Hoje é dia de Marku: show em BH celebra a vida, a obra e os 75 anos do gigante

Quando Marku Ribas fechou os olhos na noite daquele sábado, 6 de abril de 2013, Júlia e Lira estavam ao lado do pai e cantaram para ele. “A partida dele foi muito acolhida por nós”, lembra Júlia. Quase dez anos se passaram, e a obra de Marku foi redescoberta, remexida, revisitada, cantada e revitalizada em movimentos organizados pela dupla, inclusive com lançamentos de músicas inéditas. Nesta quinta-feira (19), ele completaria 75 anos, e a arte tem dessas coisas de mostrar que a vida, mesmo daqueles que já se foram, não cessa. A vida de Marku, e sua obra, estão presentes, gigantes, e serão celebradas no palco – afinal, onde mais poderia ser? 

Na noite de hoje (detalhes no fim da matéria), na Autêntica, dezenas de artistas se reúnem para reverenciar o cantor e compositor mineiro no evento que veio a ser chamado de Marku Day, inspirado no Fela Day, festa anual que homenageia o grande artista nigeriano Fela Kuti (1938-1997). A ideia não é recente, ganhou uma espécie de primeiro passo em 2019, com o festival “Minas Canta Marku”, no CCBB-BH, passou pela pandemia, cresceu, ganhou novas cores e foi colocada no papel no início deste ano após muita correria para viabilizar a primeira edição do evento.

Mestre de cerimônia do Marku Day, Lira Ribas fará uma participação na segunda metade do show com Marcelo Veronez e Sérgio Pererê. O trio canta “Paranoia Cromada”.  Na parte que encerra a grande festa para Marku, o quinteto Egler Bruno (guitarra), Daniel Guedes (percussão), Fred Jamaica (baixo), Léo Pires (bateria) e Leonardo Brasilino (trombone) faz a cozinha sonora para diversos artistas, como Pedro Morais, Azzula, Bid, DJ Black Josie, Marcelo Dai e Rodrigo Negão. Antes, as bandas +Samba, Magnólia, Diplomattas, Bloco Afro Magia Negra, Babadan abrem a pista e revisitam o repertório do aniversariante.

Quando Lira imagina como seu pai receberia a homenagem, um caminhão de recordações conduz as palavras da artista: “Vejo ele com o sorrisão aberto, os olhos cheios d’água. Ele era muito emotivo, ia bater palma com aquela mãozona dele, apontar para cada um com aquele dedão dele e agradecer a todos. Em algum momento, ele ia arrumar algo para falar que o som estava baixo e dar um jeito de entrar no palco para tocar, dançar”. 

Júlia Ribas não estará em Belo Horizonte – pelo menos não fisicamente. Da Alemanha, onde realiza uma turnê que justamente homenageia Marku Ribas, ela vê o sonho dela e da irmã ser realizado. O Marku Day vai acontecer. Do mundo e de Minas Gerais, é representativo e simbólico que ele ganhe tributos em BH e na Europa. “Meu coração vai estar lá e cá”, diz. Segundo Júlia, as pessoas falam muito de Marku, mas conhecem pouco da obra dele. Por isso, o Marky Day é só a primeira iniciativa.

Em junho, na esteira das comemorações dos 75 anos do músico, um grande mural com a imagem de Marku Ribas, que teve as redes sociais e o site oficial atualizados pelas filhas, será pintado em Belo Horizonte pelos artistas Pedro Rajão e Cazé, dupla por trás do projeto Negro Muro.

 
 
 
 
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“Sentimos essa necessidade de devolver para a sociedade a exposição da obra dele, que ele fazia com muita excelência”, afirma. Um musical em fase de criação de roteiro, com coordenação artística de Lira e Júlia e direção de Ricardo Alves Júnior, também será montado, mas o projeto ainda não tem data de estreia. Para Júlia, a música de Marku Ribas é forte, necessária e contemporânea. “É informativa, poética, articulada; é movimento, cura, instrumento de libertação. É vida”, completa.

