Fundamentais para pesquisa, museus disputam atenção e verba com ensino

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Fundamentais para pesquisa, museus disputam atenção e verba com ensino
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Pesquisa gera acervo. Acervos fomentam novas pesquisas. Existe um nexo contínuo entre faculdades e museus universitários que é imprescindível para a produção do conhecimento.

Esse nexo, porém, não é tão imediato para quem cruza a entrada de uma instituição como era o Museu Nacional.

Foi o incêndio de seu monumental acervo, no dia 2/9, que colocou a pergunta na cabeça do público leigo. Afinal, o que faz um museu universitário?

“Existe um entendimento comum, internacional, de que museu preserva, pesquisa e comunica material para um público”, diz Renata Motta.

“Os museus universitários reforçam essa dimensão da pesquisa, relegada em outros museus”, continua a arquiteta, que é assessora da reitoria da USP (Universidade de São Paulo) para a área de museus.

A USP tem quatro museus estatutários –como se chamam os que têm orçamento separado para sua manutenção e autonomia para geri-lo.

São o Museu Paulista e o MZUSP, de Zoologia, ambos no Ipiranga, o MAC (Museu de Arte Contemporânea), no Ibirapuera, e o MAE (Museu de Arqueologia e Etnologia), no campus Butantã.

Mas a USP é ainda casa de acervos, pequenas e grandes coleções, ligadas a suas faculdades e que dependem do orçamento dessas unidades.

A necessidade de preservação de um patrimônio de relevo “de certa forma compete com a dimensão da missão de ensino e pesquisa”, diz Motta.

Carlos Roberto Brandão, diretor do MAC –que desde 2012 ocupa o prédio de Oscar Niemeyer que por anos foi sede do Detran–, diz que “muita gente na própria USP questiona a validade de ter museus”.

“São pessoas que veem museus como simples depósitos de coisas antigas e simples salas de exposição”, afirma.

O MAC tem cinco docentes e é sede de cursos de pós-graduação em estética e história da arte e em museologia.

Segundo Brandão, o museu teve seu público ampliado para 200 mil pessoas ao ano, mais de cem vezes o que tinha na sede da USP, apertada para um acervo de cerca de 11 mil itens, sempre em expansão.

Se o MAC se expandiu ao sair da Cidade Universitária, o MAE, com cerca de 1,5 milhão de itens, que vão do paleolítico europeu a povos indígenas do Brasil, e importante centro de pesquisas, com 20 docentes, vive lá acanhado.

Do outro lado da avenida, o museu enxerga seu futuro, a poucos passos, mas distante.

No que deveria ser a Praça de Museus está a estrutura do enorme prédio projetado por Paulo Mendes da Rocha para ser a sede do MAE. A crise da universidade interrompeu a obra, que previa ainda espaço para o Museu de Zoologia.

Além do prédio do anos 1940 que ocupa, o Museu de Zoologia aluga outro na avenida Nazaré, para acomodar sua coleção, que Brandão, do MAC, estima ser, depois da do Museu Nacional, a mais importante da América Latina –ele é biólogo e dirigiu o MZUSP.

Vizinho dali, o Museu Paulista estuda a sociedade a partir de seus produtos materiais, como explica Solange Ferraz de Lima, sua diretora.

O palácio que coroa o parque, porém, está fechado desde 2013. Terá sido uma década sem mostras, se de fato for reaberto no bicentenário da Independência, em 2022.

No começo de setembro, o museu contava com R$ 3,2 milhões dos R$ 100 milhões orçados para a obra, que deve ampliar a área do museu em 50%.

Lima ressalta que o “público em geral conhece uma parte” do que é um museu universitário, “o espaço de exposições”. Ela cita atividades de produção de mostras alheias, oficinas e empréstimos de obras entre as muitas que compõem o cotidiano da instituição.

Desde 2016, os acervos vêm sendo transferidos, a fim de “garantir a continuidade da pesquisa”, explica. Coleções textuais e iconográficas e a biblioteca foram reabertas. Acervos de móveis, pinturas e outros objetos estão sendo levados para três galpões.

Os quatro grandes da USP dispõem de orçamento próprio e captam recursos de fundos como a Fapesp, por meio de linhas de pesquisa. Os menores e sem autonomia, porém, dependem de repasses, editais e captações extras.

É o caso do Museu da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), no centro de Porto Alegre. Ele é uma espécie de “museu dos museus”. Além de guardar documentos e cerca de 10 mil fotos que entrelaçam a história da UFRGS e a local, empresta expertise museológica às demais unidades da universidade.

“As universidades possuem uma riqueza que nem elas mesmas conhecem”, afirma Lígia Ketzer Fagundes, historiadora do museu.

Ela dá o exemplo da exposição “Antes dos Dinossauros”. Foi preciso um ano de pesquisa no acervo do Instituto de Geociências para montá-la. Estreou em 2004 e foi um sucesso; chegou a itinerar e fomentou a criação de um espaço expositivo para o Museu de Paleontologia da UFRGS.

Para facilitar a circulação de ideias e de peças entre os acervos da universidade, fundou-se a Remam (Rede de Museus e Acervos), com 29 entidades –nenhuma tem orçamento.

“Os museus não são o fim último da universidade, mas eles existem”, diz Fagundes.

A fim de chamar atenção para sua função e discutir rumos para a preservação de seu patrimônio, o Fórum Permanente de Museus Universitários se reunirá de 9 a 11 de outubro em Belo Horizonte.

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