Falta de vacina expõe crianças a difteria, coqueluche e tétano


A poucos dias da volta às aulas na capital, uma falha na distribuição da vacina tríplice bacteriana (DTP) – direcionada a crianças de 4 anos e que há pelo menos dois meses está em falta em grande parte dos postos de saúde de Belo Horizonte – deixa aberta uma brecha para a contaminação por tétano e para a transmissão de duas doenças graves e altamente contagiosas: a difteria e a coqueluche.

A Secretaria de Estado de Saúde (SES), responsável por distribuir as vacinas enviadas pelo governo federal, declarou que a falta de doses nos postos pode estar relacionada a uma demanda reprimida nos municípios, provocada pela suspensão temporária, em junho de 2019, do envio de vacinas por parte do Ministério da Saúde. Na época, A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) encontrou problemas na qualidade, segurança e eficácia do produto.

A expectativa, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA), é que a situação comece a se normalizar nos próximos dias, com a chegada, ocorrida nesta terça-feira (4), de 6.200 doses enviadas pelo governo do Estado – 200 a menos que a cota mensal prevista para o município. Mas o temor de que a nova remessa acabe rapidamente leva muitas famílias a cogitar desembolsar até R$ 370 para garantir a imunização dos filhos (na rede particular, a DTP só é vendida associada a outras vacinas).

Nas últimas semanas, pais de várias regiões de BH têm encontrado estoques vazios nas unidades da rede pública. Dos 16 postos procurados pela reportagem de O TEMPO entre 29 de janeiro e essa terça-feira, sete não tinham nenhuma dose da vacina, cinco informaram ainda ter frascos do medicamento, e outros quatro não quiseram passar a informação por telefone.

Embora a SMSA afirme que o fornecimento irregular tenha atingido a capital apenas nos últimos dois meses, a dona de casa Pauline Vieira Souza Martins, 31, garante que o problema é mais antigo. Mãe de uma menina de 4 anos, ela tenta vacinar a filha desde setembro do ano passado em uma unidade de saúde do bairro Santa Amélia, na região da Pampulha. “Ligo sempre para o posto e falam que está em falta ou que chegaram apenas algumas doses e que acabaram”, contou. Preocupada, ela já pensa em pagar pela DTP. “Acho um absurdo (pagar), mas estou preocupada”, desabafou Pauline.

Falha na cobertura pode levar a surto

O presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Estevão Urbano, alerta que o desaparecimento, na rede pública de saúde, das doses da vacina DTP – que, além de imunizar contra difteria e coqueluche, protege contra o tétano – expõe as crianças a enfermidades graves e coloca a sociedade em risco de surto. Para Urbano, pais que não conseguiram a vacina na rede pública devem considerar pagar pela dose.

“A vacina previne contra doenças com potencial para matar. Ficar sem uma dose pode comprometer a eficácia da cobertura”, enfatiza o especialista.

O infectologista ressalta que a difteria e a coqueluche são transmitidas por gotículas expelidas na respiração. Por isso, segundo ele, a volta às aulas aumenta a chance de contágio. A situação preocupa a dona de casa Liliana Fátima dos Santos, 31, que não conseguiu vacinar a filha. “Estou preocupada. Ela estuda com outras crianças, e essa vacina é a única que está atrasada”, reclamou.

Ministério da Saúde nega irregularidade

Distribuição

O Ministério da Saúde informou, por meio de nota, que somente em janeiro foram enviadas 662 mil doses da vacina DTP aos Estados, sendo que 133 mil unidades foram encaminhadas para abastecer os municípios de Minas Gerais.

Falha

Conforme a pasta, em junho de 2019, a distribuição da vacina foi temporariamente interrompida após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária encontrar problemas na qualidade, segurança e eficácia do produto fabricado pelo laboratório Biological.

Postos

Mensalmente, a pasta envia doses aos Estados, que as distribuem aos municípios. O abastecimento das salas de vacinação é feito pelas prefeituras. 

 

 

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