ENTRE DEVANEIOS E RISOS – Por Leonardo Vieira Rodrigues – #temporadadetextos

CAMPOS DE CARVALHO E A CRÍTICA AO MODELO CIVILIZATÓRIO EM A LUA VEM DA ÁSIA

Luciana de Francesco - Divulgação

Observação: esse texto foi publicado na Revista ENTRE PARENTÊSES  da Universidade de Alfenas do departamento de Letras em 2014.  O presente texto contém 11 paginas, por ser muito extenso, e por questões didáticas, a sua publicação nesse portal será em 2 partes. Em que a primeira parte  publicada no mês de setembro, e a segunda no mês de outubro.

  

Introdução:

 

     O eremita da literatura é um dos modos como podemos tratar o escritor uberabense Walter Campos de Carvalho, um dentre os vários escritores brasileiros pouco citados nos manuais de história da literatura. A omissão soa estranha quando percebemos a singularidade dos seus textos. Todavia, não diminui a grandeza dos seus escritos.

    Ao entrarmos em contato com os seus trabalhos, encontramos inúmeros elementos  experimentais, usando, sobretudo, uma linguagem basilar simples, diferenciando-o da maioria dos escritos do período da sua produção literária. Os aspectos que o diferenciam são: a forma da narrativa, a disposição dos capítulos, as imagens surrealistas, a exploração de imagens oníricas e o forte tom de humor. Em Literatura para quê?, dialogando com Campos de Carvalho, Antoine Compagnon (2009) defende uma literatura acessível a todos, recorrendo a uma linguagem aberta, mas que faz dela linguagem particular, na medida em que expressa a subjetividade criadora.

     Sobre o experimentalismo, em Um Resgate da Obra de Campos de Carvalho: o Surrealismo e a Produção do Cômico, João Felipe Gonzaga (2007) comenta que nas décadas de 1950 e 1960, as manifestações artísticas de modo geral, bem como a literatura, concebiam a experimentação como instrumento para criação. Naquele contexto, testavam-se novas possibilidades de usar as linguagens, nas quais o escritor, despreocupado, jogava com as palavras em seus escritos.

     Campos de Carvalho mergulhou sem medo nessas águas. Em Campos de Carvalho: o último satanista, Nelson de Oliveira (2001) considera o escritor uberabense como o último dos moicanos da santíssima trindade, composta também por Guimarães Rosa e Clarice Lispector, ao passo em que experimentar é um fator decisivo na escrita desses três autores. Na verdade, o experimentalismo se transformou no modo de fazer (modus operandi) a prosa brasileira a partir de segunda metade do século XX. Nos passos do filósofo italiano Giorgio Agamben (2009), percebemos que o escritor uberabense, por mais que critique o seu tempo, carrega junto a si sua contemporaneidade 3.

     Envolvidos pelos escritos de Campos de Carvalho (2008), encontramos no surrealismo e no riso um mote para análise do livro A lua vem da Ásia, publicado originalmente em 1956, e considerado seu principal escrito. No enredo, de maneira fantasiosa, inusitada e com humor perspicaz, o protagonista Astrogildo traz à tona memórias do período em que esteve internado em um manicômio, relembrando as interações com outros internos, ressaltando a biografia de cada um deles. Astrogildo ainda fala de supostas viagens para várias cidades do Mundo, sem saber ao certo como chegou àqueles lugares, nem os motivos de ir para lá.

     Guardada todas as possibilidades hermenêuticas desse livro, uma de suas características principais é a não-lógica. Já nas primeiras linhas do primeiro capítulo, o protagonista e narrador declara que, aos 15 anos de idade, matou o seu professor de lógica (CARVALHO, 2008, p. 36), justificando a predominância dos relatos desconexos e contraditórios, em que o fluxo da memória dá a toada das histórias.

     As Imagens oníricas, a ausência de lógica e fluxo verbal incessante, sem pausas e concatenações, são traços comuns da escritura surrealista, sobretudo da poesia surrealista. O surrealista busca uma estética na qual o sonho e a imaginação prevaleçam, rompendo assim com o racionalismo da metafísica, nascido na Grécia Helênica e que perdurou até a Idade Moderna, quando desembocou nas promessas das ciências. Por conseguinte, por mais que a literatura naturalista do século XIX fosse uma tentativa de aproximação das descrições lógico-empíricas das ciências, Compagnon (2009), seguindo os passos do filósofo francês Michel Foucault, vê a literatura como possibilidade de oposição ao poder, por se tratar, em certas circunstâncias, de uma heterotopia, isto é, uma instância em que a razão não é hegemônica.