Celebrando Marku

O rapper Roger Deff guarda uma lembrança forte de Marku Ribas. Em 2011, o homenageado da noite subiu ao palco com a banda Julgamento, importante grupo de rap belo-horizontino nascido nos anos 90 e do qual Deff é um dos fundadores. Em um festival no Parque Municipal, eles cantaram “Brother”, música de Marku sobre a questão racial e o lugar do negro no Brasil. A canção nunca foi gravada, não aparece em nenhum álbum, mas vai ganhar interpretação inédita no palco do Marku Day.

“O Marku foi um professor, eu era muito tímido, e ele sempre me falou que eu tinha que ser gigante no palco, que eu precisava me mostrar artista. Ele me deu uma verdadeira aula sobre o fazer artístico no palco. Poder trazer essa música inédita para o show e celebrar a obra dele é uma honra. Olho para a minha história como artista e vejo no Marku alguém em quem me espelhar”, destaca o rapper.

Roger Deff diz que Marku Ribas foi professor para ele em seus dois ofícios: como artista e MC e, também, como jornalista. Recém-formado “e muito cru ainda”, o compositor teve uma aula com Marku. “Ele me disse: ‘cara, você precisa fazer perguntas que o público perceba que você tem compreensão, que você conhece o artista’. Ele me falava que eu tinha que ser muito mais inteligente, muito mais sagaz, sobretudo por ser um jornalista negro”, pondera o músico.

Cantor, compositor, multi-instrumentista e ator, Marku Ribas, mineiro de Pirapora, nascido Marco Antônio Ribas, é – porque continua sendo – daquele tipo de artista que inspira e influencia quem se aproxima de sua obra com tanta naturalidade e sabedoria que um sorriso, um olhar, um toque no violão ou uma palavra cantada bastam para abrir na cabeça do outro todo um poderoso universo de possibilidades artísticas e estéticas.

Nath Rodrigues tinha 7 anos – ou talvez 10, ela não se lembra com exatidão – quando, no fim dos anos 1990, levada por seus pais, viu Marku em cima de um palco pela primeira vez. O encontro, no histórico Teatro Municipal de Sabará, cidade natal da cantora e compositora, foi definitivo.

Nath já estudava música na época e ouvia os discos de Marku Ribas em casa. “Esse show foi um divisor de águas para mim, moveu alguma chave dentro de mim. Ele era uma figura que chamava muita atenção, tinha um repertório muito visceral e não era comum, naquela época, ver homens com traços híbridos performando, cabelos longos”, ela diz.

 
 
 
 
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Nesta quinta (19), a musicista vai apresentar uma versão de “Mussulo”, canção do disco “Autóctone”, lançado há 30 anos. Os versos sempre passearam pela cabeça de Nath e despertaram um desejo artístico, “também por causa desse lugar de inventar palavras novas, vocabulários que não são cotidianos”. Reverenciar a vida e a obra de Marku Ribas no dia do aniversário do compositor “traz um sentimento muito grande de celebração”, observa a cantora. “Estamos falando de um artista superpotente, mas estamos falando também de legado”, completa.

A herança de Marku Ribas, tão duradoura quanto contemporânea, diz muito sobre uma Minas Gerais multicultural e diversa que tem na África e no povo negro uma de suas pontas fundamentais. “O Marku tinha uma linguagem regional muito conectada às raízes de Minas Gerais. Para a identidade mineira, é importante reconhecer esses nomes grandiosos, tirá-los da marginal e trazê-los para o centro. Isso é história. História e memória”, pontua Nath Rodrigues.

Programe-se

O Marku Day, show que celebra a vida e a obra do saudoso Marku Ribas no dia em que ele completaria 75 anos, reúne dezenas de músicos nesta quinta-feira (19), a partir das 20h30, na Autêntica (rua Álvares Maciel, 312, Santa Efigênia). Os ingressos custam R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada) e podem ser adquiridos pelo site www.aautentica.com.br.



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