Covid-19: Sem separação de recicláveis, parte dos catadores de BH fica sem renda


Os carrinhos lotados de materiais recicláveis que garantiam a renda de catadores em Belo Horizonte estão vazios e o pouco dinheiro que se conseguia para o sustento da família através da venda desses materiais já não chega mais. Com o isolamento social e o consequente fechamento do comércio devido à pandemia de coronavírus, os materiais recicláveis deixaram de ser disponibilizados pela população aos catadores. As coletas seletivas de porta em porta e nos chamados pontos verdes também foram interrompidas pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) ainda em março, como medida de segurança e não há previsão de retorno.

Segundo o diretor da Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Materiais Recicláveis (Asmare), Fernando Godoi, o trabalho de captação desses materiais em Belo Horizonte tem contado apenas com quatro catadores da associação. “Temos quatro catadores trabalhando. Com a paralisação de todas as cidades os catadores não tem material para pegar. A renda da Asmare caiu muito, nós tivemos que reduzir muitos trabalhadores que trabalham não só com a captação, mas também internamente. Nós estamos com 18 catadores parados, é difícil pra gente”, lamenta.  

Com 28 anos dedicados a profissão de catador de papel, Valdeci Rodrigues da Silva, 52, afirma que fica triste em ver a sede da Asmare com poucos materiais recolhidos. Ele conta que antes da pandemia, apenas em uma avenida da capital já era possível lotar o carrinho e voltar cedo para casa.

“Somente em duas lojas na (avenida) Olegário Maciel eu já enchia o carrinho até o ‘talo’. No máximo às 17h eu já estava aqui. Quando não enchia, aí sim ia até na Amazonas para conseguir deixar o carrinho cheio. Aí eu ficava até às 22h. Assim chegava quase 1h da manhã, todos os dias. Agora você vai pra rua e corre o risco de não achar nada, porque a maioria das lojas estão fechadas. Assim não dá pra ser feliz”, conta. 

Com máscara, Silva conta que ainda tem ido pras ruas em busca de materiais recicláveis, mesmo em meio a pandemia. Ele diz que até gostaria de ficar em casa durante o isolamento social, mas continua trabalhando para poder sobreviver. “Quem tem dinheiro fica em casa e quem não tem vai pra rua, eu dou a dica assim. Como uma pessoa vai sobreviver sem dinheiro? Ou morre de fome ou arrisca o dinheiro dele indo pra rua”, disse. 
 

Esperança
Com a ajuda de doações a catadora de papel Maria da Paixão, 68, conta que “tem levado a vida como Deus quer”. Para ela trata-se de uma fase ruim que em breve vai passar. “Porque Deus está me dando força. Com Deus na frente eu não tenho medo de nada, se Deus quiser tudo vai voltar”,disse. Com o início da pandemia, ela chegou a ficar dois meses em casa, em isolamento. Integrante do grupo de risco para o coronavírus devido a idade, Maria da Paixão conta que recentemente decidiu voltar a trabalhar e planeja retornar às ruas com seu carrinho, assim que for possível.

“Eu vou pegar o meu carrinho e ir pra rua. É minha alegria quando eu saio para a rua com o meu carrinho. Eu pego os meus papéis e converso com os seguranças (dos comércios). Puxar meu carrinho é a minha alegria”, sorri.  

Incêndio
Além da dificuldade de conseguir material reciclável em meio à pandemia de coronavírus, parte do estoque foi perdido em um incêndio no mês passado que atingiu o depósito da Asmare, localizado na avenida do Contorno, no número 10.555. A área danificada está compreendida em um espaço de 200 metros quadrados. Um muro também desabou, mas ninguém se feriu. 

Um inquérito foi aberto pela Polícia Civil para investigar as causas do incêndio. 

Coleta Seletiva
A Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) de Belo Horizonte interrompeu no dia 22 de março o serviço de coleta seletiva, tanto de porta em porta quanto dos chamados pontos verdes. A medida tem o objetivo de evitar que coronavírus seja disseminado pelos materiais recicláveis. Por meio de nota, a SLU informou que ainda não há uma data para a retomada da coleta, mas que a orientação é de que materiais sejam descartados na coleta domiciliar rotineira.

Antes da pandemia, os materiais reciclados eram direcionados diretamente para as cooperativas parceiras, agora uma nova etapa foi acrescentada ao processo.“Esse lixo domiciliar ensacado é levado para a Central de Tratamento de Resíduos Macaúbas, em Sabará, que é uma empresa contratada pela Prefeitura que segue todos os padrões de segurança ambiental para esse tipo de atividade”, informou a SLU.

Como forma de auxílio, a SLU também destacou  que a “Prefeitura está distribuindo cestas básicas aos trabalhadores de materiais recicláveis de seis cooperativas ou associações desde o dia 9 de abril”. Ainda de acordo com a superintendência “ao todo, 310 catadores têm direito ao benefício nos meses de abril, maio e junho” e que “portanto, 100% dos cooperados foram incluídos nesse programa de ajuda”.

Números
De acordo com a SLU, cerca de 608 toneladas de materiais recicláveis são recolhidos por mês na capital, sendo 138 toneladas dos equipamentos de entrega voluntária – chamados pontos verdes – e 470 toneladas recolhidos de porta em porta. Todo o material passa por triagem no Centro de Tratamento de resíduos Macaúbas, em Sabará, na região Metropolitana. Segundo a SLU, após a triagem, 67 toneladas são enviadas às cooperativas parceiras do município.

“No caso da Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reaproveitável (Asmare), a Prefeitura, por meio da SLU, destina a ela uma média de 51 toneladas de resíduos recicláveis por mês”, informa a SLU.

 

Fonte do link