     No começo do século XX, mais precisamente no ano de 1919, surgiu na frança um movimento que pretendia revolucionar as linguagens das artes e da poesia, valorizando as antinomias próprias da condição humana, bem como rompendo com os paradigmas instituídos pela razão tecnocientífica, herdados da moral judaico-cristã. Surgia aí o surrealismo. Os preceitos surrealistas são encontrados nos Manifestos do surrealismo, de 1924 e de 1930, escritos pelo poeta francês André Breton. Os surrealistas adentraram em meandros pouco explorados pela tradição artística, valorizando aspectos que foram renegados pela tradição filosófica e científica, como a irracionalidade e o inconsciente, conceitos estes que foram compreendidos melhor a partir dos escritos dos psicanalistas Sigmund Freud e Jacques Lacan.

     Em O surrealismo: o último instantâneo da inteligência europeia, o filósofo alemão Walter Benjamim (2010), ao tratar as origens e avaliar sua receptividade e as intenções dos membros envolvidos no movimento, acredita que o surrealismo foi uma espécie instante de iluminação da vanguarda europeia do século XX. Para Benjamin,

[…] desde o início Breton declarou sua vontade de romper com uma

prática que entrega ao público os precipitados literários de uma certa

forma de existência, sem revelar essa forma. Numa formulação mais

concisa e mais dialética: o domínio da literatura foi explodido de

dentro, na medida em que um grupo homogêneo de homens levou a

‘vida literária’ até os limites extremos do possível. (BENJAMIM, 2010,p. 22).

     Desse modo, Benjamim ressalta como Breton e os outros surrealistas se preocupavam em revelar a força criadora do surrealismo, entregando-se a modos de vida extremados que é a fonte de seus escritos. Junto a isso, o filósofo alemão salienta a importância do texto Uma temporada no inferno, do poeta francês Arthur Rimbaud, considerando-o o texto original e precursor do surrealismo, pelo menos no que diz respeito à proximidade ao período do movimento, tendo em vista que eles ainda beberam em outras fontes anteriores.

     Na escrita de Campos de Carvalho estão presentes inúmeros elementos do surrealismo, mostrando-nos que a única lógica possível é nonsense: o desprezo ao rigor da lógica formal; a visão cáustica das relações humanas, mostrando-nos suas absurdidades; a descrição de imagens descritoras de ações humanas em que se tencionam moralidade, racionalidade e instinto; ou ainda as duras críticas aos desígnios da religião Católica. Aliás, nos livros do escritor uberabense, percebemos o forte tom de ironia e a negação dos valores cristãos. Alguns capítulos de  A lua vem da Ásia justificam tais afirmações, três em especial mostram isso com maior clareza. Em primeiro lugar, no capitulo intitulado Doze, Astrogildo relembra que se encontrava no pátio do hotel precisamente na hora da refeição. Estava a conversar com várias pessoas. Uma delas, disfarçada de bancário, é um pontífice que fiscalizava os empreendimentos da Igreja. O ponto de crítica reside no fato de esse pontífice, em conversa com Astrogildo, declarar a intenção de criar um novo Deus para obter mais riqueza com a sua criação. Sobre esse diálogo, assim escreve Campos de Carvalho:

     Conheci, também, embora menos intimamente, um legado pontifício que se faz passar por modesto funcionário bancário para melhor fiscalizar os altos interesses da Igreja em todo mundo, e que de certa feita me confessou estar empenhado na criação de um novo Deus – coisa nunca vista – que lhe permitia, um dia, emancipar-se economicamente. (CARVALHO, 2008, p. 43).

     Já no capítulo intitulado Não-eclesiástico, Astrogildo vende sua mãe para o estudante Vinicius, ironiza a imagem da Virgem-Maria mãe de Jesus Cristo, além de fazer críticas a outros símbolos do Cristianismo. Entretanto, aos moldes dos aforismos nietzschianos, a crítica mais corpulenta é encontrada ao final do capitulo, em que o protagonista assim diz: “Vou reescrever a história do Cristo. É só me darem lápis suficientes para isso.” (CARVALHO, 2008, p. 85). Essas palavras sucintas resumem a intenção por trás do nome dado ao capítulo. Em termos associativos, a citação lembra, além de Nietzsche, o filósofo romeno Emil Cioran, não apenas pelo estilo de escrita, mas, sobretudo por serem mestres na utilização do humor como instrumentos impiedosos de crítica à tradição metafísica.

