DOS SIMULACROS E SIMULAÇÕES – Por Rodrigo Starling – #temporadadetextos

Fonte: Pixabay
Rodrigo Starling

A cada autor, por esforço ou merecimento, compete um grau de persuasão, nível onde são permitidos delitos, não raro, sequestros. Primeiro das retinas, depois, do coração de um leitor. Convenhamos: todo escritor é, antes de tudo, um sedutor.

Eis a proposta deste terceiro artigo, seduzir e prender os leitores do Portal Nova Contagem, fazê-los refletir sobre a precessão dos simulacros e simulações.

Como segunda entrada nos dicionários, por precessão encontramos um fenômeno astrofísico, que consiste na mudança do eixo de rotação de um objeto. Rotação giroscópica, isto é, a partir de pontos de referências celestes. Mas, se grande parte da humanidade se encontra confortável na caverna dos simulacros e simulações, o que somos? “Peões dos Deuses”?

Nesta linha, em perspectiva vetorial, podemos dizer que todo o mundo físico (pelo menos assim o reconhecemos) é uma grande ilusão, um grande simulacro. Eis o segredo, o valor universal e atemporal do Mito da Caverna (vide artigo anterior), sempre atual e atualizável.

Decerto, estamos aprisionados, tal um gênio da lâmpada (outro nome para a caverna) esperando um novo Amo, um novo senhor capaz de nos encontrar, de nos seduzir com um novo produto, uma cibernovidade (além das atuais) que, ao estimular (esfregar) a lâmpada, seja capaz de nos fazer sair… Nada é de graça! Os amos do capital querem apenas: nosso TEMPO (conectados), nosso DINHEIRO (produtos adquiridos) e nossos DADOS (gratuitamente, “doados”). Eis o círculo vicioso do qual, urgentemente, precisamos sair.

TEMPO – Conceito fluido, escorregadio, em que os eventos ocorrem numa sucessão aparentemente irreversível de passado, presente e futuro. Ou melhor, de nascimento, desenvolvimento e morte. Temos consciência de nossa finitude, ou seja, uma memória! Habitamos momentaneamente um corpo (hardware), programado por uma consciência (software). Nas palavras de Merleau Ponty “(…) Nós somos tempo. O tempo existe porque nós existimos”.

 

Mas… Ter consciência do tempo não significa usá-lo conscientemente.

Alerta que serve a nossa condição VirtuReal: o tempo que permanecemos conectados não pode significar “conecAtados”: amarrados, presos, ligados, sem qualquer noção do que se passaTEMPO.

DINHEIRO – O dinheiro é um bom criado, mas um mau senhor.”, preconizava o filósofo e ensaísta inglês Francis Bacon (1561-1626). O mesmo se aplica a alta tecnologia. Talvez porque ambas foram criadas pelo homem, mestre dos simulacros, tal um Frankenstein, onde o criador perde o controle sobre a criatura.

Uma breve história do dinheiro, apenas para ajustar o foco: no princípio era o escambo, e o escambo estava na necessidade, e o escambo era a forma dos homens, verdadeiramente, cooperarem entre si. Ele era o combustível do progresso e da prosperidade, rumo a uma sociedade livre, igualitária e fraterna. Houve necessidade de se monetizar metais, de se criar moedas e papeis, pelo aumento e variedade das transações. Mas grande parte dos homens, insatisfeitos, não souberam permanecer cooperando entre si.

Na ganância e egoísmo humanos, não no dinheiro, está a origem de todos os males.

Surgem os governos, bancos, escolas, hospitais, templos, e uma série de instituições, todas necessárias, tendo o dinheiro, a confiança e a fé como combustíveis! Mas boa parte delas se fundaram – ou se corromperam – pela ganância de alguns homens que, pela lei do mais forte, pela rédia do poder, da política, às vezes da religião, se julgaram no direito de explorar os mais fracos: “juros” astronômicos, monetários e “espirituais”, que ainda hoje perpetuam, acima do bom senso e da justiça (violação da própria consciência), independente das leis, divinas ou humanas.

DADOS – A sociedade evolui em saltos, a Revolução Digital, é um salto por excelência. No foco dessa Era da Informação, o uso em escala dos circuitos lógicos digitais e tecnologias derivadas, como o microprocessador, a rede de computadores, a fibra óptica, o computador pessoal, o telefone celular e a Internet, transformando definitivamente os meios de produção, comércio e negócios.

Algoritmo e Big Data, bases para compreensão do tópico “DADOS”, termos indispensáveis para quem deseja , seriamente, tomar as rédeas da própria vida: estabelecer os termos de um CONTRATO VIRTUAL, relação consciente e benéfica entre o indivíduo e a tecnologia.

Algoritmo é uma sequência finita de ações executáveis que visam obter uma solução para um determinado problema. Ou seja, “são procedimentos precisos, não ambíguos, mecânicos, eficientes e corretos”. Como exemplo ilustrativo, uma receita de bolo: requer a ordem e os ingredientes corretos, para o melhor resultado. Já Big Data, ou megadados, é a área do conhecimento que estuda como tratar, analisar e obter informações a partir de conjuntos de dados grandes demais para serem analisados por sistemas tradicionais. O surgimento da Internet aumentou de forma abrupta a quantidade de dados produzidos. Hoje, diariamente, geramos mais de 2,5 quintilhões de bytes. O Big Data é essencial nas relações econômicas e sociais, representa uma grande evolução tecnológica, principalmente no ramos dos negócios.

Algoritmos, frequentemente são criados e programados, para capturar os mais diversos dados, dos mais simples aos mais complexos, alimentando, em moto perpétuo, o Big Data. Dados que valem ouro e são comercializados, por nichos e interesse, cada vez mais refinados. Arrisco dizer: hoje, ou muito em breve, o Big Data conhecerá mais sobre nós do que nós mesmos. Denúncia antecipada por Jean Baudrillard (1929-2007), o filósofo dos simulacros e simulações: “Ninguém daria o menor apoio, nem teria a menor devoção por uma pessoa real.”

Discordamos… Afinal, consideramos alto o preço cobrado pelos amos do capital para nos tirar, artificialmente, da Caverna. TEMPO, DINHEIRO E DADOS são itens básicos de sobrevivência. No próximo artigo, ajustaremos as velas para seguir viagem.


*Rodrigo Starling é Filósofo, Escritor e Poeta, natural de Belo Horizonte/MG. Pós em Gestão de Políticas Sociais (PUC Minas) e Mestre em Ciências Políticas (ULHT Lisboa). Autor de 12 livros, figura em coletâneas do Brasil e exterior (EUA, Equador, Itália, Japão e Uruguai). Em 2004, fundou a Oficina de Produção Artística — OPA, hoje, MINAS VOLUNTÁRIOS, ao qual preside. Em 2011, criou o Selo Editorial Starling, responsável pelas antologias Cem Poemas, Cem Mil Sonhos e Provérbios da Lama. Laureado: Menção Nosside XXIV — UNESCO World Poetry Directory; Medalha Resgate da Cidadania (2008) e Medalha Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais — INBRASCI (2012). Em 2013, nomeado Embaixador pelo Cercle Universel des Ambassadeurs de La Paix — CUAP, de Genebra/Suíça e Orange/França. Em 2015/16, atuou como moderador (Rio Dialogues) e consultor (UNV), ambos junto à Organização das Nações Unidas — ONU. Cofundador do Instituto Ekopolis, sediado em Contagem/MG.


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