Maioria dos empresários mineiros quer manter home office após pandemia


Mais da metade dos empresários mineiros que implantaram o regime de trabalho remoto durante a pandemia do coronavírus é favorável à continuidade da modalidade de maneira integral, de acordo com um levantamento realizado pela Câmara Americana de Comércio de Belo Horizonte (Amcham-BH). Os resultados apontam que 51% dos entrevistados querem manter o home office após o fim da pandemia, enquanto 48% defendem um modelo híbrido, em que parte da carga horária é cumprida na empresa e outra, em casa. Segundo a pesquisa, apenas 1% dos empresários é contrário ao teletrabalho.

Liderar remotamente e manter a equipe engajada e produtiva foram os principais desafios pós-pandemia citados pelos gestores ouvidos. Eles relataram, ainda, a incerteza econômica, a dificuldade de adaptar-se a novas rotinas e renegociar contratos com setores mais afetados. No total, 170 gestores que atuam em Minas, em segmentos como indústria, tecnologia e serviços, participaram da pesquisa.

Para o coordenador regional da Amcham-BH, Matheus Vieira Campos, a redução de custos, seja com transporte, energia e estruturas físicas, é a principal vantagem do modelo de home office para os empresários, mas há ganhos também para a qualidade de vida dos colaboradores. “Eles ganham em tempo de deslocamento, que pode ser usado para a prática de atividades físicas, para estar perto da família ou se capacitar, e tem também a questão da flexibilidade do horário”, afirma. “Além das mudanças operacionais com a transição do trabalho presencial para o remoto, o novo cenário vai exigir dos gestores sabedoria para conduzir uma reestruturação de processos e estratégias”, completa.

Muitas empresas já demonstraram interesse em manter o home office. A  imobiliária digital QuintoAndar deixou a escolha na mão dos funcionários: aqueles que preferirem o formato de trabalho remoto vão poder atuar de casa de maneira definitiva. A Zee.Dog, empresa de produtos para animais de estimação, já informou que, mesmo após o fim da pandemia, os colaboradores vão poder trabalhar à distância. Os funcionários do Twitter também não vão precisar mais voltar aos escritórios.

Outras companhias já decidiram dar continuidade ao trabalho remoto pelo menos até o fim deste ano. É o caso do Nubank, que enviou à casa dos funcionários equipamentos como computadores, monitores, teclados e cadeiras ergonômicas de escritório, para facilitar a adaptação. “Provamos que somos capazes de operar e permanecer produtivos mesmo com o distanciamento social”, disse o fundador e CEO do banco, David Vélez, em nota.

Para os trabalhadores, o regime de home office também tem dados bons resultados. Em uma pesquisa realizada internamente pela Tim, 98% dos funcionários disseram que querem atuar de casa pelo menos uma vez por semana, mesmo em um cenário de normalidade, e 90% adotariam a modalidade duas vezes por semana ou mais. 

Uma pesquisa feita pela Oi com mais de 11 mil colaboradores em home office mostrou que 78% deles têm interesse em continuar trabalhando em casa. O levantamento apontou, ainda, que o modelo não resultou em queda de produtividade: 38% dos entrevistados afirmaram que o desempenho melhorou no período.

A psicóloga autônoma Carolina Isis, 26, realizava atendimentos particulares em clínica, mas, com a pandemia, veio a necessidade de se adaptar: ela passou a divulgar nas redes sociais o serviço de consultas online. “Consegui fidelizar algumas clientes neste período. Não são muitas, mas foi uma forma de me reinventar enquanto profissional. Elas ganham confiança conforme veem os posts e entendem que a terapia online não é ruim, acaba sendo até mais cômodo não ter que sair de casa e ter gastos com locomoção”, diz Carolina, que, mesmo após a pandemia, pretende continuar com os atendimentos virtuais. “Dessa forma, não tenho gasto para alugar um espaço e tenho um lucro um pouco maior”, pontua.

Para a supervisora da área de carreiras do Ibmec Minas e psicóloga, Ana Paula Veloso, o cenário da pandemia impôs mudanças e necessidade de adaptação rápida, mas o home office é uma tendência que veio, de fato, para ficar. Ela ressalta, no entanto, que as condições desse regime de trabalho ainda precisam melhorar em alguns casos.

“Em muitos casos, o que está acontecendo não é home office, é a necessidade de continuar fazendo entregas. Muitas empresas não tiveram tempo para se estruturar adequadamente, os trabalhadores simplesmente colocaram o notebook debaixo do braço e foram para a casa. A maioria das pessoas conseguiu se adaptar, e houve a aceleração dessa tendência que já estava sendo ensaiada há muito tempo”, afirma.

Ela cita iniciativas que têm sido adotadas pelas empresas para favorecer essa transição, como a criação de um auxílio home office, que possibilita aos funcionários contratarem um pacote de internet melhor em casa, e o envio de mobiliário para os colaboradores trabalharem com mesa e cadeira adequadas. 

Os profissionais também devem contribuir para esse processo. “Isso deve despertar a necessidade de uma reflexão ainda mais consciente das entregas que eles têm que fazer e de como eles vão se organizar. Essa consciência da necessidade de desenvolvimento contínuo é essencial para que essa modalidade funcione”, afirma.

Home office pode alcançar 20,8 milhões de brasileiros

Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada na última semana, aponta que 22,7% dos empregos no Brasil podem ser realizados inteiramente em casa, o que significa que o home office pode ser adotado por cerca de 20,8 milhões de pessoas.

Minas Gerais ocupa a 12ª posição no ranking dos Estados em percentual de teletrabalho potencial, com 20,4% dos empregos viáveis para home office. O Distrito Federal apresenta o maior percentual de teletrabalho potencial (31,6%) do país, e o Piauí, o menor (15,6%).

Ainda segundo o estudo, algumas ocupações são mais passíveis de trabalho remoto do que outras. Entre profissionais das ciências e intelectuais, o potencial é de 65%, e entre diretores e dirigentes, de 61%. Por outro lado, operadores de instalações e máquinas e montadores não têm potencial para teletrabalho.

Segundo os pesquisadores, “as perspectivas da retomada das atividades econômicas após a pandemia devem levar em conta as novas modalidades de trabalho que emergiram de forma marcante no período de isolamento e que, muito provavelmente, serão mais utilizadas”.

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