Governabilidade real


Jair Bolsonaro assumiu prometendo uma nova política, ministros técnicos, projetos sólidos, diminuição da interferência do governo na economia, privatizações e reformas das mais variadas, passando pela previdência, tributária, trabalhista e até política. Havia uma agenda de combate à corrupção impulsionada pela Lava Jato. Criou enorme expectativa.

O cardápio de mudanças oferecidas por Bolsonaro, por mais atrativo que fosse, precisava necessariamente passar pelo Parlamento. No Congresso, os soldados lutam nas comissões, os oficiais negociam como líderes e as batalhas são vencidas no plenário. Ao importar a farda para a política, operou-se o inverso. Uma realidade que tem começado a gerar problemas de governabilidade na medida que a caserna é deslocada de sua função real, ferindo sua imagem equidistante de ator institucional.

Refém do atual modelo de liderança, o processo de reformas segue emperrado, tanto no governo, quanto no Parlamento, sem um cronograma ou projetos palpáveis que possam ser enxergados no horizonte. Até agora sem lideranças parlamentares robustas ou um norte sólido, assentado em propostas concretas e profundas, o Planalto ainda busca identidade e governabilidade.

No futuro dirão que o governo foi abatido pela pandemia. É preciso preservar instituições que acabam se confundindo com a administração e não podem ser abatidas. Governos passam, instituições ficam. Diante deste fato que separa duas realidades, o melhor caminho é entender que, por mais séria que seja a missão, civis e militares ocupam lugares diferentes e importantes que não se confundem na administração pública.

Diante disso a presença dos militares no governo começa a gerar questionamentos. Uma realidade que é debatida internamente dentro das Forças Armadas, afinal estamos tratando de uma instituição que passou as últimas três décadas refazendo uma imagem que hoje se redefine rapidamente pelas mãos do capitão Bolsonaro.

Fato é que se torna necessário dissociar as funções políticas governamentais civis das tarefas típicas de Estado exercidas pelos militares. Esta é melhor forma de preservar a política e a imagem de uma instituição que não pode se confundir com qualquer governo.

Ao reabrir espaço para a política, o governo entra na dinâmica real e no jogo de poder necessário para implementar sua agenda de forma aberta e democrática, deixando de lado a retórica e partindo para a ação. Bolsonaro precisa abrir espaço para os novos parceiros que garantem a governabilidade e demandam participar das decisões para apoiar seus projetos no parlamento.

Sem governabilidade real, Bolsonaro será incapaz de entregar o que prometeu, independente do coronavírus. Para resgatar o governo, Bolsonaro precisa partir para aquilo que se convencionou chamar de realpolitik. Ao contrário do que pensa, somente a infantaria política é capaz de salvar o governo. Uma tropa que não veste farda e opera sob a lógica do acordo e do diálogo.

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