Entre céu, terra e corda – Por Wilson Albino Pereira – #temporadadetextos

Segredos e paixões de um rappeleiro

Foto: Wilson Albino Pereira
Wilson Albino Pereira

Para a primeira entrevista, ele escolheu a Praça Sete às 15h, em plena sexta-feira. Enquanto o aguardava, acabei emboscado por uma cacofonia infernal. O palavrório e as buzinas que soavam em timbres, durações e intensidades diversas promoviam o pandemônio.  

Ele chegou cinco minutos adiantado. Para minha surpresa ou decepção, preferiu ficar ali, naquele furdunço, a buscar um lugar menos barulhento. Pronto – pensei – danou-se o áudio. Mas segui o fluxo.

Aos 64 anos, Humberto de Vasconcelos, funcionário público, está apto, disposto e capaz para desempenhar qualquer atividade. Sua pressão arterial nunca passa de 120/80. Ou seja, normal. Também estão normais as frequências cardíaca e respiratória, e todos os hemogramas. Detalhe – ele não faz uso de nenhuma medicação. Seu abdômen está plano, braços e pernas exibem grande vigor. Em resumo – é um menino.

Algum segredo para uma vida longa, ativa e saudável? Ele respondeu que um segredo apenas não, mas vários: alimentar-se sem exageros, dormir apenas o suficiente, consumir o mínimo de bebidas alcoólicas, e, talvez, as duas dicas mais importantes: leituras diversas e atividades físicas regulares.

Humberto considera a leitura indispensável ao espírito. “Leio de tudo, principalmente textos relacionados à tecnologia”, revela. Nascido e criado em BH, é apaixonado pela história da cidade. Visitou mais de 50 sebos em Minas, São Paulo e Rio, à caça de livros raros, como dicionários toponímicos e obras que detalhassem a vida dos primeiros moradores, emigrantes e políticos que ajudaram a edificar a provinciana Curral Del-Rei.

Assunto puxa assunto. Depois de um determinado momento, não mais lembrei que estava naquele “randevu” de sonoridades simultâneas. Entre uma e outra confabulação, lancei a palavra “rapel” no meio de uma pergunta e, de repente, as cinco letrinhas surtiram um efeito mágico. Foi como se um “abretecésamo” iluminasse os olhos e o rosto do entrevistado.

Rapeleiro maluco

“Você disse rapel? Ah, é a outra parte de mim”. Instrutor de rapel, Humberto encheu os pulmões de ar e principiou uma aula. Segundo ele, todo aspirante à prática do rapel precisa, antes de tudo, fazer um curso para aprender noções de escalada e escotismo. É o momento de entender mais sobre o uso de equipamentos, como cordas (que suportam 2.500 kg), freio, cadeirinha, capacete, mosquetões, luvas.

Atividade de aventura e esporte radical, o rapel não possui regras definidas. Pode ser praticado em áreas urbanas, em prédios e viadutos. Nas áreas rurais, a escolha é por cachoeiras, cavernas e picos elevados. No instante exato em que ele falaria dos vários estilos de rapel, uma interjeição entrecortou a linha de raciocícinio. “Ah! Você sabe onde fica a pedreira Santa Rita? Os caras do ‘Morcegos Adventure’, grupo de rapel do qual amo fazer parte, vai brincar um pouquinho, no domingo… Aparece lá”, convidou.  

De frente pro abismo

No dia marcado, todos nos reunimos na praça da Cemig. Humberto trajava camiseta personificada com a logo do grupo, calça e coturnos com camuflas que lembram a estampa do exército. Mariana, candidata a rapeleira, vestida toda de preto, e Adamastor. Esse último é um Fusca 1981, que além de trava e vidro elétricos, também tem página no facebook. Inseparável companheiro de aventuras, transporta os equipamentos para a prática de rapel, ciclismo e corrida, já que seu dono tem por esportes um apetite do tamanho do mundo.  

Às 9h chegamos à tal pedreira. De acordo com Humberto, grande parte das pedras utilizadas nas construções do bairro Eldorado foi dali extraída. Há ainda, no lajedo, marcas onde eram depositadas as dinamites. O cenário impressiona pela dimensão. É largo demais, acidentado demais e assustador demais. O resultado da exploração de recursos naturais é uma chapada que, de altura mede 45 metros, e que tanto o povo do rapel, quanto o da escalada, fazem de “playground”, desejosos de tornar o inóspito ambiente em lar doce lar. Uns “mano” que curtem os “benefícios” da erva natural há tempos fazem o lugar de morada.   

Na pedreira, encontramos mais um estreante no esporte, outro Humberto, o filho. Enquanto os veteranos não chegavam, Humberto, o pai, livrou Adamastor das parafernálias. Aproveitou verificar os equipamentos. Alguém perguntou por que o instrutor trazia uma pena afixada no capacete. “É uma pena do rabo. E, quem tem pena do rabo…”

Enquanto repassava as instruções, Humberto volta e meia olhava em meus olhos e dizia: “Wilson, preste bastante atenção, tá legal, meu caro?” Além de equipamentos para ele, para o filho e para Mariana, vi que havia mais um, sobressalente. Por curiosidade ou inocência, perguntei a necessidade de quatro equipamentos, se só três desceriam o pedregoso paredão? “É pra você descer, meu chapa”, revelou.

Levei uns alguns segundos medindo com os olhos aquele chapadão. Imaginei-me grudado na pedrona, amendrontado feito Prometeu. Retruquei: “Eu? Não vou descer porra nenhuma!” Só percebi o quanto havia falado alto quando o instrutor e seus alunos caíram na gargalhada.

Minutos depois chegou o restante da trupe. Disfarçados de motociclista, vigilante, enfermeiro, advogado, administrador, médico, são todos, a bem da verdade, rapeleiros e se dizem amantes do que existe entre céu e terra – liberdade. Praticantes há mais de uma década, foram unânimes ao afirmar que o friozinho na barriga, sentido na primeira vez, ainda é o mesmo.

Ah, e antes que me esqueça: ali, cara a cara com os obstáculos naturais, “os dois alunos receberam dez com louvor”.


*Wilson Albino Pereira é Jornalista e Fotógrafo em Contagem – MG. Para contratar seus serviços, email para : wilsonalbino.jornalismo@gmail.com


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