Férias e alta circulação de pessoas acendem temor sobre variante Delta em MG


Com 97 casos de contaminação pela variante Delta do coronavírus confirmados no Brasil, a maioria deles em Estados vizinhos de Minas Gerais, pesquisadores temem que o período de férias de julho e o relaxamento das medidas de contenção à pandemia levem a uma nova explosão de casos na região. 

Só pelo Aeroporto Internacional de Confins, devem passar 600 mil passageiros em julho, aumento de 20% em relação ao mês anterior, quase metade deles indo ou voltando de São Paulo e Rio de Janeiro, onde há transmissão da variante. A Rodoviária de Belo Horizonte também prevê aumento de 60% de embarques e desembarques neste mês, em relação ao período em 2020, sendo que pólos urbanos e praias do Rio e São Paulo movimentarão 20% das operações. 

Com a ameaça da disseminação da cepa para todo o país, como já ocorreu com a variante Gama, de Manaus, laboratórios mineiros monitoram a ocorrência da Delta. Em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), o Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) iniciará a análise de amostras de testes positivos feitos na capital neste mês ainda nesta semana. A intenção do projeto é manter a análise semanalmente. 

“Tendemos a acreditar que os números encontrados pelo Ministério da Saúde sejam apenas a ponta do iceberg. Já existe transmissão comunitária no em São Paulo e no Rio de Janeiro, lugares com fluxo de pessoas para Minas Gerais, então não tem como, a variante vai chegar aqui. O mineiro tem uma cultura forte de férias associada a viagens, e esse movimento amplia a movimentação de pessoas, que já não é mais só do Centro para o bairro onde moram”, pondera um dos responsáveis pelo projeto de pesquisa, o professor Renan Pedra. 

Por enquanto, Minas registra apenas um caso de contaminação pela 
variante, de origem indiana: em junho, um viajante foi da Índia a Juiz de Fora e testou positivo para a doença, porém foi acompanhado pela Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) e não há indícios de que tenha transmitido o vírus para outras pessoas. A transmissão comunitária do vírus ocorre quando já não é possível precisar a origem da doença entre os pacientes contaminados. 

O pesquisador Renan Pedra lembra que a dominância de variantes mais contagiosas que as demais pode ocorrer rapidamente, a exemplo do que houve com a Gama: “Ela levou três semanas para passar de 0% para 75% de predominância no Estado”, diz.  

A variante Delta é mais transmissível que as demais variações do coronavírus que já circulam pelo mundo, mas não há evidências de que leve a quadros mais graves de Covid-19. As vacinas disponíveis para uso também parecem continuar contendo o agravamento da doença. Países onde ela já se disseminou, porém, têm assistido a alta de casos: nos Estados Unidos, por exemplo, os casos subiram 121% em duas semanas. A grande maioria das ocorrências, porém, foi entre pessoas não vacinadas.

Questionada pela reportagem, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) reforçou que não há transmissão comunitária da variante Delta em Minas e que a Fundação Ezequiel Dias (Funed) e instituições parceiras realizam o monitoramento das cepas em circulação no Estado. “Para minimizar o surgimento de mutações é necessário impedir a circulação do vírus, sendo o distanciamento social e a vacinação ferramentas essenciais para o controle da pandemia”, destacou, em nota.  

‘Briga de variantes’ 

A variante do coronavírus que predomina no Brasil é a Gama, originada em Manaus. Em Belo Horizonte, por exemplo, ela está em cerca de 77% das amostras analisadas pelo projeto de mapeamento Rede Corona-Ômica, coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O país é onde a variante é mais predominante, e pesquisadores ainda não sabem como a Delta se comportará nesse cenário. 

“Há variantes que entram no país, circulam, e não dominam, então não sabemos o que pode acontecer nesta ‘briga de variantes’. O avanço da vacinação pode atrasar essa dominância”, avalia o virologista e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Aripuanã Wanatabe, que trabalha com a identificação de variantes no Estado. 

Por outro lado, a chegada de mais uma variante em Minas antes da cobertura vacinal de toda a população também abre margem para o surgimento de novas e perigosas cepas do coronavírus, analisa o professor Renan Pedra, da UFMG. 

“Temos uma grande parcela da população ainda vulnerável, sem vacina. Se a variante Delta, mais transmissível, dominasse, talvez precisássemos de mais de 70% da população vacinada e levemos mais tempo para extinguir a pandemia. Pensávamos em uma luz no fim do túnel em janeiro de 2022, com a segunda dose para todos até novembro deste ano, mas talvez isso seja estendido agora”, ressalta.

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