Gêmeos – Por Leonardo de Magalhaens – #temporadadetextos

Fonte: Png Wing

            Sonhei que tinha um irmão gêmeo. Igualzinho a mim, mesma cara. Mas o cara era outra pessoa, de uma personalidade espelhada. Como explico? Ele era o meu oposto. Eu fazia de tudo para agradar papai, que andava doente, e que sabia que nem toda a sua fortuna o poderia salvar. Vivia em consultas médicas, o tumor controlado, mas engolia remédios e remédios. Pílulas o dia todo.

            Meu irmão é um esportista, vive para seus carros, suas jogadas. Nem liga para papai. Só em conchavos com mamãe. Eles se merecem. Mamãe sempre preferiu meu irmão, que crescia forte, musculoso. Um espetáculo! Eu preferia os livros. Meu irmão de olho em carros do ano, corridas, e até aprendeu a pilotar helicóptero. Pilota seus brinquedos quando não está nas baladas da high society torrando o money de papai.

            Meu irmão não perde a oportunidade de me alfinetar. Se eu ando de ônibus, se eu ando de metrô, se eu estudo direito e Direito. Pra quê estudar afinal? Você é rico, pô! Vai curtir a vida! Andar de busão com esses pobres! Só você mesmo! Votar em comunas! Vai doar dinheiro aos pobres? Ele não entende o porquê de eu estudar tanto. Eu que ajudo nas Pequenas Causas, eu que ajudo as pessoas modestas a resolverem suas pequenas causas na Justiça. Eu que ajudo com documentos e processos, como redigir procurações e como se portar em depoimentos.

            Meu irmão nada sabe da importância de se ter acesso ao poder judiciário. Ele pensa que a Justiça só existe como um privilégio para pessoas de nossa estirpe. Não adianta explicar nada a ele – por que ouviria o intelectual, o ovelha negra da família? Ele que ironiza com mamãe, O cara não frequenta a society, só fica aí ajudando pobre! Quer ser advogado, só pra agradar papai… Mas o velho só se preocupa com seus médicos… E não adianta apelar a mamãe, ela que vive a vida de socialite, mostrando o apê da família para as revistas de celebridade, quando não está na casa de praia em Niterói.

            Em seu helicóptero, meu irmão não perde oportunidade de zombar do irmão de esquerda, esquerdopata, que eu nunca vou ser aceito pelos pobres, não sou um deles, assim como não aceito os ricos, de modo que estou num limbo, onde as pessoas me julgam pela renda ou me julgam pelo trabalho voluntário, mas não são minhas iguais. Ele acha que eu devo parar de criticar mamãe por tanta ostentação, por tanta pose de celebridade. O que eu ganho com isso?

            Nada ganho com isso. Mas sei ser mais objetivo. Ele gosta de gastar. Vai de helicóptero para fazer uma cobrança a um cliente. Não hesita em ir de helicóptero. Enquanto isso eu já fui de lotação, já resolvi tudo. Meu pai não aparece no escritório, mas sei tudo o que está para processar e os boletos que vão vencer. Sei que o advogado-mor lá deixa tudo organizado. E ele espera a cada dia a volta do meu pai. E por que não posso ajudar? Realmente sou advogado porque meu pai sempre foi meu ídolo. Ele que criou tudo, tijolo sobre tijolo, enquanto minha mãe só se ocupa em gastar.

            Somos facilmente confundidos – na rua, no prédio, antes na escola. Acham que sou ele, e acham que ele sou eu. Se a gente quisesse um passava pelo outro. Mas somos diferentes em tudo! – um oposto do outro – como se uma reação, um desejo de ser mais e mais diferente, quando um mais ostenta, o outro mais faz caridade. Quanto mais um é esportista, e esbanjador, mas o outro é intelectual, e voluntário. As imagens invertidas no espelho. Por isso, somos tão Esaú e Jacó, tão Pedro e Paulo, tão Yaqub e Omar.


Leonardo de Magalhaens

Poeta, escritor, crítico literário, revisor , tradutor, Bacharel em Letras Fale/UFMG
leomagalhaens3@gmail.com