Eu e o Poeta – por Leonardo de Magalhaens – #temporadadetextos

Fonte: Pixabay

      Um passeio em Contagem, nas ruas e nos becos do Eldorado, subindo desde a estação de metrô, sem rumo nem destino. Daí entrei num bar, para ir ao WC, e o dono do bar não cobrou nem uma moeda. Ao resolver o drama mais urgente, decidi olhar o cardápio sobre uma das mesas. Fui e pedi um PF.

         Então percebi alguns livros empilhados num canto junto a mesa de sinuca. Livros? Num boteco? Inusitado. Eram livros antigos, eram antologias, que eu começo a folhear, aleatório. Lá descubro nos livros mofados, sem capas, alguns poemas do próprio dono do bar. Quem diria – um poeta! E tem antologia com poemas do meu amigo, o poeta Marley.

         Comecei a ler e até copiar poemas do poeta Marley enquanto o PF não é servido. Então, subitamente, o poeta Marley adentra o boteco! Assim mesmo – do nada! Ele entra e se senta e puxa conversa – quanto tempo! E a poesia? Tem escrito muito?

         Finalmente é servido o almoço. Comida mineira. Comida de boteco. Depois eu e o poeta saímos para andar e flanar pelas ruas e becos do Eldorado. Seguimos pela José Faria da Rocha, saímos na João César, ao lado do Hotel Manferrari, até pegarmos um ônibus para o Centro Histórico.

         Infelizmente uma lotação lotada – pouco espaço e ar, ainda mais em tempos de pandemia. Depois do Big Shopping, depois da rua Portugal, embarca uma adolescente com dois irmãos menores. Onde vão se sentar? Ao nosso lado. As crianças quase caindo encima de mim. Acabo por me levantar e ceder os lugares aos irmãos. Eu e o poeta ficamos de pé junto a porta de saída.

         Nem preciso dizer que o ônibus lotado me oprimia. Tantas faces e tantas vozes. E os arrancos e as buzinas. Ondas de calor. Insuportável. Então eu decidia descer no próximo ponto. Onde? Nem sabia. Já estávamos na área industrial. Galpões, fábricas, estacionamentos. Descia meio desorientado. E perguntava ao poeta – mas onde está o poeta? Lembro que ele me acompanhava. Teria  ficado no ônibus? Estranho. Imaginei ele descendo ao meu lado!

         Estava sozinho num lugar que não conhecia. E não tinha mais o Poeta Marley ao meu lado. Teria sido tudo ilusão? Coisa da minha cabeça? Enquanto pensava no Poeta, ele estava ao meu lado. Quando o ignorei, por um momento, ele se desmanchou no ar.  


#LeonardodeMagalhaens      

Poeta, escritor, crítico literário, revisor , tradutor, Bacharel em Letras pela Fale/UFMG

Para serviços de tradução, crítica e prefácios façam contato:

leomagalhaens3@gmail.com

 


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