Da Caverna Digital – Por Rodrigo Starling – #temporadadetextos

Fonte: Pixabay

 

Rodrigo Starling

Neste segundo artigo, vimos aprofundar a necessidade do CONTRATO VIRTUAL: pacto entre os homens e a tecnologia, em sua condição híbrida e irreversível, ou seja, a VirtuReal. Passo seguinte ao Contrato Social (1762), de Rousseau, e ao Contrato Natural (1990), de Serres.

Comecemos por uma atualização livre da Alegoria da Caverna, de Platão, para nós, o mito universal por excelência. Claro! Veremos semente e fruto separadamente. Estamos na época das alporquias, enxertos, mutações e hibridismos, não queremos que os ossos, átomos ou rastros dos antepassados – tampouco os olhos de um leitor atento – saltem pelas órbitas.

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Na versão original, Platão apresenta uma metáfora da condição humana, da importância do conhecimento filosófico para a obtenção da consciência, isto é, a saída do Mundo Sensível (este mundo, para ele, falso e imperfeito), para o acesso ao Mundo das Ideias (para ele, o mundo real e verdadeiro). 

Para se ter uma ideia, da importância e valor deste texto, basta observar a história da cultura ocidental, a diversidade de autores, pensadores, filósofos e cineastas que, vez o outra, fazem referência ao Mito. Apenas para citar alguns: Calderón de la Barca, na obra A vida é Sonho, Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo, ou mesmo o Nobel de Literatura, José Saramago, em seu livro A Caverna. Mais sutilmente, por minha conta e risco, nas obras O Aleph de Borges e também O Castelo de Kafka. No cinema, destacam-se os filmes: O Show de Truman, O Quarto de Jack e o aclamado Matrix.

Em sua Alegoria ou Mito da Caverna, Platão relatou a estória de alguns homens que nasceram aprisionados, virados para a parede, no fundo de uma caverna. Atrás deles um muro, na altura de um homem. Atrás desse muro transitam pessoas, que carregam objetos sobre as cabeças, transeuntes que conversam normalmente. Atrás destes homens, uma grande fogueira, e também o sol, de forma a projetar imagens e sons no fundo da caverna. Para aqueles prisioneiros a única realidade era a soma destas imagens e sons. Imaginemos que um destes prisioneiros escape:

Choque: a visão é ofuscada pelo excesso de luz;

Descoberta: a realidade (até ali), era feita de sombras;

Retorno: com a luz refletida em si, deseja libertar os colegas;

Julgamento: os prisioneiros não acreditam em seu relato, da existência de uma realidade maior;

Loucura: assim será visto pela maioria.

Mas, aquele que viu ou vê a Luz (de Platão aos nossos dias), terá o maior dos benefícios, qual seja: um sentido para a vida!

Eis que revelo, a luz da razão, intuição e ciência extremas, o sentido da vida e deste CONTRATO VIRTUAL, nossa releitura:

Em 2020 d.C., com sua releitura do Mito da Caverna de Platão, Starling relatou aos leitores do Portal Nova Contagem a estória de uma geração de humanos (usuários?) que nasceram aprisionados, virados para a tela, no fundo de um quarto. Atrás deles um dispositivo, capaz de captar dados, imagens e sons, na estatura de uma pessoa. Atrás desse dispositivo, uma rede global de dados, capaz de interpretar o que carregamos em nossas cabeças, algoritmos que conversam entre si – e se reproduzem – mundialMENTE. Por detrás destes algoritmos, uma grande rede de empresas, e também de comércio de dados, de forma a oferecer produtos, alinhados aos seus desejos mais secretos, direto em suas telas (quase simultaneaMENTE). Para aqueles prisioneiros a única realidade era o que se via nestas telas, que possuem versões portáteis diversas, cabendo na palma de uma mão. Imaginemos que um destes prisioneiros escape, bravaMENTE:

Choque: a visão é ofuscada pelo excesso de luz e ausência de “likes”;

Descoberta: a realidade (até ali), era feita de simulacros e simulações;

Retorno: com a luz refletida em si, deseja alertar os colegas;

Julgamento: os prisioneiros não acreditam em seu relato, sobre o que está por trás do tempo de vida on-line, dos recursos investidos, da captura ilícita de dados;

Loucura: assim será visto pela maioria, que continuará excessivamente conectada, sem estabelecer, em foro íntimo, os termos de sua relação com a alta tecnologia. 

Finalizo por hoje, fazendo coro ao questionamento de Serres Em que linguagem falam as coisas do mundo, para que possamos nos entender por contrato?”. No próximo artigo, será a vez dos simulacros e simulações, afinal, este texto é ou não real? Necessário ou irrisório?


*Rodrigo Starling é Filósofo, Escritor e Poeta, natural de Belo Horizonte/MG. Pós em Gestão de Políticas Sociais (PUC Minas) e Mestre em Ciências Políticas (ULHT Lisboa). Autor de 12 livros, figura em coletâneas do Brasil e exterior (EUA, Equador, Itália, Japão e Uruguai). Em 2004, fundou a Oficina de Produção Artística — OPA, hoje, MINAS VOLUNTÁRIOS, ao qual preside. Em 2011, criou o Selo Editorial Starling, responsável pelas antologias Cem Poemas, Cem Mil Sonhos e Provérbios da Lama. Laureado: Menção Nosside XXIV — UNESCO World Poetry Directory; Medalha Resgate da Cidadania (2008) e Medalha Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais — INBRASCI (2012). Em 2013, nomeado Embaixador pelo Cercle Universel des Ambassadeurs de La Paix — CUAP, de Genebra/Suíça e Orange/França. Em 2015/16, atuou como moderador (Rio Dialogues) e consultor (UNV), ambos junto à Organização das Nações Unidas — ONU. Cofundador do Instituto Ekopolis, sediado em Contagem/MG.

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