estava muito associado ao imaginário da indústria pornográfica que, convencionalmente, é altamente objetificante para todos os corpos, sobretudo os das mulheres. Outro problema é que os produtos oferecidos remetiam ao masculino, sendo muito fálicos, e não era isso que estávamos buscando – até porque os toys não são um complemento de ninguém”, rememora. 

No caso dos itens oferecidos pela startup de “sexual wellness”, os dildos são mais discretos, possuem diversas cores e tamanhos e são inspirados em outras formas da natureza – não buscam, portanto, exclusivamente ser uma imitação do pênis. Todos os produtos oferecidos por elas são livres de substâncias tóxicas, não testados em animais, à prova d’água e possuem PH balanceado para a flora vaginal. 

O primeiro produto lançado pela dupla, um “strap-on”, versão em inglês para cinta peniana, é um bom exemplo de como a atenção ao bem-estar é central no negócio delas. Os que encontravam no mercado eram feitos de couro ou imitação, muito desconfortáveis, que machucavam a pele. Na falta de algo que realmente fosse confortável e bonito, a dupla resolveu desenhar calcinhas de tule e elástico, uma lingerie, com recortes para encaixar o dildo. 

Mudança 

Da proposta inicial, que mirava o prazer feminino, até o momento presente muita coisa mudou. A começar pela crescente demanda por produtos sexuais. Segundo dados da consultoria Allied Market Research, sediada nos Estados Unidos, esse mercado se ampliou 4% em 2020, movimentando mais de US$ 78 bilhões. “Na pandemia, a procura pelos nossos produtos aumentou muito. Foi quando percebemos que tínhamos um público amplo, que incluía clientes que se autodenominavam homens”, observa Izabela Starling, lembrando que a empresa é gerida integralmente por pessoas LGBTQIA+. “Foi quando compreendemos que nossos produtos atendiam uma grande diversidade de corpos e notamos que não fazia sentido manter esse recorte de gênero”, diz. 

Informação 

Mais do que simplesmente oferecer lingeries, cosméticos e brinquedos sexuais, Heloísa Etelvina expõe que há constante preocupação em fazer da Pantynova uma plataforma de bem-estar sexual, o que inclui investimento em comunicação. “Desde o início, apostamos em uma linguagem muito próxima do meme. O objetivo é que esse debate sobre o autocuidado como um todo chegue ao máximo de pessoas”, explica. A estratégia também é importante no sentido de gerar tráfego nas redes sociais, uma vez que posts patrocinados sobre produtos adultos são vetados por redes sociais como o Instagram. 

A artista ainda recorda que, nas incursões que fazia por sex shops, sentia falta de informações mais claras e mais detalhadas sobre os produtos oferecidos. “Os ambientes de venda desses produtos costumavam ser até mesmo constrangedores”, diz. Distanciando-se dessa lógica, o e-commerce projetado pela dupla tem viés mais descontraído. Tanto o site quanto as redes sociais da empresa debatem o prazer abertamente e sem tabus. O conforto é também pensado na hora da entrega: os itens têm embalagem discreta, preservando a intimidade da comunidade de clientes.

Fonte do link

Compartilhe:

Comentários