Dizer adeus aos pais



Nossos pais nos deram pouco, foram relapsos e egoístas ou deram demais, sendo intrometidos e demandantes. Por falta ou excesso, nunca estiveram ali na medida exata dos nossos desejos e expectativas -sabe-se lá quais sejam.

O intervalo entre o que eles nos deram e nossos anseios é o espaço que usamos para justificar a melancolia pelo que acreditamos que poderíamos ter sido, mas não fomos. Se eles tivessem ficado mais em casa, se tivessem mantido o casamento ou se separado, se nos escutassem mais ou nos incentivassem mais, ou gostado um pouco mais de nós, hoje seríamos bem sucedidos e felizes.

Com quem comparamos nossos pais, cada vez que tentamos justificar nossas frustrações? Com os pais dos outros -idealizados por não serem os nossos-, mas, acima de tudo, com nossos próprios pais durante nossa infância.

O mais encantador ao ver uma criança brincando é perceber sua total entrega ao presente, ao aqui e agora. Observando-a entretida, veremos que, de tempos em tempos, ela se volta à procura do olhar de seus cuidadores. Afinal, não custa nada checar se o céu continua sobre nossas cabeças. E os pais costumam estar ali, mais ou menos atentos, mais ou menos de saco cheio.

Quando uma onda chega, alguém vem resgatá-la, no mais das vezes. Um ser gigante, que com apenas uma mão a salvará do afogamento ou, no mínimo, do caldo. De sorte que a criança mal chega a crer verdadeiramente no perigo, pois a garantia e a responsabilidade estão nas mãos do outro.

Mal sabem elas como temem e sofrem os adultos que por elas zelam, fazendo cara de que tudo está sob controle. Nunca é demais reforçar a importância dessa sensação de segurança para que haja o que chamamos de infância -condição que não existe para grande parte das crianças brasileiras, apesar dos esforços hercúleos de seus pais.

Já na adolescência, entra em jogo a necessidade de enfrentar desafios e perigos, embora não acreditemos totalmente nos riscos envolvidos. Fase na qual se arrisca muito tentando descobrir, afinal, de quem são os superpoderes.
Leia mais (12/14/2020 – 23h15)

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