Exposição de Chichico Alkmim em BH é crônica visual de uma época


A história política, social e cultural da primeira metade do século XX em Minas Gerais, mais especificamente em Diamantina, está sendo contada neste momento. Essa importante narrativa não ocupa as páginas dos livros nem as cenas de um filme ou documentário, mas sim as fotografias do mineiro de Bocaiuva Chichico Alkmim (1886-1978), verdadeiras crônicas visuais que integram a exposição “Chichico Alkmim, Fotógrafo”, que chega à sua última semana no Palácio das Artes. Antes, São Paulo, Rio de Janeiro e Poços de Caldas haviam recebido a mostra.

Em parceria com o Instituto Moreira Salles (IMS), detentor do acervo do fotógrafo, a exposição reúne 251 imagens que constroem um cenário forte e cuidadoso da sociedade diamantinense das primeiras décadas do século passado, seus modismos, costumes e hierarquia social.

Neto de Chichico, o geólogo e professor Fernando Alkmim nasceu e cresceu em Diamantina, onde pôde escutar as histórias das viagens de seu avô e da aproximação com a fotografia em uma dessas travessias com o pai, um pequeno comerciante e criador de gado. 

Foi nos anos 80, depois do falecimento de Chichico, que a família encontrou, em um porão na casa onde ele viveu boa parte de sua vida, um imenso acervo de negativos em vidro. Após ter passado pelos cuidados da Faculdade de Filosofia e Letras de Diamantina, ele voltou para o domínio dos familiares. 

Há quatro anos, buscando-se a preservação do material, ele foi cedido ao IMS. De acordo com Alkmim, o que Chichico produziu ao longo de quatro décadas deixa rastros até os dias de hoje: “A obra dele é diversa e permite inúmeras abordagens e leituras. Ela tem várias mensagens que carregam em si um momento histórico muito importante”, diz. Além disso, Alkmim sublinha que a obra de seu avô é um importante flagrante do que era o fazer fotográfico da época, “o brilho e o apuro técnico e artístico que ele tinha”.

Para o fotógrafo paulistano Vicente de Mello, as fotografias de Chichico têm o poder de explicar um pouco do que foram Diamantina e o Brasil dos anos 20 e 30 do século passado: “Quando isso é latente e te impacta 90 anos depois, é um grande trunfo. Chichico tem um peso visual e iconográfico muito forte. Ainda bem que temos esse material para olhar, analisar e compreender”. 

Ao se deparar pela primeira vez com a obra de Chichico, em meados dos anos 2000, em uma pequena exposição na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em BH, Vicente ficou impressionado como a produção de um homem que vivia longe dos grandes centros estava conectada com uma linha de pensamento universal. “Ele estava completamente ligado ao espírito da época. Quando você reanalisa a obra dele, percebe traços e nuances que se encaixam em um pensamento moderno da fotografia”, destaca Mello.

Últimos dias

A exposição “Chichico Alkmim, Fotógrafo” ocupa a Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, no Palácio das Artes, até dia 27 (quinta-feira), porém, devido ao Carnaval, o espaço ficará fechado de 22 a 26. 

Em Tiradentes

Segundo adiantou em primeira mão o curador da exposição “Chichico Alkmim, Fotógrafo” e consultor do Instituto Moreira Salles (IMS), Eucanaã Ferraz, uma parte do material que hoje ocupa o Palácio das Artes integrará a décima edição do Festival de Fotografia de Tiradentes – Foto em Pauta, um dos mais importantes do país, que acontece entre os dias 18 e 22 de março. 

Fotografias são importante registro da população negra

Ao analisar cerca de 5.000 negativos da obra de Chichico, um fato despertou o olhar do escritor, poeta e consultor de literatura do Instituto Moreira Salles (IMS), Eucanaã Ferraz. “Logo me chamou atenção a presença maciça de da população negra em Diamantina”, conta Ferraz, que fez questão de ressaltar essa presença “porque era uma coisa flagrante no trabalho dele”.

Segundo o curador, há uma questão importante quando Chichico retrata essas pessoas que, em sua maioria, eram pobres e ligadas a pequenos garimpos: “O que salta aos olhos é o quanto essa população é representada com extraordinária dignidade e elegância e, muito claramente, pela primeira vez por meio da fotografia. Provavelmente, aquelas pessoas foram retratadas pela primeira e última vez”.

Para Ferraz, Chichico conseguia enxergar o caráter, a personalidade e a psicologia das pessoas. “Ele fotografou negros em sua condição de indivíduo, não de descendentes de escravos. Uma coisa muito patente é como eles nos olham: um olhar intenso de dor, mas, sobretudo, de afirmação, de nobreza de caráter, e isso a fotografia pode ou não captar. Aí entra Chichico”, reforça Ferraz.

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