“DO CONTRATO VIRTUAL – Pacto entre o Homem e a Tecnologia” – por RODRIGO STARLING #temporadadetextos

Fonte - Shutterstok

Que ninguém hesite em afirmar que o virtual é real. Não o fosse, não teríamos uma cibercultura e nem um ciberespaço. Transição franca e em curso: do século dos nervos para o século da hiperconectividade, da velocidade, da aceleração.

Nada é ficção.Testemunha de uma pandemia global que ameaça toda a humanidade – escrevo e oferto – aos leitores do Portal Nova Contagem, o que seria o trabalho de décadas, quem sabe uma vida.

Seguirei confiante! Karl Wallenda, o grande equilibrista, faleceu no dia em que relutou, preocupado demais em conferir os nós entre as extremidades. Vida ou morte literária, eis o que me espera.

Apresento-vos este CONTRATO VIRTUAL, acordo expresso entre o virtual e o real: VirtuReal! Como trataremos de agora em diante. É a sequência lógica, passo seguinte a leitura – histórica, crítica e filosófica – de dois trabalhos anteriores: O CONTRATO SOCIAL de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e o CONTRATO NATURAL de Michel Serres (1930-2019).

Rousseau, logo na abertura de seu O Contrato Social (1762), indaga “O homem nasceu livre e, não obstante, está acorrentado em toda parte”; Sua proposta de contrato visa romper estas correntes, restituindo o homem a liberdade. Isto só é possível pela supremacia da Vontade Geral (construída coletivamente – o estado social) em detrimento de seus desejos privados (típicos do estado de natureza).

Mas, o que seria esta Vontade Geral? Responde o filósofo: “a alienação total de cada indivíduo, com todos os seus direitos, dando lugar a toda uma comunidade, a um corpo moral e coletivo”.

Para garantir a legitimidade deste Contrato Social, baseado no consentimento, Rousseau argumenta que A Vontade Geral não é simplesmente a opinião da maioria. O que a distingue é a sua qualidade, o seu caráter ético, capaz de conduzir o corpo social para a verdadeira democracia, para o governo do povo.

Saltemos a fração de dois séculos… Décadas de 80 e 90, época em que se intensificaram as discussões sobre o meio ambiente e a ideia de Desenvolvimento Sustentável, em sua definição clássica: “O desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprirem suas próprias necessidades”.

É nessa época vem a luz o Contrato Natural (1990) de Michel Serres. Trata-se de reflexão sobre a relação homem-natureza. É uma escrita intimista, poética, vibrante, típica de um clássico atemporal. Nossa alavanca para mover o eixo.

Tal como Serres, pretendemos levar a sério todas as mutações do mundo VirtuReal, par e passo aos acontecimentos. Aqui, ortodoxos tendem a dizer: isto não é filosofia, e nem ciência. Se ocorrer, será grande elogio… Um pensador, penso, não deve temer a crítica, tampouco desejar um rótulo.

Serres propõe pensarmos a natureza enquanto “sujeito” que, por longo tempo, teve e tem os seus direitos violados. Subtraída ao longo dos séculos, era certo que um dia reagiria, rebelando-se, com a linguagem que lhe é própria: alterações climáticas, colapsos pluviométricos e biológicos…. Pandemias!

Decerto, somos a única espécie capaz de justificar, por meio de discursos racionais, a negação do amor e as consequentes negações do outro e da natureza. Por isso, é latente a necessidade de aditar nosso Contrato Social transformando-o em Contrato Natural.

Finalmente, este escriba apresenta a urgência de um Contrato Virtual (pacto entre os homens e a tecnologia),em sua condição híbrida e irreversível, ou seja, a VirtuReal.

No próximo artigo, daremos sequência com uma releitura (digital) da Caverna de Platão, para nós, “o” mito universal por excelência.


*Rodrigo Starling é Filósofo, Escritor e Poeta, natural de Belo Horizonte/MG. Pós em Gestão de Políticas Sociais (PUC Minas) e Mestre em Ciências Políticas (ULHT Lisboa). Autor de 12 livros, figura em coletâneas do Brasil e exterior (EUA, Equador, Itália, Japão e Uruguai). Em 2004, fundou a Oficina de Produção Artística — OPA, hoje, MINAS VOLUNTÁRIOS, ao qual preside. Em 2011, criou o Selo Editorial Starling, responsável pelas antologias Cem Poemas, Cem Mil Sonhos e Provérbios da Lama. Laureado: Menção Nosside XXIV — UNESCO World Poetry Directory; Medalha Resgate da Cidadania (2008) e Medalha Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais — INBRASCI (2012). Em 2013, nomeado Embaixador pelo Cercle Universel des Ambassadeurs de La Paix — CUAP, de Genebra/Suíça e Orange/França. Em 2015/16, atuou como moderador (Rio Dialogues) e consultor (UNV), ambos junto à Organização das Nações Unidas — ONU. Cofundador do Instituto Ekopolis, sediado em Contagem/MG.