     Em outro capítulo denominado como E, Astrogildo relembra que ficou admirado pelo silêncio ao entrar em uma igreja, pois lá se encontrava ele e uma velha beata e não havia nenhum padre para perturbá-lo. Nessas circunstâncias, ele começa a refletir sobre o Supremo Artífice do Universo, descrito por ele de tal forma: “O certo mesmo seria eu me despir até da roupa do corpo, cueca inclusive, e colocar-me nu como nasci diante do Supremo Artífice do Universo, ou que outro nome tenha (…)” (CARVALHO, 2008, p. 113). Nisso ele fica nu no altar na igreja, inspirado pela imagem de São Sebastião, e imerso no seu contato místico. A velha beata reage gritando. Outras duas pessoas entram na igreja gritando mais ainda. No meio da confusão, aparece o padre juntamente com dois policiais, e o prendem pelo crime de atentado ao pudor.

     Com isso, temos uma demonstração, por via da literatura, da maneira como Campos de Carvalho se posiciona diante do poder religioso. Posicionamento parecido com o de Breton, Paul Éluard e de outros escritores surrealistas, e outros escritores e pensadores que criticaram o poderio da igreja cristã. Em Breton ou a busca do início, Octavio Paz (1976) comenta sobre a teleologia do surrealismo, isto é, o retorno a palavra do princípio, ou uma linguagem natural que antecede à história, ao homem à técnica. Paz ainda acredita que Breton, em sua busca pela linguagem poética primordial, posicionou-se contra os valores do cristianismo, mais enfaticamente sobre a ideia de pecado. Segundo ele:

     Sua intransigência ante a ideia de pecado foi um ponto de honra: parecia-lhe efetivamente que era uma mancha, algo que lesava não o ser, mas a dignidade humana. A crença no pecado era incompatível com a sua noção de homem. ( PAZ, 1976, p. 222)

     O projeto surrealista tinha como um dos seus objetivos liberta-se das várias correntes atreladas à tradição cristã. Outro artista que bebeu da fonte do surrealismo foi o cineasta espanhol Luís Buñuel, sobretudo no que tange o olhar crítico acerca do cristianismo, comprovado em filmes tais como: A idade do ouro, a Via Láctea e Viridiana. Paz entende que Buñuel queria eliminar o peso atlante da culpa colocada sobre os ombros da humanidade durante a era cristã, sob pretextos metafísicos: “Todos os nossos crimes são os crimes de um fantasma: Deus.” (PAZ, 1976, p. 241).

Observamos ainda críticas a uma das faces dos desdobramentos da Modernidade: o horizonte do ser no mundo regido pela técnica, outra herança da moral judaico-cristã. Em Psiche e Techne: o homem na idade da técnica, o filósofo italiano Umberto Galimberti (2006) entende como técnica tanto o universo dos meios, isto é, os instrumentos tecnológicos, quanto a racionalidade que preside o seu emprego, em termos de funcionalidade e eficiência. O aclaramento dos processos históricos, sobretudo a partir do pensamento cartesiano, mostra-nos que o mundo foi tomado como objeto ao deleite das ciências e suas promessas.

Todavia, o espírito otimista da época fechou os olhos para os problemas típicos da razão tecnocientífica, como a coisificação do sujeito, a barbárie contra os povos não “civilizados” em termos tecnológicos e a exclusão de todos os que se situam fora da norma.

     Nesse sentido, o surrealismo é um movimento que projeta uma nova maneira de fazer arte, de experimentar novas linguagens poéticas, de ver o mundo de outra maneira e de se deleitar com outros conceitos estéticos, confrontantes com os modelos pré-estabelecidos. Quanto a isso, o filósofo francês Gilles Deleuze faz inferências acerca do papel do escritor que podem ser consideradas em reflexões sobre os fins do surrealismo. O escritor, sobretudo o poeta, enxerga o mundo com outros olhos, “Por isso”, afirma Deleuze, “o escritor, enquanto tal, não é doente, mas antes médico de si próprio e do mundo.” (DELEUZE, 2012, p. 13). Assim, podemos pensar que a angústia de Breton e dos demais surrealistas os levaram à procura de certa cura, ou caminhos para uma nova saúde.


Leonardo Vieira Rodrigues é Professor de Filosofia e História. Atualmente leciona em Guarulhos-SP para estudantes do Ensino Médio e Ensino Fundamental. É também pesquisador da Filosofia em temas como estética e política. É mestre em Estudos de Linguagem pelo CEFET-MG. No Facebook: leonardo.vieirarodrigues1

 

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